Crianças refugiadas crescem 50% no Brasil, principalmente venezuelanas

Mais de 1.555 crianças e adolescentes refugiados reconhecidos em 2021, muitos separados de famílias ou em estruturas monoparentais, enfrentam invisibilidade nas políticas de integração brasileiras.
A criança passa invisível na integração brasileira
Especialista em direitos de crianças refugiadas descreve como menores são beneficiados apenas indiretamente através de adultos.

1.555 menores de idade receberam status de refugiado em 2021, saltando de 2,7% em 2020 e 0,8% em 2019 do total de solicitações aceitas. Venezuelanos representam 77% dos refugiados reconhecidos, com 35,9% dessa população tendo menos de 15 anos, alterando dinâmica do refúgio no país.

  • 1.555 crianças e adolescentes de 5 a 14 anos reconhecidas como refugiadas em 2021
  • Crescimento de 2,7% em 2020 e 0,8% em 2019 para mais de 50% em 2021
  • 77% dos refugiados reconhecidos são venezuelanos, com 35,9% tendo menos de 15 anos
  • Organização I Know My Rights atende mais de 1 mil crianças refugiadas, com fila de espera

Crianças e adolescentes de 5 a 14 anos representam mais da metade dos refugiados reconhecidos pelo Brasil em 2021, com venezuelanos formando o principal grupo. O crescimento demanda políticas públicas específicas para população vulnerável.

Em 2021, o Brasil reconheceu como refugiadas 1.555 crianças e adolescentes entre 5 e 14 anos — mais da metade do total de 3.086 pessoas que tiveram seus pedidos aceitos pelo Comitê Nacional para os Refugiados naquele ano. O número representa um salto vertiginoso em relação aos anos anteriores: em 2020, crianças dessa faixa etária representavam apenas 2,7% das aprovações, e em 2019, somente 0,8%. O relatório divulgado pelo Observatório das Migrações Internacionais no Dia Mundial do Refugiado, em junho de 2022, expõe uma transformação profunda na composição demográfica do fluxo de pessoas buscando proteção no país.

O crescimento está intimamente ligado ao reconhecimento recorde de 50 mil venezuelanos como refugiados nos últimos anos. Segundo o Conare, quando um adulto é reconhecido como refugiado, seus filhos menores podem receber o mesmo status ao comprovar vínculo familiar ou guarda legal — o que explica por que o número de crianças acompanhou a onda de aprovações de adultos. Entre os venezuelanos que solicitaram refúgio em 2021, 35,9% tinham menos de 15 anos, uma proporção significativamente mais alta que a de outras nacionalidades, com exceção dos colombianos, que chegavam a 34,8%. Dos 29.107 pedidos de refúgio apresentados no Brasil em 2021, 31,6% eram de menores de 15 anos — comparado aos 23% em 2020.

Tadeu de Oliveira, coordenador de estatísticas do OBMigra, alertou que esse cenário exige do Brasil uma resposta política à altura. "Requer políticas públicas específicas, já que se trata de um segmento muito mais vulnerável", afirmou. A realidade nas ruas e nos abrigos, porém, revela um quadro ainda mais complexo. Vivianne Reis, fundadora da I Know My Rights, organização dedicada à defesa dos direitos de crianças refugiadas que atua há 11 anos, relata que antes da pandemia seu projeto atendia cerca de 400 crianças. Hoje, são mais de mil, com fila de espera. O perfil das famílias também mudou drasticamente: se antes menos de 14% eram monoparentais, agora mais da metade se enquadra nessa categoria.

Reis observa um problema estrutural na forma como o Brasil integra essas crianças. "Pela dinâmica da integração que acontece no Brasil, a criança passa invisível", diz. "Ela é beneficiada indiretamente à medida que seus responsáveis adultos são beneficiados, mas não há enfoque para entender os impactos da migração forçada nessa fase do desenvolvimento humano." A criança refugiada, nessa lógica, existe apenas como dependente — seu bem-estar vinculado ao dos adultos, suas necessidades específicas raramente nomeadas ou endereçadas por políticas públicas.

O relatório do OBMigra também mapeou uma mudança significativa no mercado de trabalho formal. Os venezuelanos superaram os haitianos e se tornaram o principal grupo de mão de obra migrante no país. Em 2021, 53,2 mil venezuelanos foram contratados enquanto 33,5 mil perderam seus postos. Para haitianos, o cenário se inverteu: 35,7 mil foram admitidos e 54 mil foram dispensados. Oliveira sugere que a crise econômica brasileira está levando muitos haitianos a buscar oportunidades em outros países, como Chile e Estados Unidos, especialmente porque grande parte da economia do Haiti depende das remessas enviadas por emigrantes. O fluxo migratório, em especial o venezuelano, continua alterando profundamente a dinâmica do refúgio no Brasil — e a invisibilidade das crianças nesse processo permanece como um desafio não resolvido.

Requer políticas públicas específicas, já que se trata de um segmento muito mais vulnerável
— Tadeu de Oliveira, coordenador de estatísticas do OBMigra
Pela dinâmica da integração que acontece no Brasil, a criança passa invisível. Ela é beneficiada indiretamente à medida que seus responsáveis adultos são beneficiados, mas não há enfoque para entender os impactos da migração forçada nessa fase do desenvolvimento humano
— Vivianne Reis, fundadora da I Know My Rights
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Inventor

Por que o número de crianças refugiadas cresceu tanto em tão pouco tempo?

Model

Não foi exatamente uma explosão de crianças chegando sozinhas. O que aconteceu foi que 50 mil venezuelanos adultos foram reconhecidos como refugiados nos últimos anos, e quando um adulto recebe esse status, seus filhos menores podem ser reconhecidos também — desde que comprovem o vínculo. Então o crescimento acompanhou a onda de aprovações de adultos.

Inventor

E por que tantos venezuelanos estão chegando?

Model

A Venezuela está em colapso econômico e político. As pessoas fogem de perseguição, violação de direitos humanos. Entre os venezuelanos que pediram refúgio em 2021, mais de um terço tinha menos de 15 anos — é uma população muito jovem.

Inventor

Mas se essas crianças estão sendo reconhecidas como refugiadas, elas devem estar recebendo apoio, certo?

Model

Teoricamente sim, mas na prática há um problema. As crianças são beneficiadas indiretamente através de seus responsáveis adultos. Não há políticas específicas para entender o que a migração forçada faz com uma criança naquela fase do desenvolvimento.

Inventor

Qual é o impacto disso?

Model

Vivianne Reis, que trabalha com crianças refugiadas há 11 anos, diz que antes da pandemia atendia 400 crianças. Agora são mais de mil, com fila de espera. E o perfil das famílias mudou — antes menos de 14% eram monoparentais, agora mais da metade é. Essas crianças estão crescendo em estruturas frágeis.

Inventor

E quanto aos adultos? Como estão se saindo?

Model

Os venezuelanos se tornaram o principal grupo de mão de obra migrante no mercado formal. Em 2021, mais foram contratados do que demitidos. Mas os haitianos estão saindo — a crise econômica brasileira está empurrando muitos deles para o Chile, Estados Unidos. Eles dependem de enviar dinheiro para casa.

Inventor

Então o Brasil está mudando quem recebe?

Model

Não é uma escolha deliberada. É o resultado de dois movimentos simultâneos: mais venezuelanos sendo contratados conforme a migração se retoma após o Covid, e mais haitianos sendo demitidos e decidindo partir. A dinâmica do refúgio no Brasil está se transformando, e ninguém sabe bem como lidar com isso.

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