A estrutura desapareceu silenciosamente, sem deixar rastro documentado
Em março de 2021, no auge da segunda onda da pandemia, os chefes dos Três Poderes reuniram-se no Palácio da Alvorada para anunciar com solenidade um comitê nacional de combate à Covid-19 — estrutura pensada para unir Executivo e Legislativo em torno de uma resposta coordenada à crise. Sete reuniões depois, em junho, o comitê simplesmente deixou de existir, sem cerimônia, sem balanço, sem atas. O silêncio com que foi encerrado diz tanto sobre a pandemia quanto o barulho com que foi criado.
- Criado em março de 2021 com presença dos chefes dos Três Poderes e ministros, o comitê nasceu como resposta urgente a uma média de mais de dois mil mortos por dia.
- O esvaziamento foi rápido e visível: Arthur Lira compareceu apenas à primeira reunião, considerando os encontros pouco produtivos, e o número de participantes encolheu de 14 para menos de dez.
- A oitava reunião, marcada para julho, foi cancelada por problema de saúde do presidente e nunca remarcada — o comitê morreu sem que ninguém o declarasse morto.
- Pedidos via Lei de Acesso à Informação revelaram que não existem atas, registros de decisões ou recomendações documentadas das sete reuniões realizadas.
- O encerramento silencioso ocorre enquanto a CPI da Covid prepara relatório acusando Bolsonaro de dez crimes relacionados à condução da pandemia, aprofundando o vazio de prestação de contas.
Em março de 2021, com a segunda onda da pandemia acelerando e a média de mortes diárias superando dois mil, o Palácio da Alvorada sediou um encontro que parecia marcar uma virada. Os chefes dos Três Poderes estavam presentes, ao lado de ministros, governadores e representantes de órgãos de controle. O anúncio era solene: nascia um comitê de coordenação nacional para enfrentar a Covid-19, reunindo Executivo e Legislativo em torno de um objetivo comum. Sete meses depois, ninguém havia anunciado oficialmente que ele havia acabado.
O esvaziamento foi gradual e visível. Arthur Lira, presidente da Câmara, compareceu apenas à primeira reunião. Nas seguintes, enviou um representante ou simplesmente não apareceu — pessoas próximas diziam que ele considerava os encontros pouco produtivos. O número de participantes encolheu de 14 para menos de dez. Os pronunciamentos à imprensa também foram desaparecendo: após a primeira reunião, três líderes falaram com jornalistas; após a terceira, apenas um; depois disso, ninguém.
A sétima e última reunião aconteceu em junho. Uma oitava estava marcada para julho, mas foi cancelada por um problema de saúde do presidente e nunca remarcada. Semanas depois, o Ministério da Saúde confirmou à imprensa, em linguagem burocrática, que as atividades haviam sido encerradas por falta de ato de prorrogação. Nenhuma cerimônia, nenhum balanço público.
O que o comitê efetivamente realizou permanece obscuro. Pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação receberam respostas vagas, e nem a Presidência, nem a Casa Civil, nem o Ministério da Saúde mantinham atas dos encontros. Os únicos anúncios concretos foram modestos: antecipações de entregas de vacinas. A estrutura criada com tanta pompa dissolveu-se sem deixar rastro documentado — enquanto a CPI da Covid preparava seu relatório final, acusando Bolsonaro de dez crimes relacionados à pandemia.
Em março, o Palácio da Alvorada foi palco de um encontro que parecia marcar um ponto de inflexão na resposta brasileira à pandemia. Os chefes dos Três Poderes estavam lá. Ministros do governo federal, governadores, representantes da Procuradoria-Geral da República e do Tribunal de Contas da União também compareceram. O anúncio era solene: nascia um comitê de combate à Covid-19, estrutura que reuniria Executivo e Legislativo em torno de um objetivo comum. Sete meses depois, ninguém havia anunciado oficialmente que ele havia morrido.
A criação do comitê vinha em momento de urgência. A segunda onda da pandemia acelerava. A média móvel de mortes diárias ultrapassava dois mil. Jair Bolsonaro havia demitido Ernesto Pazuello do Ministério da Saúde dias antes, sinalizando uma tentativa de mudar o rumo das ações contra o vírus. O novo ministro, Marcelo Queiroga, integraria a estrutura ao lado de Arthur Lira, presidente da Câmara, e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado. Havia também observadores do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público.
Mas a pompa inicial não se sustentou. A sétima e última reunião aconteceu em junho. Uma oitava estava marcada para julho, mas foi cancelada por um problema de saúde do presidente. Depois disso, silêncio. O Ministério da Saúde confirmou à imprensa, semanas depois, que "as atividades do Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento da Pandemia da Covid-19 foram encerradas, já que não houve ato de prorrogação". Nenhuma cerimônia de encerramento. Nenhum balanço público. Apenas a constatação burocrática de que o comitê havia deixado de existir.
O esvaziamento foi gradual e visível. Arthur Lira compareceu apenas à primeira reunião. Na segunda e na quarta, enviou um representante, o deputado Dr. Luizinho. Nas demais, nem isso. Pessoas próximas a Lira disseram que ele considerava as reuniões pouco produtivas. Sua assessoria argumentou que nas datas dos encontros havia votações importantes em pauta, incluindo projetos relacionados à própria pandemia. O número total de participantes também encolheu: começou com 14 pessoas, entre ministros e autoridades, e terminou entre nove e dez.
Os pronunciamentos à imprensa também desapareceram. Após a primeira reunião, Lira, Pacheco e Queiroga falaram com jornalistas. Depois da segunda, apenas Queiroga e Pacheco. Após a terceira, somente Queiroga. Nos encontros seguintes, ninguém se dirigiu à imprensa. Os anúncios concretos que saíram das reuniões foram modestos: antecipações de entregas de vacinas da Pfizer e do consórcio Covax Facility.
O que o comitê realmente fez permanece obscuro. O Ministério da Saúde respondeu a pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação dizendo apenas que as sete reuniões "trataram de ações estratégicas de combate à pandemia". Mas nem a Presidência, nem a Casa Civil, nem o próprio Ministério da Saúde mantinham atas dos encontros. Nenhum registro público das discussões, das decisões, das recomendações. A estrutura que havia sido criada com tanta cerimônia desapareceu sem deixar rastro documentado.
A Presidência da República e a Presidência do Senado foram procuradas para comentar o encerramento do comitê, mas não responderam. Enquanto isso, a CPI da Covid no Senado preparava seu relatório final, que seria lido dias depois e acusaria Bolsonaro de dez crimes relacionados à pandemia. O comitê que havia nascido como símbolo de coordenação entre os poderes havia se dissolvido silenciosamente, deixando apenas a pergunta sobre o que poderia ter sido feito se tivesse permanecido.
Citações Notáveis
As atividades do Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento da Pandemia da Covid-19 foram encerradas, já que não houve ato de prorrogação— Ministério da Saúde
Pessoas próximas a Lira relatam que ele considerava as reuniões pouco produtivas— Assessores do presidente da Câmara
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um comitê criado com tanta solenidade simplesmente desaparece sem anúncio?
Porque ninguém tinha incentivo real para mantê-lo vivo. Lira achava improdutivo, Bolsonaro não estava comprometido, e não havia pressão pública para que funcionasse.
Mas havia representantes de todos os Três Poderes. Isso não deveria criar alguma obrigação?
Em teoria, sim. Na prática, cada um tinha suas próprias prioridades. Lira tinha votações importantes. Bolsonaro tinha outras batalhas políticas. O comitê virou um símbolo que ninguém queria defender quando ficou inconveniente.
E as atas das reuniões? Por que não existem registros?
Essa é a questão mais grave. Sem atas, não há como saber o que foi discutido, o que foi decidido, o que foi negligenciado. É como se sete reuniões entre os chefes dos Três Poderes nunca tivessem acontecido.
Os anúncios concretos foram apenas sobre vacinas?
Basicamente, sim. Antecipações de entregas. Nada que parecesse exigir coordenação real entre os poderes. Talvez tenha sido só isso desde o início — um comitê para parecer que havia coordenação, não para coordenar de verdade.
E agora, com a CPI acusando Bolsonaro de crimes?
Agora fica claro que aquele comitê poderia ter sido um espaço para ações conjuntas contra a pandemia. Em vez disso, foi um teatro que desapareceu quando a plateia perdeu interesse.