BC reforça Selic enquanto governo acelera gastos, diz Anbima

É como se o Banco Central tivesse que pisar no freio enquanto o governo está pisando no acelerador
Economista do JP Morgan descreve o conflito entre política monetária restritiva e gastos públicos expansionistas.

Inflação oficial sai de 3,8% para 4,7% em 12 meses; Anbima revisa IPCA 2026 de 4,9% para 5,4%, acima do teto de 4,5% da meta do BC. Governo injeta R$ 27 bilhões via Move Brasil, Gás do Povo e Desenrola Brasil para manter consumo aquecido, reduzindo eficácia do aperto monetário.

  • Inflação acumulada em 12 meses saiu de 3,8% (abril) para 4,7% (maio)
  • Anbima revisa IPCA 2026 de 4,9% para 5,4%, acima do teto de 4,5% da meta do BC
  • Governo injeta R$ 27 bilhões via Move Brasil, Gás do Povo e Desenrola Brasil
  • Déficit nominal do governo piora de 8,58% para 8,84% do PIB
  • Preço do barril Brent subiu cerca de 40% devido à guerra no Oriente Médio

Anbima revisa inflação para 2026 em alta (5,4%) e projeta Selic mais elevada por mais tempo, enquanto governo acelera gastos para amortecer impactos econômicos, criando tensão entre política monetária e fiscal.

O Banco Central está apertando os juros enquanto o governo abre a torneira dos gastos. É uma tensão que os economistas da Anbima não conseguem ignorar, e que explica por que as projeções para a economia brasileira em 2026 ficaram mais sombrias nas últimas semanas.

Os 26 economistas consultivos da Anbima revisaram suas estimativas para cima em quase todos os indicadores que importam. A inflação oficial, medida pelo IPCA, saiu de uma previsão de 4,9% para 5,4% ao final deste ano — bem acima do teto de 4,5% que o Banco Central persegue. O crescimento econômico também foi revisto para melhor, de 1,8% para 2% do PIB. Mas o sinal mais preocupante veio das contas públicas: o déficit nominal do governo, que inclui o pagamento de juros, piorou de 8,58% para 8,84% do PIB.

A inflação é o problema imediato. Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco e integrante do grupo consultivo da Anbima, apontou que o ambiente de preços vem acelerando de forma consistente. Em abril, a inflação acumulada em 12 meses estava em 3,8%. Em maio, já havia saltado para 4,7%. Quando o grupo da Anbima fez suas projeções em março, esperava um IPCA de 3,9% para o final do ano. Agora, a mediana aponta para 5,4%. Pior ainda: as projeções também pioraram para 2027 e 2028, sinalizando preocupação com os efeitos secundários dos choques econômicos deste ano.

O petróleo está no cerne dessa inflação mais resistente. A guerra no Oriente Médio elevou o preço do barril Brent em cerca de 40%, contaminando os preços dos combustíveis no Brasil. Quando o combustível fica mais caro, tudo fica mais caro — transportes, alimentos, serviços. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho segue aquecido, com a taxa de desemprego nos patamares mais baixos da série histórica. Isso significa que as pessoas têm renda para gastar, e continuam consumindo mesmo com juros altos. Vendas de serviços às famílias e alimentação fora do domicílio seguem resilientes.

É aqui que entra o governo. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de R$ 27 bilhões entram na economia este ano por meio de programas como o Move Brasil, que reduz juros para compra de veículos para motoristas de aplicativos, taxistas, motociclistas e caminhoneiros. Há ainda o Gás do Povo, a ampliação da Farmácia Popular e o Desenrola Brasil, que está refinanciando dívidas de famílias com nomes negativados. O governo alega que essas medidas buscam amortecer o impacto da guerra no bolso do brasileiro — tanto nos preços dos combustíveis quanto nos juros altos que afetam o orçamento das famílias.

Mas os economistas veem um problema estrutural. Cassiana Fernandez, chefe de pesquisa do JP Morgan para América Latina e também integrante do grupo consultivo da Anbima, resumiu assim: é como se o Banco Central estivesse pisando no freio enquanto o governo pisa no acelerador. O Desenrola Brasil, em particular, reduz a eficácia do aperto monetário. Ao refinanciar R$ 20 bilhões em débitos atrasados para menos de R$ 3 bilhões, o programa devolve espaço no orçamento das famílias para voltar a comprar parcelado. Com isso, um dos principais canais pelos quais os juros altos afetam a economia — o crédito — fica comprometido.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defende as medidas. Em entrevista ao UOL News, afirmou que as ações têm duração definida e que o governo não vai mudar sua regra fiscal ou abrir exceções, mesmo diante da guerra. Ele promete bater a meta fiscal. Mas o próprio governo já elevou sua previsão de déficit primário para 2026, de R$ 57,8 bilhões para R$ 59 bilhões. O Banco Central, por sua vez, já alertou em seu último comunicado que segue acompanhando como a política fiscal doméstica impacta a política monetária, reforçando uma postura de cautela em cenário de maior incerteza.

Os economistas da Anbima consideram que um ajuste nas contas públicas será necessário em 2027, ano do primeiro mandato de um novo governo. Mas por enquanto, a tensão entre o freio do Banco Central e o acelerador do governo segue definindo o ritmo da economia brasileira.

A inflação está piorando, e as projeções do nosso grupo consultivo de macroeconomia refletem isso. Em março, a gente previa uma inflação fechando 2026 em 3,9%; agora projeta a mediana aponta para um IPCA já de 5,4%, muito acima do teto da meta.
— Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco
É como se o Banco Central tivesse que pisar no freio enquanto o governo está pisando no acelerador. Com medidas como essa, a política do Banco Central perde potência.
— Cassiana Fernandez, chefe de pesquisa do JP Morgan
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o governo está gastando mais justamente quando o Banco Central está apertando os juros?

Model

Porque a guerra no Oriente Médio encareceu o petróleo, e isso contaminou os preços dos combustíveis aqui. O governo vê famílias e negócios sofrendo e quer aliviar a pressão. Mas o Banco Central vê inflação acelerada e precisa apertar.

Inventor

E isso funciona? O governo consegue proteger as pessoas dos juros altos?

Model

Funciona no curto prazo. O Desenrola Brasil, por exemplo, refinancia dívidas e devolve poder de compra. Mas reduz a potência do aperto monetário. É como tentar frear um carro enquanto alguém pisa no acelerador.

Inventor

Qual é o risco real aqui?

Model

A inflação não cede. Saiu de 3,8% para 4,7% em 12 meses. As projeções pioraram não só para 2026, mas para 2027 e 2028. Isso sugere que os choques de hoje podem virar problema estrutural.

Inventor

O governo está mentindo sobre respeitar a meta fiscal?

Model

Não está mentindo, mas está sob pressão. O ministro jura que vai bater a meta, mas o próprio governo já revisou o déficit para cima. E os economistas já falam em ajuste necessário em 2027.

Inventor

Então quem vence nessa briga — o Banco Central ou o governo?

Model

Ninguém vence. O Banco Central vai ter que manter juros altos por mais tempo. O governo vai ter que explicar por que os gastos não resolvem a inflação. E as famílias seguem apertadas.

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