Cientista sueco por trás de droga para Alzheimer tem grandes ambições

Duas mortes de pacientes em uso de lecanemab que também tomavam anticoagulantes levantaram questões sobre segurança e possível exclusão de pacientes do tratamento.
A ciência e a oportunidade de construir uma empresa sueca
Lannfelt explica o que realmente o motivou ao inventar o lecanemab, além da perspectiva de ganhar uma fortuna.

Lecanemab reduziu em 27% a taxa de declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer em estágio inicial, gerando expectativa de vendas de até US$ 10 bilhões anuais. BioArctic, fundada por Lannfelt em 2003, triplicou seu valor desde setembro e planeja expandir para desenvolver medicamentos contra Parkinson e outros distúrbios neurológicos.

  • Lecanemab reduziu em 27% a taxa de declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer inicial
  • BioArctic triplicou seu valor desde setembro, agora valendo quase US$ 2 bilhões
  • Analistas preveem vendas de até US$ 10 bilhões anuais para o medicamento
  • Duas mortes de pacientes usando lecanemab com anticoagulantes levantaram questões de segurança
  • Aprovação nos EUA pode ocorrer em janeiro sob processo acelerado da FDA

Cientista sueco Lars Lannfelt, inventor do lecanemab, vê sua empresa BioArctic valorizar-se após dados confirmarem que medicamento retarda declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer inicial.

A sala de conferência em San Francisco explodiu em aplausos quando a farmacêutica japonesa Eisai apresentou, no início de dezembro de 2022, os dados que confirmavam o que muitos esperavam há anos: uma droga capaz de desacelerar o declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer em estágio inicial. Entre o público estava Lars Lannfelt, um cientista sueco de 73 anos pouco conhecido fora dos círculos de pesquisa, mas cuja carreira de décadas em neurobiologia estava prestes a transformá-lo em um homem muito rico.

Lannfelt inventou o lecanemab, o medicamento que gerou aquele aplauso. Ele fundou a BioArctic em 2003 com Pär Gellerfors, e seis anos depois fechou um acordo de licenciamento com a Eisai que lhe garantiria centenas de milhões de dólares em pagamentos únicos e royalties sobre as vendas futuras. Os números que começaram a circular após o anúncio eram vertiginosos: analistas previam que o lecanemab poderia gerar até dez bilhões de dólares em vendas anuais. As ações da BioArctic, uma empresa com apenas 75 funcionários listada em Estocolmo, mais do que triplicaram de valor desde que a Eisai divulgou em setembro que o medicamento havia reduzido em 27% a taxa de declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer inicial. A empresa agora valia quase dois bilhões de dólares.

Mas Lannfelt, quando questionado sobre a riqueza iminente, ofereceu uma resposta que soava quase desinteressada. "É bom ter dinheiro, mas não foi isso o que me motivou. Foram a ciência e a oportunidade de construir uma empresa sueca", disse ele ao Financial Times. Sua ambição era transformar a BioArctic em uma farmacêutica de pleno direito, capaz de desenvolver não apenas tratamentos para Alzheimer, mas também para Parkinson e outros distúrbios do sistema nervoso central. A empresa estava recrutando funcionários rapidamente, com planos de vender o lecanemab nos países nórdicos, onde detinha os direitos de comercialização em cooperação com a Eisai.

O caminho até ali havia sido longo. No início dos anos 1990, Lannfelt descobriu uma mutação no gene responsável pela beta-amiloide, a proteína que forma as placas pegajosas que se acumulam no cérebro de pacientes com Alzheimer. Quase uma década depois, enquanto trabalhava no Instituto Karolinska na Suécia, identificou outra mutação genética ligada a estruturas chamadas protofibrilas, agregados de beta-amiloide que se assemelham a bastonetes. Essa descoberta, batizada de "mutação do Ártico", levou ao desenvolvimento do anticorpo monoclonal que se tornaria o lecanemab. Lannfelt possuía 33,5% das ações da BioArctic e controlava 49,3% dos direitos de voto da empresa.

A aprovação nos Estados Unidos poderia ocorrer já em janeiro, sob o processo acelerado da FDA. Mas obstáculos significativos permaneciam. Médicos e pesquisadores levantavam preocupações sobre a segurança do medicamento, particularmente sobre hemorragias cerebrais como efeito colateral. Duas mortes de pacientes que usavam lecanemab enquanto tomavam anticoagulantes levantaram questões sobre quantos pacientes poderiam eventualmente ser excluídos do tratamento. Robert Howard, professor de psiquiatria para idosos da University College London, era cético: suspeitava que a falta de eficácia clínica demonstrável significaria que o lecanemab não seria amplamente adotado nos sistemas de saúde em todo o mundo.

O ceticismo também refletia lições recentes. A parceira da Eisai no desenvolvimento do lecanemab, a Biogen, havia lançado um medicamento similar chamado aducanemab com grande fanfarra, precificando o tratamento anual em 56 mil dólares. Mas o medicamento se tornou um fracasso comercial e de reputação, especialmente depois que a agência federal americana que administra Medicare e Medicaid restringiu a cobertura de seguro apenas para pacientes que participavam de ensaios clínicos. Os investidores precisavam ser convencidos de que a Eisai não repetiria aquele erro.

Lannfelt discordava dos críticos. Argumentava que uma redução de 27% na taxa de declínio cognitivo era clinicamente significativa e suficiente para aprovar e lançar a droga. Ele ia além, afirmando que os resultados confirmavam a hipótese amiloide, a teoria de que a doença de Alzheimer é causada principalmente pelo acúmulo de placas no cérebro. "Está bem provado que a beta-amiloide causa a doença de Alzheimer tanto quanto o vírus HIV causa a Aids. Acho que é o mesmo nível de evidência", declarou. Muitos pesquisadores discordavam, argumentando que a beta-amiloide provavelmente contribuía com apenas cerca de 30% da doença, que era complexa e multifatorial.

Analistas da BMO Capital Markets eram mais otimistas que os críticos. "É uma cura? Não. Já chegamos lá? Não. Mas o conjunto de dados é claro e mostra um nítido benefício", disse Evan Seigerman. "Com base nesses dados, estamos muito confiantes na aprovação do lecanemab e no eventual reembolso pelos Centros de Serviços Medicare e Medicaid." A apresentação dos dados abrangentes na conferência de San Francisco, acompanhada pela publicação de um artigo revisado por pares no New England Journal of Medicine, havia sido um desenvolvimento positivo. Apesar da euforia, porém, o futuro do lecanemab permanecia incerto, dependendo de decisões regulatórias, da capacidade de demonstrar benefícios clínicos sustentáveis e da disposição dos sistemas de saúde de pagar pelo tratamento. Lannfelt, por sua parte, já pensava no que faria com a riqueza: compraria um carro elétrico de presente para si mesmo.

É bom ter dinheiro, mas não foi isso o que me motivou. Foram a ciência e a oportunidade de construir uma empresa sueca
— Lars Lannfelt, cientista sueco e inventor do lecanemab
É uma cura? Não. Já chegamos lá? Não. Mas o conjunto de dados é claro e mostra um nítido benefício
— Evan Seigerman, analista da BMO Capital Markets
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um cientista de 73 anos continua tão envolvido com a empresa que fundou? Não seria mais fácil vender tudo e aproveitar a vida?

Model

Lannfelt diz que você não pode mudar seu estilo de vida nessa idade. Para ele, a BioArctic não é apenas um investimento financeiro — é a realização de uma ambição que começou há décadas, quando estava descobrindo mutações genéticas em laboratórios suecos. O dinheiro é consequência, não o objetivo.

Inventor

Mas há um risco real aqui, não é? Duas pessoas morreram usando o medicamento. Como ele justifica isso?

Model

Ele argumenta que uma redução de 27% no declínio cognitivo é clinicamente significativa — que vale a pena. Mas está em desacordo com muitos pesquisadores que veem os benefícios como moderados e os riscos como sérios. É uma questão de como você pesa incerteza contra esperança.

Inventor

A Biogen cometeu um erro semelhante com o aducanemab, não é? Como os investidores podem confiar que a Eisai não repetirá o mesmo?

Model

Essa é a questão que paira sobre tudo. O aducanemab foi precificado em 56 mil dólares por ano e fracassou. O lecanemab tem dados mais sólidos, mas ainda há ceticismo legítimo. Os investidores estão apostando que desta vez é diferente.

Inventor

E se não for? Se o medicamento não for amplamente adotado?

Model

Então a BioArctic terá triplicado de valor em alguns meses apenas para despencar novamente. Lannfelt teria sua riqueza teórica, mas não a realidade. É por isso que a aprovação da FDA em janeiro será tão crucial — e por isso que as preocupações sobre segurança importam tanto.

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