A importância não vai mudar, mas o contingente já mudou muito
No verão de 2022, com a Europa ainda a processar o choque da invasão russa da Ucrânia, a nova cônsul americana nos Açores chegou à ilha Terceira para reafirmar o que muitos locais precisavam ouvir: a Base das Lajes continua a ser estrategicamente indispensável para os Estados Unidos. Margaret Campbell e o presidente açoriano José Manuel Bolieiro encontraram-se num momento em que a geografia voltou a ser destino — e os Açores, suspensos no meio do Atlântico Norte, voltaram a ocupar o centro do tabuleiro da NATO. O que ficou por responder, porém, é se a importância proclamada se traduzirá em presença real ou permanecerá apenas uma promessa diplomática.
- A chegada de uma nova cônsul americana em julho de 2022 reacendeu a questão que paira sobre a ilha Terceira há anos: o que vale, na prática, uma base militar que perdeu três quartos do seu contingente numa década?
- A invasão russa da Ucrânia alterou o cálculo estratégico da NATO e devolveu aos Açores uma centralidade geopolítica que parecia estar a esvanecer-se com cada redução de efetivos.
- Entre 2015 e 2016, mais de 400 trabalhadores portugueses perderam os seus empregos na Base das Lajes quando o contingente americano caiu de 650 para 165 militares — uma ferida económica que as palavras diplomáticas ainda não cicatrizaram.
- Campbell garantiu que a importância estratégica da base 'não vai mudar', mas não fez qualquer promessa sobre o reforço do contingente militar, deixando a lacuna entre retórica e realidade por preencher.
- O encontro entre a cônsul e Bolieiro sinalizou um compromisso renovado, mas a verdadeira medida desse compromisso só será visível se a reafirmação diplomática se converter em investimento concreto e empregos recuperados.
Margaret Campbell chegou aos Açores em julho de 2022 com uma mensagem que a ilha Terceira aguardava há anos: a Base das Lajes mantém a sua importância geoestratégica e isso, garantiu a nova cônsul americana, 'não vai mudar'. Reunida com o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, Campbell sublinhou a solidez da ligação entre os militares norte-americanos e portugueses no quadro da NATO.
O momento era propício para esse reposicionamento. A invasão russa da Ucrânia havia reconfigurado o pensamento estratégico europeu meses antes, e os Açores — a meio caminho entre a Europa e a América no Atlântico Norte — recuperaram um peso geopolítico que parecia estar a diminuir. Bolieiro aproveitou o encontro para o dizer sem rodeios: o novo contexto da NATO compromete os aliados a valorizarem cada vez mais o 'atlantismo' e a presença americana na região.
Mas por detrás da linguagem diplomática existe uma história mais dura. Entre 2015 e 2016, o contingente militar norte-americano na Base das Lajes caiu de 650 para 165 soldados. Mais de 400 trabalhadores portugueses perderam os seus empregos nesse período, numa sangria económica que afetou profundamente as comunidades locais. Campbell, que representa o consulado americano mais antigo em funcionamento — fundado em 1795 —, procurou reequadrar a narrativa, falando do seu entusiasmo pelo arquipélago e da intenção de visitar as nove ilhas durante o seu mandato de três anos.
O que ficou por dizer é tão revelador quanto o que foi dito. A cônsul assegurou que a importância estratégica permanece, mas não prometeu qualquer reforço de efetivos. Bolieiro falou de aprofundar o relacionamento bilateral e reconheceu a dimensão cultural da relação entre os EUA e os Açores. Para as famílias que viram empregos desaparecer, porém, as reafirmações diplomáticas podem soar a promessas já ouvidas. A Base das Lajes continua no mapa. A questão é se voltará a contar no terreno.
Margaret Campbell chegou aos Açores em julho de 2022 com uma mensagem clara: a Base das Lajes não está em declínio, apesar do que os números possam sugerir. A nova cônsul dos Estados Unidos no arquipélago, que assumiu o cargo no primeiro dia do mês, reuniu-se com o presidente do Governo Regional e reafirmou que a importância estratégica da instalação militar na ilha Terceira permanece intacta. "Continua a ser uma base com importância geoestratégica e nós temos uma ligação forte com os militares portugueses lá. E isso não vai mudar", declarou.
O timing da sua chegada não é casual. A invasão russa da Ucrânia havia reconfigurado o pensamento estratégico europeu apenas meses antes, e os Açores — situados no Atlântico Norte, a meio caminho entre a Europa e a América — ganharam novo peso geopolítico. José Manuel Bolieiro, presidente do executivo açoriano, aproveitou o encontro para sublinhar exatamente isso: a posição do arquipélago como peça fundamental na defesa coletiva da NATO. "A invasão da Rússia na Ucrânia e o novo entendimento e estratégia definida pela NATO compromete-nos cada vez mais, enquanto aliados, à valorização deste 'atlantismo' e da própria presença dos Estados Unidos no quadro da NATO como referência para a defesa perante as ameaças", afirmou.
Mas as palavras diplomáticas mascaram uma realidade mais complicada. Ao longo de décadas, os Estados Unidos reduziram sistematicamente o contingente militar na Base das Lajes. Entre 2015 e 2016, essa redução acelerou-se: o efetivo caiu de 650 militares para 165. A consequência foi imediata e brutal para a economia local. Mais de 400 trabalhadores portugueses que operavam a base assinaram rescisões por mútuo acordo durante esse período — uma forma diplomática de dizer que perderam os seus empregos.
Campbell, que formalmente representa um consulado criado em 1795 — a mais antiga representação diplomática norte-americana em funcionamento — procurou reposicionar a narrativa. Afirmou estar "encantada" com São Miguel e expressou intenção de visitar as nove ilhas durante os seus três anos de mandato. Reiterou que Portugal "continua a ser muito importante" para Washington, tal como a Base das Lajes. O Acordo de Cooperação e Defesa entre os dois países autoriza os norte-americanos a utilizarem a instalação para operações militares no contexto da NATO — um arranjo que, teoricamente, permanece válido independentemente do número de soldados presentes no terreno.
O que fica por dizer é tão importante quanto o que foi dito. A cônsul garantiu que a importância "não vai mudar", mas não prometeu que o contingente militar será reforçado. Bolieiro falou da necessidade de "aprofundar o relacionamento bilateral" e destacou que a relação entre os EUA e os Açores é "igualmente cultural" — uma forma de reconhecer que há mais em jogo do que apenas estratégia militar. Mas para as centenas de famílias que viram empregos desaparecerem uma década antes, as reafirmações diplomáticas podem soar vazias. A Base das Lajes continua importante no mapa estratégico do Atlântico Norte. A questão que permanece em aberto é se essa importância se traduzirá em investimento real ou se continuará a ser apenas um valor teórico.
Citas Notables
Continua a ser uma base com importância geoestratégica e nós temos uma ligação forte com os militares portugueses lá. E isso não vai mudar.— Margaret Campbell, cônsul dos EUA nos Açores
A invasão da Rússia na Ucrânia e o novo entendimento e estratégia definida pela NATO compromete-nos cada vez mais, enquanto aliados, à valorização deste 'atlantismo' e da própria presença dos Estados Unidos no quadro da NATO como referência para a defesa perante as ameaças.— José Manuel Bolieiro, presidente do Governo dos Açores
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que é que uma cônsul americana vem aos Açores e faz questão de dizer que nada vai mudar?
Porque muita coisa já mudou. Quando reduziram os militares de 650 para 165, a economia local sofreu um golpe real. Agora, com a Ucrânia, os Açores voltaram a ser estrategicamente valiosos. A mensagem é: contem connosco, continuamos aqui.
Mas se continuam aqui, por que não reforçam a presença?
Essa é a pergunta que ninguém faz em voz alta. A Base das Lajes é importante para a NATO, mas talvez não seja importante o suficiente para gastar dinheiro. A diplomacia permite dizer que é importante sem fazer nada diferente.
E os 400 trabalhadores que perderam emprego?
Ficaram para trás. A Base continua a existir, mas com um décimo do pessoal que tinha. Esses homens e mulheres encontraram outros trabalhos ou não. A estratégia atlântica não depende deles.
Então a cônsul está a mentir?
Não está a mentir. A Base das Lajes é realmente importante geoestratégicamente. Mas há uma diferença entre ser importante e ser prioritário. Importante o suficiente para manter? Sim. Importante o suficiente para investir? Ainda não se viu.
O que muda agora com a Ucrânia?
A retórica muda. De repente, os Açores não são apenas um porto de escala — são uma linha de defesa. Mas a retórica e a realidade militar nem sempre andam juntas.