Quanto mais Trump tenta isolar a China, mais reforça sua narrativa
China controla 90% da produção mundial de terras raras e usa restrições como resposta simétrica às barreiras americanas, dando a Pequim poder comparável ao da Opep nos anos 1970. Trump adotou tom conciliador após turbulências nos mercados, sinalizando abertura ao diálogo e possível encontro com Xi Jinping na Coreia antes do prazo de 1º de novembro para tarifas.
- China controla 90% da produção mundial de terras raras
- Trump anunciou tarifas de 100% na sexta-feira, recuou no fim de semana
- Tarifas entram em vigor em 1º de novembro, deixando margem para negociação
- Possível encontro entre Trump e Xi Jinping na Coreia está sendo considerado
Após ameaçar tarifas de 100%, Trump recua e busca negociação enquanto China mantém restrições de terras raras, minerais críticos para tecnologia e defesa, reforçando seu poder de influência global.
Na sexta-feira passada, os mercados globais tremeram. Donald Trump anunciou tarifas de 100% sobre produtos chineses e novos controles de exportação, desencadeando uma onda de vendas em ativos de risco. Mas nos dias que se seguiram, o tom mudou. O presidente americano começou a falar em diálogo. "Os Estados Unidos não querem prejudicar a China", disse em declarações públicas. Seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, confirmou que havia "comunicações substanciais" entre os dois governos e que as tarifas só entrariam em vigor em 1º de novembro — deixando margem para negociação. A possibilidade de um encontro entre Trump e Xi Jinping na Coreia reapareceu no horizonte. Na segunda-feira, o dólar abriu em queda e o apetite por ativos de risco voltou. A trégua temporária parecia estar em andamento.
Mas enquanto Washington recuava, Pequim mantinha sua posição firme. A China seguia com as restrições às exportações de terras raras — minerais críticos para semicondutores, veículos elétricos e armamentos. O Ministério do Comércio chinês reiterou que os controles eram "legítimos e proporcionais", adotados em conformidade com a lei e compromissos internacionais. Porta-vozes do governo deixaram claro que não se tratava de uma proibição total, mas de um sistema de licenças que exigiria comprovação do uso final das matérias-primas, especialmente em aplicações sensíveis como defesa e inteligência artificial. Pequim também passou a exigir licenças adicionais para intermediários, bloqueando tentativas de contorno através de terceiros países.
O professor Marcus Vinícius de Freitas, da Universidade de Relações Exteriores da China, explica a lógica por trás da medida. A China não estava aplicando tarifas integrais como os americanos, mas escolhendo setores estratégicos — e as terras raras eram o mais importante deles. A ação era uma resposta simétrica às restrições impostas pelos Estados Unidos, que vinham ampliando o conceito de segurança nacional para justificar barreiras contra produtos e empresas chinesas. Para Freitas, estava claro que Pequim não estava impondo um bloqueio, mas exigindo uma requalificação das empresas estrangeiras que compravam os minerais.
O poder que a China detém nessa disputa é extraordinário. De acordo com a Agência Internacional de Energia, o país asiático responde por mais de 90% da produção global de terras raras. Esse domínio dá a Pequim uma influência comparável à da Opep durante a crise do petróleo dos anos 1970. Os Estados Unidos continuam altamente dependentes dessa fonte. "Para os chineses, não faz sentido vender metais estratégicos para um país que é o principal fornecedor de armas do mundo", observa Freitas. O governo chinês havia chegado à conclusão de que estava, de certa forma, alimentando a própria indústria bélica americana. Foi essa limitação que provocou a forte reação nos mercados na sexta-feira — ações de grandes empresas de tecnologia americana despencaram, refletindo o temor de interrupção nas cadeias de suprimentos.
Pequim acusa Washington de usar o discurso da "segurança nacional" de forma seletiva e de empregar o comércio como instrumento político. O Ministério do Comércio da China argumenta que os EUA vêm "ampliando indevidamente o conceito de segurança", abusando de medidas unilaterais e impondo sanções extraterritoriais. Há uma assimetria que incomoda Pequim: quando os EUA restringem exportações, alegam proteção estratégica; quando a China faz o mesmo, é acusada de prática coercitiva. "O governo Trump negocia algumas coisas e depois volta a impor restrições unilaterais", lembra Freitas. "É uma postura performática, que contrasta com a serenidade que a China tenta transmitir ao mundo."
O impacto global será significativo se as restrições forem mantidas. Podem encarecer a produção de veículos elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos militares — elevando custos em cadeias que são globais e interdependentes. Por outro lado, a mudança de tom de Trump e as declarações de Bessent trouxeram alívio para os investidores. A percepção agora é de que a tarifa de 100% pode não se concretizar e que há espaço para uma solução negociada. Mas Freitas alerta para um paradoxo: "quanto mais Trump tenta isolar a China, mais ele reforça a narrativa de Pequim de que o verdadeiro risco à estabilidade global vem da imprevisibilidade americana". Com o dólar em queda e os mercados reavaliando o risco de ruptura nas cadeias de tecnologia, o foco dos próximos dias estará na diplomacia. Se o encontro entre Trump e Xi Jinping se confirmar na Coreia, o mundo pode assistir a uma reaproximação calculada — ou a mais um capítulo de uma guerra comercial que insiste em não ter fim.
Citas Notables
Os Estados Unidos não querem prejudicar a China— Donald Trump
Para os chineses, não faz sentido vender metais estratégicos para um país que é o principal fornecedor de armas do mundo— Professor Marcus Vinícius de Freitas
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a China escolheu justamente as terras raras como arma nessa disputa?
Porque são insubstituíveis no curto prazo e porque a China controla 90% da produção global. É como se tivessem encontrado o ponto de alavanca perfeito — um mineral que os americanos precisam para semicondutores, defesa, tecnologia verde. Não é uma tarifa; é um controle de acesso.
Mas isso não prejudica a própria China? Ela não depende de vender esses minerais?
Depende, sim. Mas o governo chinês chegou à conclusão de que estava alimentando a indústria bélica americana. Então há uma lógica: perder receita agora é melhor do que permitir que os EUA usem seus próprios recursos contra ela.
Trump recuou. Isso significa que a China venceu?
Não é tão simples. Trump recuou no tom, mas as restrições chinesas continuam. É mais um empate tático — ambos estão testando limites, sinalizando disposição para negociar, mas ninguém cedeu no essencial ainda.
E se não conseguirem chegar a um acordo até 1º de novembro?
Então as tarifas de 100% entram em vigor e tudo piora. Veículos elétricos, celulares, armamentos — tudo fica mais caro globalmente. É um jogo de nervo.
A China está sendo hipócrita ao reclamar de "segurança nacional" quando usa o mesmo argumento?
Não exatamente. A China diz que está respondendo simetricamente — que os EUA começaram a usar segurança nacional como desculpa para tudo. Ela tem um ponto: há uma assimetria no discurso. Quando Washington restringe, é proteção. Quando Pequim faz o mesmo, é coerção.
Então quem sai prejudicado no final?
O mundo inteiro. As cadeias de suprimento são globais. Se terras raras ficam caras ou indisponíveis, o custo sobe em todos os lugares — não só nos EUA ou na China.