Assad ficou isolado — exatamente o momento que os rebeldes esperavam
Milícia islâmica HTS liderou maior ofensiva em anos, tomando Aleppo e outras cidades sírias, com Rússia retomando ataques aéreos. Síria é tabuleiro geopolítico onde EUA, Turquia, Arábia Saudita apoiam rebeldes enquanto Rússia e Irã sustentam Assad.
- Milícia islâmica HTS liderou ofensiva que tomou Aleppo, Deraa, Hama, Homs e bairros de Damasco
- Mais de 306 mil civis mortos até 2022; 15,3 milhões precisam de ajuda humanitária em 2023
- 6,8 milhões de deslocados internos na Síria; 6 milhões de refugiados no exterior
- Rússia e Irã apoiam Assad; EUA, Turquia e Arábia Saudita apoiam rebeldes
- Todos os esforços diplomáticos para negociar paz falharam
A Síria enfrenta nova escalada de conflito com ofensiva rebelde contra Assad. Interesses estrangeiros, colapso econômico, autoritarismo, divisões sociais e fracasso diplomático perpetuam a guerra.
A Síria acordou para uma guerra que nunca dormiu. Quase 14 anos depois que o conflito começou, uma ofensiva rebelde liderada pela milícia islâmica Hayat Tahrir al-Sham tomou a segunda maior cidade do país, Aleppo, e desde então conquistou Deraa, Hama, Homs e bairros da capital, Damasco. O ataque surpreendeu o mundo e trouxe a Rússia de volta aos céus sírios com seus primeiros ataques aéreos desde 2016. Mas o que parecia ser um conflito esquecido nunca deixou de arder — apenas mudou de intensidade, alimentado por cinco obstáculos que parecem intransponíveis.
O primeiro é a presença de potências estrangeiras que transformaram a Síria em um tabuleiro de xadrez geopolítico. Os rebeldes contam com apoio da Turquia, Arábia Saudita e Estados Unidos. Assad mantém seu regime graças ao suporte indispensável da Rússia e do Irã. Os curdos sírios, ávidos por autonomia e apoiados pelos americanos, aumentam a complexidade. A Turquia apoia forças rebeldes para proteger suas fronteiras. Um cessar-fogo em Idlib, negociado em 2020 entre Rússia e Turquia, criou um corredor de segurança, mas nunca devolveu o controle total daquela região ao governo. Agora, com o Hezbollah enfraquecido pela guerra contra Israel e a Rússia esgotada pela Ucrânia, Assad ficou isolado — exatamente o momento que os rebeldes esperavam para atacar.
O segundo obstáculo é o colapso econômico e a crise humanitária que não tem fim à vista. Mais da metade dos 22 milhões de sírios que viviam no país antes da guerra foram deslocados. Dos 6,8 milhões de deslocados internos, mais de dois milhões vivem em acampamentos oficiais com acesso limitado a serviços básicos. Outros seis milhões fugiram para o Líbano, Jordânia e Turquia — estes três países abrigam 5,3 milhões de refugiados. Em 2023, mais de 15,3 milhões de sírios precisavam de ajuda humanitária, um recorde, e 12 milhões viviam em grave insegurança alimentar. O terremoto de 2023 na Turquia vizinha matou 5,9 mil pessoas e feriu 8,8 milhões na Síria, agravando ainda mais a miséria. Os campos petrolíferos e as rotas comerciais continuam gerando interesses econômicos que alimentam as tensões.
O terceiro é o autoritarismo do regime de Bashar al-Assad. Um relatório da ONU de 2021 documentou violações generalizadas dos direitos humanos: ataques químicos, bombardeios aéreos de zonas povoadas, restrições severas à ajuda humanitária. Até 2022, 306.887 civis foram mortos nos combates, e milhares morreram de fome, doenças e falta de atenção médica. Assad se recusa a compartilhar o poder ou fazer compromissos. Seu regime está compulsivamente concentrado em sua própria sobrevivência, não em boa governança.
O quarto obstáculo é uma sociedade profundamente dividida. As regiões de maioria curda no leste permaneceram fora do controle do Estado desde os primeiros anos da guerra. Os restos do Estado Islâmico persistem no deserto sírio, ameaçando a segurança da população. Idlib se tornou reduto dos grupos militantes confinados ali durante a fase mais intensa do conflito, com o HTS mantendo o controle. Lutas entre os próprios insurgentes complicam ainda mais a situação. As Forças Democráticas da Síria, aliança formada principalmente por combatentes curdos, enfrentam forças rebeldes apoiadas pela Turquia. Quando o HTS lançou sua ofensiva, o Exército Livre da Síria declarou ter tomado aldeias e terras nos arredores de Aleppo — uma região que não estava em poder do governo, mas das Forças Democráticas. Este fato ilustra o conflito fragmentado e complicado que assola o país.
O quinto e talvez mais crítico é o fracasso da diplomacia. Todos os esforços para encontrar uma solução negociada fracassaram, incluindo as conversações promovidas pela ONU. As principais partes colocaram seus objetivos estratégicos acima da vontade de chegar a um acordo. Assad não quer ceder o poder nem fazer compromissos, enquanto as facções rebeldes continuam combatendo para derrubá-lo. Outros países da região estão nervosos porque não está claro qual poderia ser a solução. Quando estão nervosos, tendem a agir de forma conservadora, buscando acordos temporários para manter a estabilidade.
A vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos adiciona uma camada de imprevisibilidade. Informações indicam que a Turquia apoiou a recente ofensiva rebelde para fortalecer sua posição antes da posse de Trump, buscando negociações favoráveis com os Estados Unidos e a Rússia. Mas a política do segundo mandato de Trump em relação ao Oriente Médio permanece uma incógnita. Há quem defenda uma política agressiva pró-Israel e contrária ao Irã, e há quem defenda o isolamento americano. Não está claro se Trump buscará maior envolvimento dos Estados Unidos ou acelerará a retirada norte-americana, deixando que os participantes regionais resolvam seus conflitos de forma independente. Enquanto isso, a Síria segue presa em um conflito que parece não ter saída.
Citas Notables
A implosão do Hezbollah e o esgotamento dos recursos russos deixaram o regime totalmente isolado, criando o momento propício para que o HTS montasse sua ofensiva— Simon Frankel Pratt, especialista em Ciências Políticas da Universidade de Melbourne
O autoritarismo bate no coração desta guerra. O regime se negou reiteradamente a compartilhar o poder ou firmar compromissos— Julien Barnes-Dacey, diretor do programa de Oriente Médio e Norte da África do Conselho Europeu de Relações Exteriores
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a Síria não consegue sair dessa guerra depois de 14 anos?
Porque nenhum dos cinco obstáculos que a mantêm presa pode ser removido isoladamente. São como peças de um quebra-cabeça que se reforçam mutuamente.
Mas Assad ainda tem poder. Por que não consegue simplesmente vencer?
Porque seus aliados estão enfraquecidos. O Hezbollah foi devastado pela guerra contra Israel, e a Rússia está sangrando recursos na Ucrânia. Assad dependeu deles por anos. Agora está isolado.
E os rebeldes? Eles têm uma visão clara do que querem?
Não exatamente. Há múltiplos grupos com interesses diferentes. O HTS quer poder. Os curdos querem autonomia. O Exército Livre da Síria quer fortalecer sua posição. Todos lutam contra Assad, mas não necessariamente juntos.
A crise humanitária não deveria forçar um acordo?
Deveria, mas não força. Quando há 15 milhões de pessoas precisando de ajuda e dois milhões em campos de refugiados, a desesperação não cria consenso — cria mais fragmentação. As pessoas estão lutando pela sobrevivência, não pela paz.
E a comunidade internacional? Por que não consegue intervir?
Porque a comunidade internacional está dividida. EUA, Turquia e Arábia Saudita apoiam rebeldes. Rússia e Irã apoiam Assad. Cada um tem seus próprios interesses estratégicos. Ninguém quer ceder.
Trump muda isso?
Ninguém sabe. Ele pode querer confrontar o Irã ou pode querer que os americanos saiam completamente. Essa incerteza deixa todos nervosos e conservadores, esperando para ver o que ele faz.