Proteger tubarões e raias é proteger o futuro dos oceanos
Ao longo de sete anos e mais de doze mil mergulhos nas Maldivas, investigadores portugueses reuniram provas de que os limites traçados para proteger tubarões e raias não acompanham a realidade dos oceanos. Vinte e três das vinte e cinco espécies identificadas estão ameaçadas, e dois dos quatro hotspots críticos descobertos ficam fora de qualquer proteção reconhecida internacionalmente. Num momento em que as Maldivas reabriram a pesca ao tubarão após quinze anos de interdição, a ciência chega com um aviso que transcende a biologia marinha: as fronteiras que traçamos para a natureza raramente coincidem com as fronteiras que a natureza precisa.
- Quatro espécies — incluindo o tubarão-martelo-gigante e o peixe-guitarra-gigante — estão criticamente em perigo, e as áreas onde mais aparecem não têm qualquer proteção legal.
- Em novembro de 2025, as Maldivas reverteram quinze anos de proibição da pesca de tubarões, agravando a pressão sobre populações já fragilizadas.
- Os investigadores mapearam padrões sazonais precisos: a abundância de tubarões e raias atinge o pico entre agosto e setembro, mas colapsa durante a transição monção, tornando certas janelas temporais especialmente vulneráveis.
- Os santuários marinhos existentes cobrem apenas dois dos quatro hotspots identificados, deixando desprotegidas algumas das concentrações mais críticas de espécies ameaçadas.
- A equipa pede expansão urgente das áreas marinhas protegidas, regulamentação mais rigorosa da pesca e monitorização contínua — antes que a janela de ação se feche definitivamente.
Durante sete anos, entre 2017 e 2024, investigadores do Centro de Ciências Marinhas e do Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa mergulharam repetidamente nas águas do atol de Lhaviyani, nas Maldivas. Mais de doze mil mergulhos em noventa e quatro locais diferentes geraram cento e quarenta e três mil observações de tubarões e raias — um arquivo científico sem precedentes para a região.
O estudo, publicado na revista Frontiers in Marine Science, identificou vinte e cinco espécies, das quais vinte e três constam como ameaçadas na Lista Vermelha da UICN. Quatro encontram-se em estado crítico: o tubarão-martelo-gigante, o peixe-guitarra-gigante, a raia-viola-de-espinhos e a raia-águia-ornamentada. Os investigadores localizaram ainda quatro hotspots de conservação ao longo da margem norte do atol — mas apenas dois estão abrangidos pelas Áreas Importantes para Tubarões e Raias reconhecidas internacionalmente. Os outros dois, onde se registam algumas das maiores concentrações de espécies criticamente ameaçadas, ficam completamente fora das proteções existentes.
Os dados revelaram também um mundo subaquático moldado pelas monções: a diversidade e abundância de espécies atingem o máximo entre agosto e setembro, no final da monção de sudoeste, e caem drasticamente entre dezembro e março. Tubarões e raias ocupam habitats distintos — os primeiros preferem vertentes de recife expostas e canais com correntes fortes; as segundas frequentam lagoas abrigadas e estações de limpeza.
O valor económico destes animais é considerável. O turismo de observação de tubarões gerou mais de dois milhões de dólares num único ano nas Maldivas, e em 2010 o ecoturismo baseado em tubarões representava trinta por cento do PIB nacional — razão que levou à proibição da pesca nesse mesmo ano. Mas em novembro de 2025, essa proibição foi revertida, reabrindo a pesca ao tubarão-barroso após quinze anos.
Face a este retrocesso, o líder do estudo, Rui Rosa, e a sua equipa apelam à expansão das áreas marinhas protegidas, à integração dos hotspots no planeamento espacial marinho e à manutenção de uma monitorização contínua. A conclusão é inequívoca: mesmo os maiores santuários do mundo não bastam se as suas fronteiras ignorarem onde a vida realmente acontece.
Num atol das Maldivas, investigadores portugueses passaram sete anos a mergulhar nas águas tropicais, registando cada encontro com tubarões e raias. Foram mais de doze mil mergulhos em noventa e quatro locais diferentes, entre 2017 e 2024. O que encontraram foi perturbador: cento e quarenta e três mil observações de animais que o mundo está a perder.
A equipa, liderada por cientistas do Centro de Ciências Marinhas e do Ambiente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em colaboração com o Centro de Estatística e Aplicações e investigadores internacionais, identificou vinte e cinco espécies no atol de Lhaviyani. Vinte e três delas constam como ameaçadas na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Quatro encontram-se num estado crítico: o tubarão-martelo-gigante, o peixe-guitarra-gigante, a raia-viola-de-espinhos e a raia-águia-ornamentada. Estes animais estão à beira do desaparecimento.
O trabalho, publicado na revista Frontiers in Marine Science, revelou algo que os conservacionistas já suspeitavam mas agora tinham prova: os santuários marinhos existentes não cobrem tudo o que precisam de cobrir. Os investigadores identificaram quatro zonas de concentração crítica ao longo da margem norte do atol. Duas delas já faziam parte das Áreas Importantes para Tubarões e Raias, reconhecidas internacionalmente. As outras duas não. E é precisamente nessas duas áreas desprotegidas que se registam algumas das maiores ocorrências de espécies criticamente ameaçadas de todo o estudo. As fronteiras das proteções atuais, concluem os cientistas, são inadequadas.
Os padrões que descobriram revelam um mundo subaquático governado pelas monções. A abundância e diversidade de tubarões e raias atingem o pico no final da monção de sudoeste, entre agosto e setembro, quando as correntes favorecem a produtividade e concentram as presas. Durante a transição para a monção do nordeste, entre dezembro e março, os números caem dramaticamente. Mas tubarões e raias não partilham os mesmos espaços. Os tubarões preferem as vertentes de recife expostas e os canais com correntes fortes, enquanto as raias frequentam as lagoas e zonas abrigadas, muitas vezes junto às chamadas estações de limpeza, onde pequenos peixes removem parasitas dos maiores. Os tubarões são atraídos pelo oxigénio dissolvido e pela clorofila; as raias respondem à temperatura, ao oxigénio e à velocidade da corrente.
Estes animais não são meros curiosidades marinhas. Como predadores de topo, controlam as cadeias alimentares inteiras. Mas o seu valor vai muito além da ecologia. Nas Maldivas, o turismo de observação de tubarões gerou dois milhões e trezentos mil dólares num único ano. O tubarão-de-recife-cinzento vale até trinta e cinco mil dólares anuais nos locais de mergulho mais populares. Em 2010, o ecoturismo baseado em tubarões representava trinta por cento do produto interno bruto nacional. Essa realidade levou à proibição da pesca de tubarões nesse mesmo ano.
Mas em novembro de 2025, as Maldivas reverteram essa decisão. Reabrirão a pesca ao tubarão-barroso após quinze anos de proteção. É neste contexto que os investigadores fazem o seu apelo: é necessário alargar as áreas marinhas protegidas, regulamentar mais eficazmente a pesca, integrar os hotspots no planeamento espacial marinho e manter uma monitorização contínua através da ciência cidadã. Rui Rosa, investigador do MARE e líder do estudo, é claro: mesmo os maiores santuários do mundo não estão imunes aos efeitos da atividade humana. Proteger tubarões e raias é proteger o futuro dos oceanos.
Citações Notáveis
Mesmo os maiores santuários do mundo não estão imunes aos efeitos da atividade humana— Rui Rosa, investigador do MARE e líder do estudo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como é que cientistas portugueses acabaram a estudar tubarões nas Maldivas?
O atol de Lhaviyani é um dos arquipélagos mais ricos em megafauna marinha do mundo. Quando se quer compreender como proteger estas espécies, é preciso ir para onde elas estão concentradas. Portugal tem expertise em ciências marinhas, e as Maldivas têm o problema.
Doze mil mergulhos é um número impressionante. Quanto tempo levou realmente?
Sete anos, entre 2017 e 2024. Não é mergulho de turismo — é trabalho sistemático, em noventa e quatro locais diferentes, registando cada observação. Cento e quarenta e três mil observações no total. É a diferença entre ver e documentar.
Porque é que dois dos hotspots cruciais ficam fora das áreas protegidas?
Porque as proteções foram desenhadas sem dados suficientes. Os investigadores só agora conseguiram provar que essas duas zonas concentram as espécies mais ameaçadas. As fronteiras foram traçadas há anos, com informação incompleta. Agora sabemos que estão erradas.
As Maldivas acabaram de reabrir a pesca de tubarões. Isso torna este estudo ainda mais urgente?
Torna-o urgente e também trágico. O país tinha proibido a pesca em 2010 porque percebeu que os tubarões vivos valem mais do que mortos — turismo gera milhões. Mas em 2025 reverteram. Este estudo é um aviso que chegou talvez demasiado tarde.
O que é que um santuário marinho não consegue fazer?
Um santuário é uma linha no mapa. Não controla o que acontece fora dela. Não regula a pesca comercial em águas adjacentes. Não monitora continuamente. Não se adapta quando aprendes coisas novas sobre onde os animais realmente precisam estar. É proteção de papel.
Se protegessem estes quatro hotspots, seria suficiente?
Seria um começo. Mas os cientistas dizem que é preciso mais: regulação eficaz da pesca, expansão das áreas protegidas, planeamento espacial marinho integrado, monitorização contínua. Uma zona protegida sozinha não salva nada se o resto do oceano continua a ser explorado sem limites.