Copom cita política fiscal de Lula como risco para inflação

Estímulos ao consumo podem enfraquecer os canais de controle da inflação
O Copom alertou que medidas de estímulo fiscal podem tornar ineficaz a política monetária tradicional.

No Brasil de meados de 2026, o Banco Central reduziu a Selic em um quarto de ponto percentual — um gesto modesto que, no entanto, carregava um aviso mais grave: a política fiscal do governo Lula, com seus quase duzentos bilhões em estímulos ao consumo, pode estar solapando os próprios instrumentos que o banco central usa para conter a inflação. É a tensão clássica entre o impulso político de distribuir prosperidade no curto prazo e a disciplina monetária que tenta preservar o valor do dinheiro no longo prazo. O Copom não declarou guerra ao governo, mas sinalizou que as duas forças estão, neste momento, puxando em direções opostas.

  • O Copom cortou a Selic para 14,25%, mas o tom do comunicado foi de alerta, não de alívio — a inflação esperada para 2026 chega a 5,30%, quase dois pontos acima da meta.
  • O governo lançou um pacote de R$ 191,4 bilhões em 2026, combinando subsídios a combustíveis, isenção de IR, crédito para caminhoneiros e motoristas de aplicativo — uma injeção de demanda em múltiplas frentes da economia.
  • O BC teme que esses estímulos acelerem o crescimento além do potencial e enfraqueçam os canais pelos quais os juros altos normalmente freiam a inflação, criando um conflito estrutural entre política fiscal e monetária.
  • Internamente, o mercado de trabalho aquecido e a atividade em aceleração amplificam a pressão; externamente, tensões geopolíticas no Oriente Médio mantêm as condições financeiras globais voláteis.
  • O espaço para novos cortes de juros está condicionado ao comportamento da inflação — e, implicitamente, às escolhas fiscais do governo nas próximas semanas e meses.

Na quarta-feira 17 de junho, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, levando-a a 14,25% ao ano. O movimento em si era pequeno, mas o comunicado que o acompanhou revelava uma tensão mais profunda: o Copom alertou que a política fiscal do governo Lula representa um risco inflacionário concreto, capaz de enfraquecer os próprios mecanismos pelos quais a política monetária funciona.

O diagnóstico do BC não era vago. O comitê apontou que estímulos à demanda agregada poderiam gerar crescimento acima do potencial da economia — e que, nesse cenário, juros altos teriam dificuldade em conter a inflação. As expectativas do mercado confirmam a preocupação: 5,30% para 2026 e 4,10% para 2027, ambas acima do centro da meta de 3%.

O pano de fundo fiscal é concreto. Desde o início de 2026, o governo lançou medidas que somam R$ 191,4 bilhões, incluindo subsídios para combustíveis, isenção de IR para quem ganha até cinco mil reais, crédito para motoristas de aplicativo e caminhoneiros, expansão do Minha Casa, Minha Vida e dezenas de outras iniciativas. São ações que injetam dinheiro na economia por caminhos que os juros altos têm dificuldade de neutralizar.

O economista Felipe Rodrigo de Oliveira, da MAG Investimentos, destacou que o Copom havia incorporado um novo elemento ao seu balanço de riscos: a possibilidade de que o estímulo fiscal comprometa a transmissão da política monetária. A mensagem implícita do BC é clara — o governo está acelerando a demanda no momento em que o banco central tenta desacelerar a economia. Se essa dinâmica não for gerenciada, o Brasil corre o risco de permanecer preso em um ciclo de inflação elevada e juros altos.

Na quarta-feira 17 de junho, o Banco Central do Brasil fez um movimento que parecia simples na superfície: reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em um quarto de ponto percentual, levando-a a 14,25% ao ano. Mas o comunicado que acompanhou essa decisão revelava uma tensão mais profunda. O Comitê de Política Monetária alertava que estava acompanhando de perto como as escolhas fiscais do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderiam alimentar a inflação — e que essa vigilância moldaria os próximos passos da política monetária.

O Copom não nomeou o risco de forma vaga. Apontou explicitamente que a política fiscal doméstica, especialmente se estimulasse a demanda agregada acima do que a economia consegue sustentar, representava uma ameaça ao controle de preços. O comunicado destacava ainda um risco particular: que esses estímulos ao consumo pudessem enfraquecer os canais tradicionais pelos quais a política monetária funciona, tornando difícil conter a inflação mesmo quando os juros estão altos. Em outras palavras, o governo poderia estar injetando dinheiro na economia de formas que os juros altos não conseguiriam neutralizar.

O cenário que preocupa o BC é concreto. As expectativas do mercado para a inflação em 2026 chegam a 5,30%, e para 2027, a 4,10% — ambas acima do centro da meta de 3% ao ano. A inflação corrente já está acima do esperado. E o governo, desde o início de 2026, lançou um pacote de medidas que soma 191,4 bilhões de reais. Esse valor não é abstrato: inclui 33,2 bilhões em subsídios para conter a alta dos combustíveis, 30 bilhões em crédito para motoristas de aplicativo, 25,8 bilhões em isenção de Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais, 21,2 bilhões em crédito para caminhoneiros e motoristas de ônibus, 20 bilhões na ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida, além de dezenas de outras iniciativas menores que vão desde crédito para entregadores até a eliminação da taxa sobre compras internacionais de baixo valor.

O economista-chefe da MAG Investimentos, Felipe Rodrigo de Oliveira, observou que o Copom havia adicionado um novo componente ao seu balanço de riscos: a possibilidade de que estímulos à demanda agregada gerassem crescimento acima do potencial, enfraquecendo os mecanismos usuais de transmissão da política monetária. Essa mudança de tom é significativa. O BC não está apenas monitorando; está sinalizando que vê um conflito em desenvolvimento entre o que o governo quer fazer e o que o banco central precisa fazer para manter a inflação sob controle.

O contexto amplifica a preocupação. Internamente, a atividade econômica mostra sinais de aceleração, o mercado de trabalho permanece resiliente, e a inflação corrente já está pressionada. Externamente, as tensões geopolíticas no Oriente Médio — mesmo com a assinatura de um acordo de paz — continuam pesando sobre os preços das commodities e as condições financeiras globais. O Copom descreveu o ambiente como marcado por elevada incerteza, tanto doméstica quanto internacional.

O corte de 0,25 ponto percentual na Selic, portanto, não deve ser lido como um sinal de confiança. O tom do comunicado reforça cautela. O BC deixa claro que o espaço para novos ajustes dependerá de como a inflação evoluir — e de como a política fiscal do governo impactar essa evolução. A mensagem implícita é clara: o governo está estimulando a demanda no momento em que o BC tenta desacelerar a economia para controlar preços. Essa dinâmica, se não for gerenciada com cuidado, pode deixar o Brasil preso em um ciclo de inflação elevada e juros altos.

O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza
— Comunicado do Copom
Houve o acréscimo de mais um componente de risco altista para o cenário inflacionário, risco esse relacionado a estímulos à demanda agregada que gerem crescimento acima do potencial
— Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o Copom está tão preocupado com a política fiscal agora? O governo sempre gasta.

Model

Porque o timing é crítico. A inflação já está acima da meta, as expectativas estão desancoradas, e o governo está injetando 191 bilhões de reais em estímulos justamente quando o BC tenta apertar a política monetária. É como pisar no acelerador e no freio ao mesmo tempo.

Inventor

Mas esses gastos — crédito para motoristas de aplicativo, isenção de IR — não são investimentos produtivos?

Model

Alguns são, alguns não. O ponto do Copom é que, produtivos ou não, eles estimulam a demanda imediata. E quando a demanda cresce mais rápido que a capacidade produtiva da economia, os preços sobem. É matemática simples.

Inventor

E por que o BC acha que os juros altos não vão conter isso?

Model

Porque se o governo está colocando dinheiro direto nas mãos das pessoas — via crédito, isenção fiscal, subsídios — elas vão gastar independentemente de os juros estarem em 14% ou 15%. Os canais tradicionais de transmissão monetária deixam de funcionar.

Inventor

Então o Copom está dizendo que o governo está sabotando o seu trabalho?

Model

Não exatamente sabotando. Mas há um conflito real de objetivos. O governo quer estimular a economia e a renda das pessoas. O BC quer controlar a inflação. Quando esses objetivos entram em choque, alguém perde.

Inventor

O que acontece se a inflação continuar subindo?

Model

O BC terá que subir os juros novamente, apesar do corte que fez esta semana. E juros mais altos tornam mais caro para empresas investir e para famílias comprar casa ou carro. A economia desacelera, o desemprego sobe. É o preço de não coordenar as políticas.

Inventor

Isso é reversível?

Model

Depende. Se o governo reduzir o ritmo dos gastos ou se a inflação começar a ceder naturalmente, há espaço para o BC continuar cortando juros. Mas enquanto o governo continuar estimulando a demanda acima do potencial, o BC vai estar preso.

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