Marejado, frustrado, quase agredido. Ninguém quer que aquela seja a última imagem.
Três meses após deixar o Qatar com o rosto entre as mãos e o legado em suspenso, Cristiano Ronaldo recebe uma nova convocação — não como gesto de nostalgia, mas como aposta consciente de um novo ciclo. Roberto Martinez, o técnico que chegou para reconstruir Portugal após oito anos de Fernando Santos, escolheu começar pelo começo: o homem que transformou uma seleção em potência. Aos 38 anos, Ronaldo terá a chance de reescrever não apenas sua despedida, mas o próprio sentido de continuidade no futebol.
- A saída de Ronaldo do Qatar foi marcada por lágrimas, polêmicas e a imagem de um ídolo que parecia ter chegado ao fim de uma era.
- Seu comportamento durante o torneio — a explosão ao ser substituído, a perda de titularidade — abriu feridas que os jornais portugueses trataram como epitáfios.
- A chegada de Roberto Martinez criou uma janela inesperada: antes de convocar, o técnico ligou para Ronaldo, sinalizando confiança e abrindo um diálogo que a gestão anterior havia encerrado.
- A convocação para enfrentar Liechtenstein e Luxemburgo vai além da qualificação — é o primeiro passo de um projeto que mira a Copa de 2026 com Ronaldo como referência de uma geração inteira.
- Jovens como Bruno Fernandes, João Félix e Rafael Leão, que cresceram sob a sombra e a inspiração de Ronaldo, agora caminham ao seu lado rumo a um novo horizonte.
No dia seguinte à eliminação de Portugal no Qatar, os jornais soavam como epitáfios. A derrota para Marrocos por 1 a 0 foi amarga não apenas pelo placar, mas pela forma: Ronaldo saiu do estádio antes de todos, os olhos marejados, o rosto entre as mãos. As semanas anteriores já haviam sido turbulentas — o litígio público com o Manchester United e a explosão ao ser substituído durante a fase de grupos custaram-lhe a titularidade. Ele era o único jogador a marcar em cinco Copas, mas aquela parecia ser sua última chance, e ela havia escapado.
Três meses depois, já no Al Nassr da Arábia Saudita, chegou a convocação que mudava o tom da história. Roberto Martinez, novo técnico contratado para substituir Fernando Santos após oito anos, conversou pessoalmente com Ronaldo antes de anunciá-lo para as Eliminatórias da Eurocopa contra Liechtenstein e Luxemburgo. A mensagem era clara: confiança futebolística e reconhecimento do peso simbólico e financeiro que Ronaldo ainda carrega para a federação.
A importância daquele retorno ia além dos jogos em si. Foi sob a liderança de Ronaldo que Portugal conquistou seus dois primeiros títulos — a Eurocopa de 2016 e a Liga das Nações de 2018-19 —, criando uma mentalidade vencedora que moldou toda uma geração: Rúben Dias, Bernardo Silva, Bruno Fernandes, João Félix, Rafael Leão. Todos ainda o viam como referência, mesmo com ele distante dos grandes centros europeus.
Aos 38 anos, seria o quinto técnico a dirigi-lo na seleção, vinte anos após sua estreia como jovem de 19 anos cheio de promessas. Aquelas duas partidas de qualificação representavam algo maior: a chance de apagar a imagem deixada no Qatar e iniciar um novo ciclo rumo à Copa de 2026. Martinez havia dito que tomariam decisões importantes com naturalidade. A primeira já estava feita.
No dia seguinte à eliminação de Portugal nas quartas de final da Copa do Mundo no Qatar, os jornais portugueses estampavam manchetes que soavam como epitáfios. Adeus português. Triste fim. Era como se uma era tivesse terminado, e o nome mais importante daquela era era Cristiano Ronaldo.
O que tornou aquele fim particularmente amargo não foi apenas a derrota para Marrocos por 1 a 0, mas a forma como ela aconteceu. Ronaldo saiu do estádio Al Thumama em Doha antes de qualquer outro jogador português, quase agredido por um torcedor que invadiu o campo. Quando chegou ao vestiário, seus olhos estavam marejados, o rosto coberto pelas mãos. A frustração era inescapável. Ninguém imaginava que aquela seria a última imagem dele com a camisa da seleção — e muito menos que ela viria carregada de polêmicas.
As semanas anteriores ao torneio já haviam sido turbulentas. Seu litígio público com o Manchester United poucos dias antes da Copa havia deixado cicatrizes. Depois, durante a fase de grupos, ele explodiu em fúria ao ser substituído, uma reação que custou caro: perdeu seu lugar na equipe. Quando entrou contra Marrocos já no segundo tempo, não conseguiu mudar o resultado. Ele era o único jogador na história a marcar gols em cinco Copas diferentes, mas aquela seria sua última chance de deixar sua marca nesta competição.
Três meses depois, já como jogador do Al Nassr na Arábia Saudita, Ronaldo recebeu uma convocação que mudava tudo. Roberto Martinez, o novo técnico contratado para substituir Fernando Santos após oito anos no cargo, o chamou para as duas primeiras rodadas das Eliminatórias da Eurocopa contra Liechtenstein e Luxemburgo. Antes de fazer a convocação, Martinez conversou pessoalmente com Ronaldo, deixando claro que contava com ele e com todos os atletas que estiveram no Qatar. A mensagem era dupla: confiança futebolística e reconhecimento de que sua presença trazia benefícios financeiros à Federação Portuguesa através de patrocínios e direitos de imagem.
O que tornava aquela convocação significativa ia além do futebol. Ronaldo havia sido o arquiteto da transformação de Portugal entre as seleções mundiais. Foi sob sua liderança que o país conquistou seus dois primeiros títulos: a Eurocopa de 2016 e a Liga das Nações de 2018-19. Aquelas vitórias não refletiram apenas seu talento individual, mas criaram uma mentalidade vencedora que permitiu o surgimento de uma geração inteira de grandes jogadores — Rúben Dias, Nuno Mendes, Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Vitinha, João Félix, Rafael Leão. Todos eles ainda o viam como referência, como um líder mesmo que ele estivesse longe dos grandes centros do futebol europeu.
No Al Nassr, Ronaldo havia disputado nove jogos e marcado oito gols, ajudando o time a ficar em segundo lugar na liga saudita, um ponto atrás do líder Al Ittihad. Não era o palco que ele conhecia, mas era o que tinha. E agora, aos 38 anos, ele teria a chance de reescrever sua despedida de Portugal. Seria o quinto técnico a dirigi-lo na seleção — depois de Luiz Felipe Scolari, que o lançou em 2003 num amistoso contra o Cazaquistão, Carlos Queiroz, Paulo Bento e Fernando Santos. Vinte anos depois daquele jovem de 19 anos que encheu os portugueses de esperança, ele teria a oportunidade de mostrar que ainda era tão importante quanto naquela época.
O timing era curioso. Bader Al-Mutawa, do Kuwait, dividia com Ronaldo o recorde de 196 partidas pela seleção, mas ainda estava ativo e poderia ultrapassá-lo em breve. Para Ronaldo, aquelas duas rodadas contra Liechtenstein e Luxemburgo representavam mais do que apenas partidas de qualificação. Representavam a chance de apagar a imagem de frustração e raiva que havia deixado no Qatar, de começar um novo ciclo que levaria Portugal até a Copa de 2026. Martinez havia dito que enfrentariam aquele processo com naturalidade e responsabilidade, tomando decisões importantes para o time. A primeira delas já havia sido feita: trazer de volta o homem que havia mudado tudo.
Citas Notables
É um processo que temos que enfrentar com naturalidade, com responsabilidade, e tomaremos decisões importantes para o time— Roberto Martinez, técnico de Portugal
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que essa convocação importa tanto? Ele poderia simplesmente ter se aposentado após o Qatar.
Porque a forma como ele saiu foi errada. Marejado, frustrado, quase agredido. Ninguém quer que aquela seja a última imagem. Ele merecia melhor, e Portugal também.
Mas ele está na Arábia Saudita agora, longe do futebol de elite. Isso não o torna menos relevante?
Não para Portugal. Ele ainda é o símbolo de tudo que o país conquistou. Quando os jovens como Bruno Fernandes o veem, veem um campeão, um líder. A geografia não muda isso.
O novo técnico conversou com ele antes de convocá-lo. Isso foi estratégico?
Completamente. Martinez estava dizendo: você ainda é importante aqui. Não é apenas futebol — é financeiro, é inspiração, é continuidade. Mas também era genuíno. Ele realmente acredita que Ronaldo pode ajudar.
E se Ronaldo tivesse recusado?
Seria uma ruptura. Mas ele não recusou. Ele também quer reescrever essa história. Aos 38 anos, ainda há dignidade a recuperar.
Qual é o próximo passo para ele?
Essas duas rodadas são o teste. Se ele jogar bem, se Portugal vencer, talvez ele continue até 2026. Se não, pelo menos ele terá uma saída melhor que aquela do Qatar.