Senado aprova projeto que proíbe aborto após 22ª semana, mesmo em casos legais

Mulheres em situações de risco à vida, vítimas de estupro e portadoras de fetos inviáveis podem ser forçadas a manter gestações contra sua vontade e saúde.
Você proíbe o aborto, mas permite o parto antecipado — é uma ficção legal
A contradição central do projeto: mudar o nome do procedimento sem alterar suas consequências práticas.

Em um plenário esvaziado e em questão de minutos, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou um projeto que proibiria o aborto legal após a 22ª semana de gestação — inclusive em casos de risco de morte da mãe, estupro e fetos anencéfalos. A proposta redefine a fronteira entre autonomia feminina e proteção estatal ao feto, conferindo à 'vida intrauterina' o status de direito inviolável. O texto ainda percorrerá outras comissões antes de chegar ao plenário, mas sua aprovação silenciosa sinaliza que uma disputa antiga sobre quem decide sobre o corpo da mulher voltou ao centro do poder.

  • Aprovado em minutos e sem debate público adequado, o projeto elimina as três hipóteses legais de aborto após a 22ª semana — risco de vida da mãe, estupro e feto anencéfalo —, impondo ao Estado o papel de curador do feto acima da autonomia da gestante.
  • A linguagem do texto é deliberada: ao reconhecer a 'vida intrauterina' como expressão da dignidade humana e exigir curadores especiais pela Defensoria Pública, a proposta transfere juridicamente o centro de decisão da mulher para o feto.
  • Mulheres em situações extremas — com risco de morte, vítimas de violência sexual ou carregando gestações incompatíveis com a vida — seriam obrigadas a prosseguir com a gravidez, substituindo o aborto por uma 'antecipação do parto' cujos contornos práticos permanecem vagos.
  • O projeto ainda enfrenta a Comissão de Assuntos Sociais e a de Constituição e Justiça; historicamente, mobilizações populares frearam propostas semelhantes, e movimentos de direitos reprodutivos já começam a se articular.

Na quarta-feira, 15 de outubro, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou, em votação simbólica e com plenário quase vazio, um projeto que proíbe o aborto legal após a 22ª semana de gestação em qualquer circunstância. O texto foi incluído na pauta de forma extraordinária, contornando procedimentos habituais, e a aprovação durou poucos minutos — velocidade inversamente proporcional ao peso da mudança proposta.

O projeto altera o Código Civil para reconhecer a 'vida intrauterina' como expressão da dignidade humana e atribuir ao feto, a partir da 23ª semana, um direito inviolável ao nascimento. Na prática, isso elimina as três situações hoje permitidas por lei e pelo STF: risco à vida da mãe, gravidez resultante de estupro e feto anencéfalo. Em lugar do aborto, a proposta determina a antecipação do parto — e, nos casos de risco grave à gestante, exige esforços simultâneos para manter a vida do feto. A questão dos fetos inviáveis antes da 22ª semana permanece em zona cinzenta.

À frente da iniciativa estão a senadora Damares Alves, que preside a comissão, e o senador Eduardo Girão, relator do projeto — ambos com histórico de atuação contra o acesso ao aborto legal. A aprovação discreta levanta questões sobre o processo democrático: uma mudança dessa magnitude foi avançada sem o debate público que normalmente se esperaria.

O texto ainda precisa passar pela Comissão de Assuntos Sociais e pela de Constituição e Justiça antes de chegar ao plenário do Senado. Propostas semelhantes já avançaram no Congresso anteriormente, mas recuaram diante de mobilizações populares. Com movimentos de direitos reprodutivos começando a se articular, o próximo capítulo desta disputa será escrito tanto nas comissões quanto, possivelmente, nas ruas.

Na quarta-feira, 15 de outubro, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou um projeto que proíbe o aborto legal após a 22ª semana de gestação em qualquer circunstância. O voto foi simbólico, realizado em um plenário pouco preenchido, e o texto foi incluído na pauta de forma extraordinária, contornando procedimentos normais. A aprovação foi rápida — questão de minutos — mas marca um ponto de inflexão em um debate que vem ganhando força no Congresso há anos.

O projeto modifica o Código Civil e estabelece que o feto, a partir da 23ª semana, possui um direito "inviolável ao nascimento sadio e harmonioso". Isso significa que, mesmo em situações atualmente permitidas pela lei e pelo Supremo Tribunal Federal, o aborto seria proibido. As três hipóteses que desaparecem são: quando a gravidez representa risco à vida da mãe, quando resulta de estupro, e quando o feto é anencéfalo — isto é, sem cérebro ou com malformações incompatíveis com a vida. Em lugar do aborto, a proposta determina que seja realizada uma antecipação do parto. Nos casos de risco grave à vida da gestante, o texto exige que, além do parto antecipado, sejam feitos esforços para manter a vida do feto. O projeto não menciona explicitamente abortos de fetos inviáveis antes da 22ª semana, deixando essa questão em zona cinzenta.

O texto aprovado reconhece a "vida intrauterina" como uma "expressão da dignidade humana" e confere direitos aos fetos, determinando que o Estado os defenda por meio de curadores especiais e da Defensoria Pública. Essa linguagem reflete uma posição que prioriza a proteção do feto sobre outras considerações — incluindo a saúde e a autonomia da mulher grávida.

O projeto ainda tem um longo caminho pela frente. Ele precisa passar pela Comissão de Assuntos Sociais e pela Comissão de Constituição e Justiça antes de chegar ao plenário do Senado. Historicamente, propostas similares avançaram tanto na Câmara quanto no Senado, mas perderam força quando enfrentaram mobilizações públicas. Em 2023, deputados e senadores criaram uma Frente Parlamentar Mista contra o Aborto, sinalizando que essa é uma agenda que segue sendo perseguida por setores do Congresso.

Entre os defensores da restrição estão Damares Alves, do Republicanos do Distrito Federal, que preside a Comissão de Direitos Humanos, e Eduardo Girão, do Novo do Ceará, que é o relator do projeto. Ambos vêm trabalhando há anos para avançar propostas que limitem o acesso ao aborto legal. O fato de o projeto ter sido aprovado em um plenário esvaziado, com poucos minutos de discussão, levanta questões sobre o processo democrático envolvido — sugerindo que a aprovação ocorreu sem o debate público que uma mudança dessa magnitude normalmente exigiria.

O que está em jogo é claro: mulheres que enfrentam risco de morte, vítimas de estupro e portadoras de fetos com malformações fatais poderiam ser obrigadas a manter suas gestações. A proposta redefine fundamentalmente quem tem direito sobre o corpo e a saúde reprodutiva, transferindo essa decisão do Estado para o feto, independentemente das circunstâncias da mulher. O próximo capítulo será escrito nas comissões que ainda analisarão o texto, e possivelmente nas ruas, onde movimentos de defesa dos direitos reprodutivos já começam a se mobilizar.

O projeto reconhece a vida intrauterina como uma expressão da dignidade humana e confere direitos aos fetos, determinando que o Estado os defenda por meio de curadores especiais e da Defensoria Pública
— Texto do projeto aprovado pela CDH
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que uma comissão aprova algo assim em um plenário vazio, em poucos minutos?

Model

Porque assim passa despercebido. Quando você quer mudar algo profundo, às vezes a estratégia é não chamar atenção. Um plenário cheio, com debate, com câmeras — isso gera mobilização. Isso gera resposta.

Inventor

Mas o projeto ainda precisa passar por outras comissões, certo?

Model

Sim. Mas agora tem momentum. Tem aprovação de uma comissão importante. Isso muda a conversa. Antes era "uma proposta que circula". Agora é "algo que o Senado já aprovou".

Inventor

E se uma mulher está morrendo, grávida de 23 semanas? O que a lei diz fazer?

Model

Segundo o projeto, você faz um parto antecipado. Mas um feto de 23 semanas não sobrevive sozinho. Então você está forçando um parto que não vai resultar em vida — nem da mãe, nem do feto. É uma ficção legal.

Inventor

Ficção legal?

Model

Sim. Você proíbe o aborto, mas permite o parto antecipado. Tecnicamente são coisas diferentes. Mas na prática, em uma gestação de risco, você está apenas mudando o nome do procedimento, não o resultado.

Inventor

Isso já aconteceu antes?

Model

Propostas parecidas avançaram antes, mas recuaram quando as pessoas foram para a rua. Essa é a história do aborto no Brasil — avanços legislativos que encontram resistência popular. A questão agora é se essa resistência vai aparecer novamente.

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