Desenrola Adimplentes tem alcance limitado e mascara subsídios ao crédito

Programa restrito que mascara subsídios ao crédito consignado
O Desenrola Adimplentes beneficiará entre 500 mil e um milhão de pessoas, com impacto econômico limitado.

O Desenrola Adimplentes terá alcance restrito em universo de 60 milhões de contratos, contrastando com os 7,5 milhões de famílias beneficiadas pelo Desenrola 2.0. Programa foi limitado a trabalhadores informais com critérios rígidos, beneficiando principalmente clientes de bancos digitais e fintechs que pagam juros cinco vezes maiores.

  • Desenrola Adimplentes beneficiará entre 500 mil e 1 milhão de pessoas em universo de 60 milhões de contratos
  • Programa restrito a informais com dívidas de até R$ 15 mil e atrasadas em no máximo 90 dias
  • Crédito em fintechs custa cinco vezes mais que em bancos tradicionais; inadimplência de 11,5% versus 4,5%
  • Fintechs crescem a 30% ao ano versus 12% em bancos tradicionais; passaram de 10% para 20% do mercado em oito anos

Novo programa de renegociação de dívidas lançado pelo governo beneficiará entre 500 mil e 1 milhão de pessoas, com impacto econômico limitado, servindo principalmente para ampliar subsídios de crédito consignado.

Na segunda-feira 29 de junho, o presidente Lula lançou o Desenrola Adimplentes, uma extensão do programa Desenrola 2.0 que prometia oferecer alívio a devedores em dia com suas obrigações. O timing não foi casual — o anúncio chegou no limite final do calendário eleitoral para programas de benefício a segmentos específicos, a poucos meses das eleições presidenciais de outubro. Mas diferentemente de seu antecessor, que recebeu apoio franco do setor bancário, o novo programa nasceu sem entusiasmo do mercado financeiro. Quando o governo percebeu o alcance limitado da iniciativa, transformou-a em algo diferente: um veículo para ampliar subsídios de crédito consignado, beneficiando principalmente quem já estava em dia com as contas.

Os números revelam a modéstia da proposta. Estimativas tanto do governo quanto do setor privado apontam que o Desenrola Adimplentes beneficiará entre 500 mil e um milhão de pessoas. Para contextualizar: isso representa uma fração mínima de um universo de 60 milhões de contratos de crédito pessoal e ao consumidor em dia. O contraste com o Desenrola 2.0 é gritante. Aquele programa, lançado no começo de maio, já havia beneficiado 7,5 milhões de famílias, com 2,5 milhões de renegociações envolvendo R$ 17,5 bilhões. O novo programa, mesmo antes de começar, já estava fadado a um alcance muito menor.

A razão pela qual os bancos apoiaram o Desenrola 2.0 é simples: a inadimplência é um problema estrutural para a rentabilidade bancária. Quando clientes não pagam, as instituições precisam formar provisões para cobrir essas perdas, o que reduz diretamente seus lucros. Um programa subsidiado pelo governo que reduz a inadimplência é, portanto, uma forma de aliviar esse peso. Já o Desenrola Adimplentes, ao oferecer redução de custos para quem já paga em dia, representa uma perda clara de rentabilidade. Os bancos tradicionais, que já enfrentam pressão de margens menores, não viram razão para comemorar.

O programa foi imaginado inicialmente para o conjunto de todos os devedores em dia, como forma de evitar a impressão de que o governo estava favorecendo maus pagadores. Mas terminou restrito a um grupo muito específico: trabalhadores informais. E não apenas isso — os critérios de acesso foram estabelecidos de forma tão rígida que poucos informais se qualificam. Apenas aqueles com dívidas de crédito direto ou crédito pessoal de até R$ 15 mil em dia, ou atrasadas em no máximo 90 dias, com pelo menos quatro parcelas já pagas, podem participar. Nos cinco maiores bancos tradicionais mais o Nubank, seis milhões de informais carregam R$ 15 bilhões em financiamentos ativos e em dia. Com esses critérios restritivos, clientes elegíveis representam pouco mais de 15% do total.

Essa restrição aos informais revela uma realidade incômoda do sistema financeiro brasileiro. Clientes bancários informais estão concentrados em bancos digitais, fintechs e instituições de pagamento — e são justamente os que pagam as taxas mais altas. O custo do crédito que contratam é pelo menos cinco vezes maior do que aquele oferecido pelas instituições tradicionais a clientes de renda mais alta. A informalidade os exclui do acesso aos créditos consignados, cujas garantias — salário, aposentadoria, FGTS — permitem taxas muito mais baixas. Quando a população informal ingressou no sistema bancário, entrou pelas portas mais caras: cartão de crédito, crédito pessoal, crédito ao consumidor.

Os dados do Banco Central mostram uma transformação acelerada no mercado de crédito livre entre 2018 e 2026. Fintechs e bancos digitais passaram de menos de 10% do total para mais de 20% em menos de oito anos, enquanto os bancos tradicionais perderam 10 pontos percentuais de participação. O ritmo de crescimento foi ainda mais pronunciado nas fintechs: enquanto bancos privados tradicionais expandiam crédito a 12% ao ano, fintechs e bancos digitais cresciam a 30% anuais. Mas essa agressividade na oferta de crédito veio acompanhada de menor cautela na análise da capacidade de pagamento. Nas fintechs, a inadimplência alcança 11,5%. Nos bancos privados tradicionais, não passa de 4,5%.

O Desenrola Adimplentes não chegou sozinho. Veio empacotado com outros programas de concessão de crédito subsidiado — trabalhadores do setor formal poderão renegociar dívidas com juros menores e prazos maiores com garantia do FGTS, enquanto tomadores do Fies terão acesso a empréstimos subsidiados para atividade empreendedora. No fim, o que o governo ofereceu foi um conjunto de estímulos de crédito a diferentes segmentos, com objetivo duplo: estimular a atividade econômica e ampliar intenções de voto nas eleições presidenciais. O lançamento do Desenrola Adimplentes, ao focar nos informais e, consequentemente, no novo mundo dos bancos digitais, expõe com clareza a necessidade urgente de reformulação do sistema de supervisão e fiscalização bancária — uma tarefa que se tornou ainda mais premente depois das mudanças estruturais que a indústria viveu nos últimos anos.

Ao perceber o baixo alcance do programa, o governo o transformou em veículo para turbinar concessões de crédito consignado, com subsídios para quem não estiver inadimplente
— Análise do programa
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o governo criou um programa tão restrito se o objetivo era beneficiar devedores em dia?

Model

Porque o programa original — o Desenrola 2.0 para quem estava atrasado — já tinha alcance limitado. Quando perceberam que o novo programa não teria impacto econômico relevante, transformaram-no em veículo para ampliar subsídios de crédito consignado, que é mais barato e mais rentável para os bancos.

Inventor

Mas por que os bancos tradicionais não apoiaram o Desenrola Adimplentes se ele oferecia redução de custos?

Model

Porque reduzir custos para quem já paga em dia significa perder rentabilidade. Os bancos tradicionais já enfrentam margens menores. Eles preferem que o governo subsidie a redução de inadimplência — que é um problema real — a que subsidie clientes que já são lucrativos.

Inventor

Os informais pagam juros cinco vezes maiores. Por que não conseguem acessar crédito consignado?

Model

Porque crédito consignado depende de garantias — salário, aposentadoria, FGTS. Informais não têm essas garantias. Quando entraram no sistema bancário, entraram pelas portas mais caras, nas fintechs e bancos digitais. Agora estão presos lá.

Inventor

A inadimplência nas fintechs é 11,5% contra 4,5% nos bancos tradicionais. Isso não é um sinal de alerta?

Model

É um sinal de alerta muito claro. Significa que as fintechs são mais agressivas na oferta de crédito e menos cautelosas na análise de quem realmente pode pagar. O governo está subsidiando crédito justamente onde o risco é maior.

Inventor

Então o Desenrola Adimplentes vai resolver o problema?

Model

Não. Vai beneficiar entre 500 mil e um milhão de pessoas em um universo de 60 milhões de contratos. É um programa pequeno que mascara um problema maior: a necessidade urgente de reformular como o sistema bancário é supervisionado, especialmente as fintechs.

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