Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu.
Vorcaro trocou mensagens com o ministro Moraes ao longo do dia 17 de novembro, relatando tentativas de antecipar venda do Master e mencionando possível vazamento de informações. Reunião com Banco Central ocorreu no início da tarde, onde Vorcaro anunciou viagem a Dubai para fechar negócio; defesa protocolou petição contra medidas cautelares apenas 18 minutos após decreto de prisão.
- 17 de novembro de 2025: dia da primeira prisão de Vorcaro
- Mensagens trocadas com ministro Alexandre de Moraes usando visualização única
- Reunião com Banco Central no início da tarde; liquidação do Master decretada no dia seguinte
- Preso no aeroporto de Guarulhos às 22h antes de embarcar para Dubai
- Permaneceu detido por 11 dias; preso novamente em 3 de março
Mensagens de celular e e-mail periciadas pela PF revelam agenda intensa de Daniel Vorcaro no dia de sua primeira prisão, incluindo supostas trocas com ministro Alexandre de Moraes e tentativas de vender o Banco Master.
No dia 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro viveu uma sequência de horas que condensava negociações de alto risco, comunicações cifradas com autoridades federais e uma corrida contra o tempo que terminaria em prisão. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal em seu celular — textos que ele redigia, fotografava e enviava com visualização única pelo WhatsApp — permitem reconstruir, minuto a minuto, como o banqueiro tentou salvar seu Banco Master enquanto tudo desabava ao seu redor.
Por volta das 7h19 daquela manhã, Vorcaro enviou uma mensagem ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes descrevendo sua estratégia: buscava antecipar a venda do Master ao grupo Fictor e também negociava com investidores dos Emirados Árabes Unidos. Planejava viajar para Dubai naquele mesmo dia para assinar os documentos finais. Na mesma mensagem, alertava sobre possível vazamento de informações sobre o caso e mencionava um "movimento de sacanagem" envolvendo jornalistas. Antes das 8h, representantes de Vorcaro também pressionavam pela venda urgente de uma cobertura triplex de R$ 60 milhões no empreendimento Vizcaya Itaim, em São Paulo — uma transação que vinha sendo articulada desde 14 de novembro mas não seria concluída.
Às 11h08, o site O Bastidor publicou uma reportagem sobre o caso do Master. Segundo as investigações, Vorcaro teria pago R$ 2 milhões ao dono do site, Diego Escosteguy, para que o conteúdo fosse divulgado. A Polícia Federal encontrou um texto semelhante no bloco de notas do celular do banqueiro, redigido às 9h18 daquela manhã. A estratégia era clara: "esquentar a informação" publicamente para dar à sua defesa argumentos legais que pudessem impedir sua prisão. No início da tarde, Vorcaro participou de uma reunião virtual com o Banco Central. Compareceram o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino; o chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana; e o diretor de fiscalização Paulo Sérgio Souza, além de outros técnicos. Durante o encontro, Vorcaro anunciou a venda do banco a investidores estrangeiros e confirmou sua viagem para Dubai naquele dia. Investigações posteriores apontariam que Belline e Souza teriam ligações com Vorcaro e o auxiliavam a contornar a fiscalização do próprio BC — ambos foram afastados de seus cargos.
Às 15h29, o juiz Ricardo Soares Leite decretou a prisão de Vorcaro. Dezoito minutos depois — quando a decisão ainda não havia sido comunicada aos seus advogados — sua defesa protocolou uma petição na 10ª Vara Federal se posicionando contra "medidas cautelares eventualmente requeridas" que pudessem prejudicar o conglomerado Master. No fim da tarde, Vorcaro enviou nova mensagem a Moraes: "Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação", escreveu às 17h21. Minutos depois, às 17h24, o grupo Fictor anunciou a compra do Banco Master ao mercado. Vorcaro continuou trocando mensagens com o ministro ao longo da noite — às 17h26 perguntou "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?", às 19h58 enviou outro "alguma novidade?", e às 20h48, pouco antes de ser preso, mandou uma mensagem que sugeria responder a um questionamento de Moraes: "Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu para fazer dentro da situação. Acho que pode inibir. Amanhã começam as batidas do esteves. To indo assinar com os investidores de fora e estou online".
Às 22h, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, antes de embarcar em um jato particular com destino a Malta e depois Dubai. A liquidação do Banco Master foi anunciada menos de 12 horas depois. Permaneceu detido por 11 dias até ser liberado pela desembargadora Solange Salgado do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mas com monitoramento por tornozeleira eletrônica e retenção do passaporte. Após a divulgação das mensagens pela imprensa, Moraes negou ter mantido as conversas, chamando as informações de "ilação mentirosa" destinada a atacar o Supremo Tribunal Federal. Afirmou que os registros estariam vinculados a pastas de outras pessoas em sua lista de contatos. A perícia da Polícia Federal, porém, apontaria lacunas nessa explicação. Vorcaro seria preso novamente na quarta-feira seguinte, 3 de março, por ordem do ministro André Mendonça, novo relator do inquérito.
Notable Quotes
bom dia. tudo bem? estou tentando antecipar os investidores aqui e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte— Daniel Vorcaro, em mensagem a Alexandre de Moraes às 7h19
De um outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhe. mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso— Daniel Vorcaro, alertando sobre possível vazamento de informações
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essas mensagens com visualização única importam tanto? Não é só um detalhe técnico?
Não. Moraes usava a mesma estratégia que Vorcaro — escrever, fotografar, enviar para desaparecer. Significa que ambos sabiam que estavam criando um registro que não deixaria rastro. Os rascunhos de Vorcaro ficaram no celular, mas as respostas de Moraes desapareceram. É a diferença entre ter prova de um lado da conversa e ter prova de ambos.
E quanto àquela petição protocolada 18 minutos após o decreto de prisão? Como a defesa sabia tão rápido?
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder completamente. O decreto foi às 15h29. A petição, às 15h47. Ou havia alguém dentro do sistema avisando em tempo real, ou havia uma estrutura de monitoramento que Vorcaro mantinha. A defesa nunca explicou como soube.
Vorcaro estava realmente tentando fugir, ou era só um negócio legítimo em Dubai?
Ele estava no aeroporto com malas, pronto para embarcar em um jato particular. Mas também havia acabado de anunciar a venda do banco — publicamente, para o mercado. Se fosse fuga pura, por que anunciar? A verdade é que ele estava tentando fazer ambas as coisas ao mesmo tempo: fechar o negócio e sair do país antes de ser preso.
E esse jornalista, Diego Escosteguy? Ele realmente recebeu R$ 2 milhões para publicar uma matéria?
A Polícia Federal encontrou prints de conversas entre eles. Escosteguy nega. Mas o timing é suspeito — a matéria saiu exatamente quando Vorcaro precisava dela, revelando um processo sigiloso que sua defesa poderia usar em tribunal. Não é coincidência.
Qual era o objetivo real de Vorcaro ao manter contato com Moraes o tempo todo?
Parece que ele buscava informações — "Conseguiu ter notícia ou bloquear?" — e também validação. Como se estivesse dizendo: estou fazendo minha parte, você faz a sua. Mas Moraes respondeu apenas com emojis e mensagens que desapareciam. Nunca deixou nada escrito que pudesse incriminá-lo.