Cobogó: invenção brasileira de 100 anos ressurge como aliada contra calor extremo

Um ambiente que respira
Como um arquiteto descreve o efeito do cobogó em edifícios modernos que o resgata como solução térmica.

Há quase cem anos, três engenheiros pernambucanos patentearam um bloco de cimento vazado sem imaginar que estavam criando uma das respostas mais elegantes da arquitetura brasileira ao calor tropical. O cobogó — batizado com as iniciais de seus criadores — atravessou o modernismo, ornamentou Brasília e se espalhou pelos quintais do Nordeste, carregando consigo uma sabedoria construtiva ancestral: deixar o vento passar e o sol ficar do lado de fora. Agora, enquanto o Brasil enfrenta ondas de calor cada vez mais intensas, arquitetos e pesquisadores redescobrem nesse elemento simples uma alternativa sustentável ao ar-condicionado — uma memória que o presente urgentemente precisa reconvocar.

  • O Brasil vive sua sexta onda de calor do ano, com temperaturas acima de 40 graus, e as cidades estão repletas de fachadas de vidro e concreto que absorvem e irradiam o calor sem oferecer escape.
  • O cobogó, inventado em 1929 no Recife como simples tijolo industrial, oferece ventilação, proteção solar e privacidade sem consumir energia elétrica — uma climatização passiva que o país esqueceu de manter.
  • Pesquisadores da UFRJ demonstram que versões de seção variável do cobogó podem acelerar o vento em habitações populares e favelas, onde o conforto térmico é mais urgente e o acesso ao ar-condicionado, mais restrito.
  • Arquitetos relatam aumento na procura pelo elemento após a pandemia, quando as pessoas passaram mais tempo em casa e sentiram na pele o peso de ambientes que não respiram.
  • O desafio é estrutural: o Brasil já está construído, e reformular em larga escala edifícios existentes para incluir elementos vazados exige vontade política, programas habitacionais e uma mudança cultural sobre como se concebe o espaço doméstico.

No alto de Olinda, um reservatório de água dos anos 1930 guarda um segredo arquitetônico: duas de suas fachadas foram construídas com cobogós, tornando-o o primeiro edifício de expressão a exibir esse elemento vazado. O arquiteto Luiz Nunes não apenas embelezou a estrutura — usou os cobogós para amenizar o calor nas tubulações e preservar a temperatura da água, sem nenhum gasto de energia. Era climatização passiva em sua forma mais pura.

O cobogó nasceu em 1929 como invenção industrial. Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis patentearam um bloco de cimento pré-fabricado barato e versátil, cujo nome une as iniciais dos três criadores. Não havia intenção bioclimática — era apenas um tijolo prático. Mas o modernismo efervescente do Recife transformou essa peça em ícone: ela bloqueia o sol, deixa passar a luz, garante privacidade de dentro para fora e, sobretudo, permite que o vento circule livremente.

Do Recife, o cobogó viajou ao Rio de Janeiro, onde apareceu nos edifícios do Parque Guinle, e depois a Brasília, onde se tornou parte da identidade visual da capital modernista. Nas casas do interior nordestino, invadiu muros, varandas e quintais, ganhando apelo popular muito além da arquitetura erudita. Pesquisadores rejeitam o mito de que o cobogó descende diretamente dos muxarabis árabes: sua linhagem é mais ampla — uma continuidade de um hábito ancestral presente em culturas de clima quente ao redor do mundo.

Hoje, o elemento vive um momento de resgate. Escritórios de arquitetura o utilizam como divisor de ambientes internos, e empresas especializadas relatam aumento na procura, especialmente após a pandemia. Mas o cenário é desafiador: o Brasil urbanizado está repleto de fachadas fechadas, brancas, envidraçadas, que transformam edifícios em estufas. Pesquisadores sugerem que o cobogó poderia integrar programas como o Minha Casa Minha Vida, levando conforto térmico a quem mais precisa. Se a tradição não tivesse sido abandonada, reflete a arquiteta Guilah Naslavsky, hoje estaríamos menos dependentes do ar-condicionado — e mais em paz com o calor que sempre foi nosso.

No topo do sítio histórico de Olinda, em Pernambuco, ergue-se um reservatório de água dos anos 1930 com as proporções de um edifício de seis andares. Fica em frente à principal igreja da cidade e destoa do conjunto arquitetônico ao redor. Mas o que o torna notável não é seu tamanho — é o que o arquiteto Luiz Nunes fez com dois de seus lados de fachada. Em vez de ser uma caixa-d'água comum, com quatro faces cegas, o prédio foi construído com um elemento que havia sido criado no Recife alguns anos antes: o cobogó. Era a primeira vez que um edifício de expressão aparecia vazado, um estilo que se replicaria nas décadas seguintes em dezenas de prédios do Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, além de casas Brasil afora.

O cobogó nasceu em 1929 como uma invenção puramente industrial. Três engenheiros residentes no Recife — Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis — patentearam um bloco de cimento pré-fabricado que pudesse ser produzido em larga escala. O nome, conforme registrado no Dicionário Aurélio, une as iniciais dos três criadores: co-bo-gó. Não era uma solução pensada para ventilar ou proteger do calor. Era um tijolo prático e barato, que poderia ser preenchido ou deixado aberto conforme o desejo do construtor. Mas o efervescente cenário arquitetônico moderno do Recife transformou essa peça industrial em algo muito diferente do que seus inventores imaginaram.

O que o cobogó faz é simples e elegante: funciona como barreira contra o sol enquanto deixa passar luminosidade. Oferece privacidade para quem está dentro — você consegue ver quem está fora, mas não o contrário. E, o mais importante, permite que o vento circule. Na caixa-d'água de Olinda, a fachada de cobogós auxiliava a amenizar o calor incidente nas tubulações, preservando e resfriando a temperatura das águas no tanque. Era uma climatização passiva que ocorria no edifício por si só, sem necessidade de energia elétrica. Guilah Naslavsky, arquiteta especialista em modernismo na Universidade Federal de Pernambuco, explica que o cobogó pode criar uma zona de proteção ou transição num edifício, funcionando como um colchão de ar. Para Marcella Arruda, co-curadora da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, o cobogó é uma solução bioclimática que combina sustentabilidade com a poética da arquitetura brasileira.

Depois do Grande Recife, o Rio de Janeiro teve os primeiros projetos de destaque com cobogós, como os edifícios ao redor do Parque Guinle, em Laranjeiras. Na recém-construída Brasília dos anos 1960, os cobogós, impulsionados pelo modernismo de Oscar Niemeyer, viraram parte da identidade visual da capital. Até hoje, prédios das regiões nobres brasilienses são famosos por suas fachadas com aberturas. Cristiano Borba, arquiteto que pesquisou o tema para o livro Cobogó de Pernambuco, descreve Brasília como uma filhote de arquitetos nordestinos, um grande laboratório de experimentação onde surgiram os primeiros cobogós de autor, com assinatura, projetados para edifícios específicos. Nas casas do interior nordestino, o elemento se espalhou enchendo jardins, muros, varandas e quintais, ganhando apelo popular e criando uma identidade visual que transcendia a arquitetura erudita.

Um mito comum é que o cobogó tem origem nos muxarabis, as treliças de madeira vazadas de origem árabe usadas em janelas, varandas e fachadas da arquitetura islâmica. Dois sobrados mouriscos em Olinda ainda exibem esses elementos. Mas segundo os pesquisadores, a explicação é mais ampla. O elemento vazado com função de permitir luz e ventilação sempre esteve presente na história em locais de clima quente — na Ásia, no Oriente Médio, na arquitetura indígena. O cobogó, que surgiu como um elemento puramente industrial, tornou-se uma continuidade de um hábito ancestral de resolver edifícios em climas que exigem sombra e permeabilidade ao vento. Quando chegou ao trópico úmido atlântico nordestino, essa necessidade se tornou evidente.

Hoje, o cobogó vive uma fase de resgate. Em escritórios de arquitetura atuais, ele aparece não apenas como proteção solar e ventilação, mas também como divisor de ambientes internos, permitindo luminosidade entre cozinha e sala, ou até mesmo no banheiro. João Gomes Neto, fundador da Obi, empresa especializada em revestimentos e cobogós em João Pessoa, avalia que o aumento da procura está relacionado a uma tentativa de arquitetos em trazer conforto térmico nos projetos, especialmente após a pandemia, quando as pessoas ficaram mais tempo dentro de casa. É um ambiente que respira, resume. Mas há um problema: o Brasil é hoje um país extremamente urbanizado e construído. Seria difícil imaginar uma reformulação em larga escala de edifícios para incluir elementos vazados como cobogós.

Neste fim de semana, o Brasil enfrenta sua sexta onda de calor do ano, com temperaturas acima de 40 graus em várias localidades. Num cenário de crise climática, com o planeta cada vez mais quente, os cobogós têm espaço para ganhar uma função renovada no conforto térmico. Guilah Naslavsky observa que o Recife está cheio de prédios com fachadas brancas, fechadas, com painéis de vidro, sem varandas, sem elementos vazados — estruturas que absorvem e irradiam calor. Pesquisadores sugerem que há espaço para uma retomada. Uma pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro mostrou que cobogós podem ser úteis em favelas, especialmente os chamados de seção variável, cuja abertura de entrada é maior que a de saída, permitindo que o vento ganha mais velocidade. Cristiano Borba comenta que o uso poderia virar uma moda, uma tendência e uma diretriz — poderia fazer sentido e teria apelo. Guilah Naslavsky sugere que o cobogó poderia estar presente no programa Minha Casa Minha Vida. Se não tivéssemos ficado tão paranoicos com a vida exterior à casa e mantido a tradição, ela reflete, hoje estaríamos mais tranquilos em relação à compra de ar-condicionado.

O cobogó é uma solução bioclimática, um ícone que combina a sustentabilidade com a poética da arquitetura brasileira
— Marcella Arruda, co-curadora da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo
Se não tivéssemos ficado tão paranoicos com a vida exterior à casa e mantido a tradição, hoje estaríamos mais tranquilos em relação à compra de ar-condicionado
— Guilah Naslavsky, arquiteta especialista em modernismo da UFPE
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que um bloco de cimento pré-fabricado se tornou um ícone da arquitetura brasileira?

Model

Porque os arquitetos modernistas viram nele algo que seus inventores não imaginavam. Era um tijolo industrial, mas nas mãos de Luiz Nunes e depois de Oscar Niemeyer, virou uma solução poética para o clima tropical.

Inventor

O cobogó realmente esfria um edifício?

Model

Não esfria no sentido de ar-condicionado. Ele cria uma climatização passiva — bloqueia o sol direto, deixa o vento passar, oferece sombra. Na caixa-d'água de Olinda, mantinha a água mais fresca. É uma estratégia que funciona porque trabalha com a natureza, não contra ela.

Inventor

Por que caiu em esquecimento?

Model

Porque a modernidade nos vendeu a ideia de que precisamos de vidro, ar-condicionado e fachadas fechadas. Especialmente nas comunidades, quando as pessoas conseguem dinheiro, querem vidro — é símbolo de progresso. Mas vidro absorve calor. É o oposto do que precisamos agora.

Inventor

Pode voltar a ser comum?

Model

Há arquitetos jovens no sertão recriando esses elementos em áreas muito quentes. Mas são soluções pontuais, residenciais. Para virar tendência de verdade, precisaria estar nos programas de habitação popular, nos edifícios públicos. Precisaria de vontade política.

Inventor

Qual é a diferença entre um cobogó e um muxarabi?

Model

Tecnicamente, o muxarabi é mais antigo e vem da tradição árabe. Mas a função é a mesma — permitir luz e vento em clima quente. O cobogó é a versão industrial, brasileira, pré-fabricada. É a mesma solução, reinventada para a era moderna.

Inventor

Se o cobogó é tão bom, por que os edifícios modernos não o usam?

Model

Porque perdemos a memória. Construímos prédios com vidro verde e azul que absorvem calor, sem varandas, sem aberturas. Estamos pagando caro por ar-condicionado quando poderíamos estar respirando vento. É um esquecimento caro.

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