O risco climático é amplificado por desigualdades históricas
Uma pesquisa da Universidade de Oxford revela que onze cidades brasileiras estão entre as mais vulneráveis do mundo às ondas de calor extremo, com Manaus liderando o ranking nacional. O estudo nos lembra que o risco climático não é apenas uma questão de temperatura, mas de justiça: são as desigualdades históricas — a precariedade das moradias, a ausência de árvores nas periferias, o acesso limitado à energia — que determinam quem sofre mais. Num planeta que aquece, a vulnerabilidade é também um espelho da sociedade que construímos.
- Onze cidades brasileiras figuram entre as mais vulneráveis do mundo ao calor extremo, com Manaus na 27ª posição global — um alerta urgente para um país que ainda subestima esse risco silencioso.
- Manaus registrou 225 ondas de calor em cinquenta anos, mas quase 90% delas ocorreram apenas nas duas últimas décadas, revelando uma aceleração que não pode ser ignorada.
- O calor mata sem deixar rastros visíveis: agrava doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, atingindo com mais força idosos, crianças e trabalhadores expostos ao sol em bairros com infraestrutura precária.
- A desigualdade urbana transforma o risco climático em injustiça: nas periferias com menos árvores e casas mais frágeis, o calor é mais intenso e as famílias raramente têm condições de usar ar-condicionado.
- Pesquisadores recomendam arborização urbana nas periferias, sistemas de alerta precoce e padrões construtivos sustentáveis — mas alertam que soluções importadas de países ricos não funcionam sem adaptação à realidade local.
Uma pesquisa internacional liderada pela Universidade de Oxford mapeou as cidades do planeta mais expostas aos riscos das ondas de calor e trouxe um alerta direto ao Brasil: onze de suas maiores cidades estão entre as mais vulneráveis do mundo. O estudo, publicado na revista Sustainable Cities and Society, analisou 205 centros urbanos com mais de um milhão de habitantes na América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, cruzando dados climáticos com informações sobre renda, moradia, acesso à energia e infraestrutura de saúde.
Manaus lidera a lista brasileira, na 27ª posição global, seguida por Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre. O achado central da pesquisa é que a vulnerabilidade ao calor extremo não depende apenas da temperatura: ela é moldada por fatores sociais como renda, qualidade das moradias, cobertura arbórea e acesso a serviços de saúde.
Manaus é um exemplo revelador. Cercada pela maior floresta tropical do mundo, a cidade sofre intensamente com ilhas de calor urbano: à medida que se expandiu, perdeu vegetação e impermeabilizou o solo, fazendo com que certas áreas registrem temperaturas até 3°C mais altas que as regiões florestadas ao redor. Nos últimos cinquenta anos, a cidade viveu 225 ondas de calor — e quase 90% delas ocorreram apenas nas duas últimas décadas.
O calor extremo mata de forma silenciosa, agravando doenças do coração, dos pulmões e dos rins. Os mais atingidos são idosos, crianças e trabalhadores ao ar livre. Mas há uma camada adicional de injustiça: nas periferias, onde há menos árvores e as casas são mais precárias, o calor é mais intenso e muitas famílias não têm condições de usar ventiladores ou ar-condicionado continuamente.
Os pesquisadores rejeitam a ideia de copiar soluções desenvolvidas em países ricos e recomendam arborização urbana nas periferias, sistemas de alerta precoce, fortalecimento das redes elétricas e padrões construtivos adaptados às condições locais. Com as ondas de calor tendendo a se tornar mais frequentes e intensas, o estudo oferece um mapa claro do problema — e aponta que o que falta agora é vontade política para agir.
Uma pesquisa internacional liderada pela Universidade de Oxford mapeou as cidades do planeta mais expostas aos riscos das ondas de calor, e o resultado traz um alerta específico para o Brasil: onze de nossas maiores cidades figuram entre as mais vulneráveis do mundo. O estudo, publicado na revista Sustainable Cities and Society, analisou 205 centros urbanos com mais de um milhão de habitantes espalhados pela América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, combinando dados climáticos com informações sobre renda, moradia, acesso à energia e infraestrutura de saúde.
Manaus encabeça a lista brasileira, ocupando a 27ª posição no ranking global. Depois dela vêm Goiânia (46ª), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª). Na América Latina, apenas Barranquilla, na Colômbia, e Porto Príncipe, no Haiti, aparecem em posições mais críticas que a capital amazonense. O achado central da pesquisa, liderada pelo pesquisador Malik Aqeel, é que a vulnerabilidade ao calor extremo não depende apenas de quanto faz calor. Ela é moldada por fatores sociais e urbanos tão decisivos quanto a temperatura: a renda das pessoas, se têm acesso à eletricidade, a qualidade das casas onde vivem, quantas árvores há nas ruas, como funcionam os hospitais e quantos idosos e crianças moram na cidade.
Manaus oferece um exemplo particularmente revelador. Cercada pela maior floresta tropical do mundo, a cidade deveria ser naturalmente fresca. Mas sofre intensamente com o que os cientistas chamam de ilha de calor urbana. Conforme a cidade se expandiu, o solo foi impermeabilizado e a vegetação desapareceu. Resultado: em certas áreas, a temperatura média é até 1,7°C mais alta do que nas regiões florestadas ao redor. Nos dias mais quentes, essa diferença chega a 3°C. Nos últimos cinquenta anos, entre 1970 e 2019, Manaus registrou 225 ondas de calor. O preocupante é que quase 90% delas ocorreram apenas nas duas últimas décadas desse período, sinalizando uma aceleração clara.
O calor extremo mata de forma silenciosa. Diferentemente de enchentes ou furacões, que deixam rastros visíveis, as ondas de calor matam principalmente ao agravar doenças do coração, dos pulmões e dos rins. Os mais vulneráveis são idosos, crianças, pessoas que trabalham ao ar livre e moradores de áreas com infraestrutura precária. A Organização Mundial da Saúde vem alertando que o número de pessoas expostas a temperaturas perigosas cresce em praticamente todas as regiões do planeta, impulsionado pelas emissões de gases de efeito estufa.
Mas há uma camada adicional de injustiça nessa história. A desigualdade urbana amplifica tudo. Nos bairros periféricos, onde há menos árvores e as casas são mais precárias, o calor é mais intenso. Muitas famílias de baixa renda não têm ventiladores ou ar-condicionado. E quando têm, o custo da eletricidade torna impossível usá-los continuamente. Os pesquisadores argumentam que o risco climático é amplificado por desigualdades históricas que já marcam essas cidades.
O estudo rejeita a ideia de que soluções desenvolvidas em países ricos possam ser simplesmente copiadas para o Brasil e outras economias emergentes. As cidades latino-americanas enfrentam um desafio composto: adaptar-se ao aumento das temperaturas em um contexto de desigualdades profundas, crescimento urbano acelerado e infraestrutura insuficiente. As recomendações dos pesquisadores incluem expandir a arborização urbana, especialmente nas periferias, criar sistemas de alerta precoce para ondas de calor, fortalecer as redes elétricas e adotar padrões de construção que reduzam naturalmente o aquecimento dos imóveis. Mas tudo isso exige que as soluções sejam pensadas a partir das condições locais de cada cidade, não importadas prontas de fora.
Com as ondas de calor tendendo a ficar mais frequentes e intensas nas próximas décadas, a adaptação das cidades brasileiras se tornou um dos principais desafios climáticos que o país enfrenta. O estudo de Oxford oferece um mapa claro do problema. O que falta agora é a vontade política de agir sobre ele.
Citações Notáveis
A vulnerabilidade não depende apenas da intensidade do calor, mas de fatores como renda, acesso à eletricidade, qualidade das moradias e capacidade dos sistemas de saúde— Pesquisadores da Universidade de Oxford, autores do estudo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Manaus, cercada pela Amazônia, é a cidade mais vulnerável do Brasil ao calor extremo?
Porque a vulnerabilidade não é apenas sobre a floresta ao redor. É sobre o que acontece dentro da cidade. Conforme Manaus cresceu, o solo foi selado, as árvores foram cortadas, e agora certas áreas registram temperaturas 3°C mais altas do que a floresta próxima. A urbanização criou ilhas de calor que a floresta não consegue resfriar.
Então é possível estar cercado de natureza e ainda sofrer com calor extremo?
Exatamente. E isso revela algo importante: o risco climático é local, não regional. Depende de como a cidade foi construída, onde as pessoas moram, se têm árvores na rua, se conseguem ligar o ar-condicionado.
Qual é o papel da desigualdade nessa história?
É central. Nos bairros ricos, há mais árvores, casas melhores, acesso a refrigeração. Nos bairros pobres, tudo é mais quente e mais precário. O calor extremo não afeta a todos igualmente. Ele encontra as fraturas que já existem na cidade.
Se o problema é social e urbano, não apenas climático, as soluções também precisam ser diferentes?
Precisam ser muito diferentes. Não adianta copiar o que funciona em cidades ricas. Uma solução precisa considerar a renda das pessoas, o tamanho da cidade, o que já existe de infraestrutura. Arborização em periferia, alertas precoces, construções que não aqueçam tanto. Mas tudo adaptado ao contexto local.
Qual é o risco se nada for feito?
As ondas de calor vão ficar mais frequentes e mais intensas. E vão continuar matando de forma invisível, através de doenças do coração, dos pulmões, dos rins. Os mais velhos, as crianças, os que trabalham ao ar livre. E sempre os mais pobres primeiro.