A contaminação não chega em locais remotos — é justamente o contrário
Cientistas encontraram microplásticos em 100% dos girinos coletados em lagoas amazônicas, marcando a primeira documentação dessa contaminação em filhotes de anuros na região. Os girinos ingerem as partículas plásticas ao se alimentarem por sucção, e estudos indicam associação entre maior concentração de microplásticos e menor peso corporal dos animais.
- 100% dos 100 girinos coletados continham microplásticos
- Primeira documentação de contaminação por microplásticos em filhotes de anuros na Amazônia
- Girinos com maior concentração de microplásticos apresentaram menor peso corporal
- Microplásticos chegam à região via ventos, chuva e descarte irregular de lixo
Estudo inédito da Universidade Federal do Pará revelou que todos os 100 girinos analisados na Amazônia contêm microplásticos, evidenciando a disseminação global dessa poluição e seus potenciais impactos na saúde animal e humana.
Cem girinos coletados em lagoas rasas da Amazônia carregam dentro de si partículas de plástico invisíveis a olho nu. Quando ampliados no microscópio, esses microplásticos — fragmentos menores que cinco milímetros, nascidos da degradação de objetos maiores ou fabricados nesse tamanho — parecem fiapos retorcidos ou pequenos canudos coloridos. Todos os cem animais analisados continham essas partículas. É a primeira vez que a ciência documenta essa contaminação em filhotes de sapos, rãs e pererecas na região amazônica.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará, que coletaram girinos da espécie Scinax x-signatus em cinco pontos diferentes de lagoas no Parque Ecológico do Gunma, em Santa Bárbara do Pará, na região metropolitana de Belém. Os animais foram levados ao laboratório e examinados em detalhe. O que os cientistas encontraram não foi surpresa apenas pelo fato de estar ali — foi surpresa por estar em um lugar que muitos imaginam estar protegido da poluição moderna.
"Sabemos que a contaminação por microplásticos é onipresente. Mas às vezes imaginamos que essa contaminação não chega em locais mais remotos, e é justamente o contrário", comenta Fabrielle Barbosa de Araújo, bióloga que liderou a pesquisa. Os girinos ingerem essas partículas enquanto se alimentam por sucção, absorvendo o que flutua na água ao seu redor. Eles precisam dessa energia para passar pelas 46 fases de desenvolvimento que os levam da vida dentro do ovo até a transformação em sapos adultos. Mas junto com o alimento vem o plástico.
Os pesquisadores observaram algo preocupante: quanto maior a concentração de microplásticos no corpo do girino, menor era seu peso corporal. Estudos anteriores já tinham encontrado essas partículas na pele, nos pulmões e no sistema digestivo de sapos adultos. Agora, a contaminação aparecia desde o estágio larval. A literatura científica aponta que microplásticos podem alterar o DNA desses animais, prejudicar seu desenvolvimento e causar deformações no intestino e na boca. "Eles são organismos muito sensíveis, que sofrem muito quando há qualquer alteração no ambiente", explica Araújo.
A pergunta óbvia é: como plástico chega tão longe? Os microplásticos se espalham de múltiplas formas. Viajam pelo ar, carregados pelo vento. Chegam pela água da chuva. Na Amazônia especificamente, a contaminação vem também do descarte irregular de lixo e do fluxo dos rios, que transportam resíduos de áreas urbanas para dentro da floresta. Nenhum lugar está verdadeiramente isolado.
O que torna essa descoberta ainda mais relevante é que as cadeias alimentares não têm fronteiras. Os girinos contaminados podem ser comidos por peixes maiores, que são comidos por pássaros ou mamíferos, que eventualmente chegam à mesa humana. Os microplásticos se acumulam ao longo dessa cadeia, concentrando-se em cada nível. O que começa como uma partícula invisível em uma lagoa amazônica pode, através de uma série de refeições naturais, terminar no corpo de quem come peixe ou carne. A poluição por plástico não respeita distâncias nem fronteiras — ela é um problema que conecta a Amazônia remota ao resto do mundo de formas que ainda estamos começando a compreender.
Citações Notáveis
Sabemos que a contaminação por microplásticos é onipresente. Mas às vezes imaginamos que essa contaminação não chega em locais mais remotos, e é justamente o contrário— Fabrielle Barbosa de Araújo, bióloga e autora principal do estudo
Eles são organismos muito sensíveis, que sofrem muito quando há qualquer alteração no ambiente— Fabrielle Barbosa de Araújo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que exatamente os girinos? Por que não estudar peixes ou outras espécies aquáticas?
Os girinos são organismos muito sensíveis às mudanças ambientais. Eles vivem em água doce rasa, onde os microplásticos tendem a se concentrar. E eles se alimentam por sucção — basicamente aspiram tudo que está flutuando. São como pequenos aspiradores de poluição.
Todos os cem girinos tinham microplásticos. Isso significa que é impossível escapar?
Significa que em cada ponto onde coletaram — cinco lagoas diferentes — a contaminação já estava presente. Não é uma questão de alguns animais terem tido azar. É sistêmico.
A associação entre mais plástico e menos peso corporal — isso é definitivo? Causa e efeito?
Não é definitivo ainda. É uma associação observada. Mas quando você vê um padrão consistente, quer dizer que algo está acontecendo. Os microplásticos podem estar interferindo na nutrição, ou causando inflamação, ou ambos.
Como é que plástico chega a uma lagoa na Amazônia?
Ventos levam partículas. Chuva carrega resíduos de cidades próximas. Os rios transportam lixo de áreas urbanas rio acima. A Amazônia não é uma bolha isolada — está conectada ao resto do mundo por ar, água e comércio.
E se esses girinos crescerem e se tornarem sapos? O plástico fica neles?
Pesquisas anteriores já encontraram microplásticos em sapos adultos — na pele, nos pulmões, no sistema digestivo. Então sim, o plástico permanece. E se esse sapo for comido por algo maior, o plástico passa adiante.
Então estamos falando de um problema que eventualmente nos atinge?
Exatamente. As cadeias alimentares conectam tudo. O que começa como uma partícula invisível em uma lagoa amazônica pode se acumular através de peixes, aves, mamíferos, até chegar à nossa comida.