Cientistas criam catálogo para identificar vírus com potencial pandêmico

Identificar novos vírus mais rapidamente impediria a próxima pandemia
Pesquisadores argumentam que detecção precoce é crucial para reduzir o impacto de futuras crises de saúde pública.

Desde os anos 1960, dois ou três vírus desconhecidos são descobertos em humanos a cada ano — a maioria desaparece, mas alguns reescrevem a história. Pesquisadores da Universidade de Edimburgo publicaram um catálogo que usa esse passado como bússola, mapeando quais vírus de RNA possuem as características necessárias para desencadear uma pandemia. A obra parte de uma verdade simples e poderosa: não é a letalidade que faz uma pandemia, mas a capacidade de um vírus de viajar de pessoa em pessoa.

  • A cada ano surgem novos vírus em humanos, e a ciência ainda não tinha uma forma sistemática de distinguir os inofensivos dos potencialmente catastróficos.
  • O catálogo de Edimburgo revela que apenas algumas dezenas de vírus, entre milhares conhecidos, reúnem as condições reais para provocar emergências globais de saúde.
  • Vírus como ebola, chikungunya, zika e mpox já estão na lista — e todos causaram grandes epidemias, confirmando o poder preditivo da abordagem.
  • Surtos recentes de hantavírus dos Andes e ebolavírus de Bundibugyo mostram que vírus raros também podem escalar rapidamente quando as condições mudam.
  • O maior risco identificado é o tempo perdido: tanto a Covid quanto outros surtos já se espalhavam por semanas antes de serem detectados, dando ao vírus uma vantagem decisiva.
  • Detectar e classificar novos vírus com mais rapidez é apontado como a medida mais eficaz para reduzir mortes e danos econômicos na próxima pandemia.

Apenas 239 espécies de vírus de RNA conhecidas infectam seres humanos. Milhares circulam pela natureza sem nunca nos tocar, mas dois ou três novos vírus são descobertos em pessoas a cada ano — um ritmo estável desde os anos 1960. A maioria some da memória científica tão rápido quanto aparece. Alguns, porém, mudam tudo: o HIV-1 e o SARS-CoV-2 inauguraram duas das maiores crises sanitárias da história moderna. Quando um cientista encontra um vírus desconhecido em um paciente — e isso provavelmente acontecerá nos próximos meses —, como saber se está diante de uma ameaça dessa magnitude?

Pesquisadores da Universidade de Edimburgo decidiram usar a história como guia. Publicaram um catálogo que ajuda a identificar quais vírus de RNA têm real potencial pandêmico, partindo de uma observação central: nem toda doença grave vira pandemia. Para isso, o vírus precisa se espalhar entre pessoas. Dois terços dos vírus que infectam humanos são zoonóticos — as pessoas os contraem de animais, não de outras pessoas. A raiva mata dezenas de milhares por ano, mas nunca aprendeu a se transmitir entre humanos. Não existe um único exemplo documentado de um vírus de RNA ter feito essa transição.

O verdadeiro perigo vem de vírus que já dominam a transmissão humana e podem se tornar ainda mais transmissíveis — como as variantes do SARS-CoV-2 demonstraram. Há também uma categoria intermediária: vírus capazes de se espalhar entre pessoas, mas que até agora causaram apenas surtos limitados. Seus números de contágio são baixos e as cadeias de infecção se extinguem naturalmente — mas isso pode mudar. Quando o ebola do Zaire chegou à África Ocidental em 2014, saiu de aldeias remotas e entrou em cidades, resultando em uma epidemia de grande escala.

O catálogo de Edimburgo contém apenas algumas dezenas de nomes, mas funciona como um indicador poderoso. Ebola, chikungunya, zika, oropouche e mpox foram os primeiros a entrar na lista — e todos causaram grandes epidemias. Vírus mais raros também ganharam relevância: o hantavírus dos Andes provocou um surto recente em um navio de cruzeiro, e o ebolavírus de Bundibugyo avança pela África Central. Ambos já se espalhavam semanas antes de serem detectados — o mesmo que aconteceu com a Covid. Identificar novos vírus mais rapidamente impediria que a próxima pandemia tivesse essa vantagem inicial, e poderia fazer uma diferença enorme no número de vítimas e nos impactos sobre a economia.

Apenas 239 espécies de vírus de RNA conhecidas conseguem infectar seres humanos. Milhares de outras circulam pela natureza, a maioria delas nunca tocando nossa espécie. Mas a cada ano, cientistas descobrem dois ou três vírus que nunca haviam sido observados em pessoas antes — um padrão que se repete desde os anos 1960, estável e previsível.

A maioria desses achados desaparece da memória científica tão rápido quanto surge. Alguns vírus são tão obscuros que pesquisadores precisam vasculhar artigos médicos antigos apenas para encontrar uma menção passageira. Depois, há os raros que mudam tudo. O HIV-1, descoberto em 1983, e o SARS-CoV-2, em 2020, prenunciaram duas das maiores crises de saúde pública da história moderna. A Aids matou dezenas de milhões. A Covid fez o mesmo. Quando um cientista encontra um vírus desconhecido em um paciente — e isso provavelmente acontecerá nos próximos meses — como saber se está diante de uma ameaça dessa magnitude ou de algo que desaparecerá sem deixar rastro?

Pesquisadores da Universidade de Edimburgo decidiram responder essa pergunta usando a história como guia. Publicaram recentemente um catálogo que ajuda a identificar quais vírus de RNA têm real potencial pandêmico. O trabalho parte de uma observação simples: nem toda doença grave vira pandemia. Para isso, o vírus precisa se espalhar entre pessoas. Pode acontecer por contato físico, pela inalação de partículas no ar, pela exposição a sangue ou fezes, ou pela picada de um inseto. Sem essa capacidade de transmissão humana, não há pandemia — não importa quão letal seja o patógeno.

Dois terços dos vírus conhecidos que infectam humanos são zoonóticos: as pessoas os pegam de animais, não de outras pessoas. A raiva é o exemplo clássico. Esses vírus representam uma ameaça teórica — há preocupação legítima de que um deles possa evoluir e ganhar a capacidade de se espalhar entre humanos, como aconteceu com a gripe aviária. Mas não existe um único exemplo documentado de um vírus de RNA ter feito essa transição. A raiva mata dezenas de milhares de pessoas a cada ano, mas nunca aprendeu a se transmitir de pessoa para pessoa.

O verdadeiro perigo vem de vírus que já dominam a transmissão humana. Esses patógenos podem se tornar ainda mais transmissíveis — como as variantes do SARS-CoV-2 demonstraram — mas surgiram de vírus animais que já possuíam essa capacidade. No passado distante, essa foi provavelmente a origem do sarampo, da caxumba, da rubéola e de dezenas de vírus associados a resfriados e infecções gastrointestinais. Depois há uma categoria intermediária: vírus capazes de se espalhar entre humanos, mas que até agora causaram apenas surtos limitados. Seu número R — quantas pessoas uma pessoa infectada acaba infectando em média — é muito baixo, e as cadeias de infecção se extinguem naturalmente. Mas esses números podem mudar. Quando o vírus ebola do Zaire chegou à África Ocidental em 2014, saiu de aldeias remotas e entrou em cidades. O resultado foi uma epidemia de grande escala.

O catálogo de Edimburgo contém apenas algumas dezenas de nomes, mas é um indicador poderoso de quais vírus podem desencadear emergências de saúde pública. O ebola do Zaire, chikungunya, zika e oropouche — todos transmitidos por insetos — e o mpox foram os primeiros a entrar na lista, e todos causaram grandes epidemias. Alguns vírus mais raros também ganharam relevância: o hantavírus dos Andes provocou um surto recente em um navio de cruzeiro, enquanto o ebolavírus de Bundibugyo está se espalhando pela África Central.

Os dados também ajudam a prever o perfil de um futuro vírus pandêmico, às vezes chamado de doença X. Em 2019, a equipe de Edimburgo demonstrou que vírus altamente transmissíveis tendem a estar intimamente relacionados a outros patógenos que se espalham entre humanos, mas surgem separadamente de animais. Essa descrição se encaixou perfeitamente no SARS-CoV-2: muito semelhante ao coronavírus original da SARS, mas adquirido independentemente de morcegos. Um ano antes, a Organização Mundial da Saúde havia proposto um coronavírus semelhante ao da SARS como candidato à doença X. Por isso cientistas ficaram alarmados com a Covid desde o início — era exatamente o que temiam. Um novo vírus relacionado ao sarampo, por comparação, teria potencial para desencadear uma emergência muito pior que a Covid.

Mas há uma lição que o hantavírus dos Andes e o Bundibugyo reforçam com clareza: ambos já estavam se espalhando semanas antes de serem detectados. O mesmo aconteceu com a Covid. Identificar e compreender novos vírus mais rapidamente impediria que a próxima pandemia tivesse essa vantagem inicial. Poderia fazer uma diferença enorme no número final de vítimas e nos impactos sobre meios de subsistência e economia.

Vírus altamente transmissíveis tendem a estar intimamente relacionados a outros vírus que se espalham entre humanos, mas surgem separadamente a partir de animais
— Pesquisadores da Universidade de Edimburgo
Ambos já estavam se espalhando semanas antes de serem detectados. O mesmo aconteceu com a Covid
— Pesquisadores sobre hantavírus dos Andes e Bundibugyo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que apenas 239 vírus de RNA infectam humanos se existem milhares deles?

Model

A maioria dos vírus de RNA evoluiu para infectar animais específicos. Humanos são apenas um hospedeiro possível entre muitos. A transmissão entre espécies é rara — exige circunstâncias muito específicas.

Inventor

Então o risco real não é um vírus zoonótico adquirir capacidade de transmissão humana?

Model

Exatamente. Não há exemplo documentado disso acontecer com vírus de RNA. O risco maior vem de patógenos que já sabem se espalhar entre pessoas. Eles podem evoluir e ficar mais transmissíveis, como o SARS-CoV-2 fez.

Inventor

E como o catálogo ajuda a identificar qual vírus será o próximo problema?

Model

Olhamos para padrões históricos. Vírus altamente transmissíveis tendem a estar relacionados a outros que já se espalham entre humanos, mas com origem animal independente. A Covid se encaixava perfeitamente nesse perfil.

Inventor

Mas nem todo vírus nessa categoria vira pandemia global, certo?

Model

Correto. O hantavírus dos Andes e o Bundibugyo têm capacidade de transmissão humana, mas não o perfil para uma pandemia global. Um novo vírus relacionado ao sarampo seria muito mais perigoso.

Inventor

Qual é a lição mais importante que aprendemos com a Covid?

Model

Que a detecção rápida importa enormemente. Ambos os vírus recentes já estavam se espalhando semanas antes de serem identificados. Se conseguíssemos detectar mais rápido, poderíamos evitar que a próxima pandemia tivesse essa vantagem inicial.

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