O Brics precisa agir como um bloco unificado diante de ameaças que vão do vírus ao espaço
Em Nova Délhi, o chanceler chinês Wang Yi convocou os países do Brics a transcenderem o papel de fórum econômico e assumirem a postura de uma coligação estratégica coesa. Seu apelo, centrado nos minerais que alimentam a civilização moderna, tocou também em epidemias, inteligência artificial e a militarização do espaço — ameaças que nenhuma nação enfrenta sozinha. Por trás da linguagem multilateral, emerge uma questão mais profunda: pode um bloco de interesses tão distintos transformar retórica compartilhada em ação comum?
- Wang Yi chegou à Índia com um mapa de ameaças globais — do ebola à IA, da energia ao espaço — e pediu ao Brics que respondesse a todas elas de forma unificada.
- O ponto mais sensível foi a cooperação em minerais estratégicos como lítio, cobalto e terras raras, recursos que a China processa em larga escala e que o Brasil e a África do Sul possuem em abundância.
- O discurso foi também um ataque velado ao unilateralismo americano, posicionando o Brics como alternativa a uma ordem internacional que as economias emergentes consideram injusta.
- O verdadeiro desafio permanece sem resposta: transformar um bloco historicamente dividido em uma coligação estratégica capaz de agir — e não apenas declarar.
Wang Yi desembarcou em Nova Délhi com uma agenda que ultrapassava em muito os temas habituais do Brics. Diante dos parceiros do bloco, o chanceler chinês traçou um panorama de vulnerabilidades compartilhadas — segurança energética, segurança alimentar, a epidemia de ebola na África — e argumentou que apenas uma resposta coletiva seria à altura desses desafios.
A inteligência artificial surgiu no discurso não como ameaça a ser banida, mas como risco a ser monitorado em conjunto, reconhecendo que nenhum país, por mais poderoso, controla sozinho seus impactos. Wang também se opôs à militarização do espaço e reafirmou o combate ao terrorismo, temas que ganham peso crescente conforme as potências expandem suas capacidades além da atmosfera.
O núcleo do apelo, porém, estava nos minerais estratégicos. Lítio, cobalto, níquel, terras raras — matérias-primas que movem baterias, semicondutores e sistemas de defesa. A China domina o processamento; o Brasil e a África do Sul guardam reservas expressivas. Ao pedir coordenação nessa área, Wang sinalizava um interesse concreto: garantir cadeias de suprimento estáveis dentro do próprio bloco.
Por trás de toda a linguagem multilateral, havia também uma crítica direta ao protecionismo e ao unilateralismo — palavras que apontam para as tensões com Washington, mas também para a insatisfação mais ampla das economias emergentes com as regras do jogo global. Wang pediu que o Brics liderasse a defesa da justiça internacional, sugerindo que o bloco deveria desafiar, e não apenas habitar, a ordem estabelecida.
A questão que fica é se o apelo terá eco. O Brics reúne países com histórias, interesses e rivalidades profundamente distintos. Transformá-lo de fórum de debate em coligação estratégica exigiria muito mais do que um discurso bem construído em Nova Délhi — exigiria a difícil arte de alinhar vontades que raramente apontam para a mesma direção.
Wang Yi, o chanceler chinês, chegou a Nova Délhi com uma mensagem clara: o Brics precisa agir como um bloco unificado. Durante um encontro sobre segurança na terça-feira, ele traçou um mapa ambicioso de ameaças compartilhadas e oportunidades de cooperação que vão muito além do que os cinco países — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — costumam discutir em seus comunicados conjuntos.
O apelo de Wang tocou em questões que atravessam continentes e setores. Ele pediu que o grupo respondesse junto aos desafios de segurança energética e alimentar, duas vulnerabilidades que afetam economias emergentes de forma desproporcional. Mas também elevou o tom ao mencionar a epidemia de ebola na África, sinalizando que o Brics deveria se posicionar como força capaz de responder a crises sanitárias globais, não apenas a questões comerciais e financeiras.
A inteligência artificial apareceu no discurso como uma preocupação que exige vigilância coletiva. Wang não pediu uma proibição ou um recuo tecnológico, mas sim um acompanhamento dos riscos — uma postura que reflete a realidade de que nenhum país, por mais avançado, consegue controlar sozinho o impacto dessa tecnologia. Ele também reafirmou a necessidade de combater o terrorismo em todas as suas formas e se opôs explicitamente à militarização do espaço, temas que ganham urgência conforme as potências espaciais expandem suas capacidades.
Mas o cerne da mensagem de Wang foi sobre minerais estratégicos. Esses recursos — lítio, cobalto, níquel, terras raras — são o sangue das economias modernas. Alimentam baterias de carros elétricos, painéis solares, semicondutores e armas de defesa avançada. A China, que controla grande parte da cadeia de processamento desses minerais, tem interesse óbvio em garantir suprimentos estáveis. Ao pedir que o Brics fortaleça a cooperação nessa área, Wang estava essencialmente pedindo que os membros do bloco — especialmente Brasil, que tem reservas significativas, e África do Sul, rica em platinoides — coordenassem suas estratégias de extração e comércio.
O discurso também foi uma defesa do multilateralismo contra o que Wang chamou de unilateralismo e protecionismo. Essa linguagem aponta para as tensões comerciais globais, particularmente entre China e Estados Unidos, mas também para a frustração de economias emergentes com um sistema internacional que elas veem como injusto. Wang pediu que o Brics liderasse a defesa da justiça e da igualdade, ampliando sua influência internacional — uma forma de dizer que o bloco deveria desafiar a ordem estabelecida.
O que torna esse apelo significativo é sua amplitude. Wang não estava pedindo apenas que o Brics assinasse um acordo sobre minerais ou que condenasse o protecionismo em um comunicado que ninguém leria. Ele estava tentando reposicionar o bloco como um ator geopolítico coeso, capaz de responder a ameaças que vão do vírus ao espaço, da energia à inteligência artificial. Se conseguir, o Brics sairia de sua atual função — principalmente um fórum de discussão econômica — para se tornar algo mais próximo de uma coligação estratégica. Se não conseguir, o bloco continuará sendo o que é: um agrupamento de interesses nem sempre alinhados, unido mais pela retórica do que pela ação.
Citas Notables
Os membros do Brics precisam liderar a defesa da justiça e da igualdade, além de ampliar sua influência internacional— Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a China está tão interessada em unificar o Brics agora, especificamente em torno de minerais estratégicos?
Porque a China sabe que não pode controlar sozinha as cadeias de suprimento desses recursos. O Brasil tem lítio, a África do Sul tem platinoides. Se a China conseguir que esses países coordenem suas políticas de extração e venda, ela ganha previsibilidade e poder de negociação contra o Ocidente.
Mas por que mencionar ebola, inteligência artificial e militarização do espaço no mesmo discurso? Parecem tópicos desconectados.
Não estão desconectados se você entender que Wang está tentando redefinir o que significa ser um bloco emergente. Não é só economia. É segurança, saúde, tecnologia, espaço. Ele quer que o Brics pareça indispensável para resolver os problemas do mundo.
E o multilateralismo que ele defendeu — isso é uma crítica direta aos EUA?
É uma crítica ao sistema atual, que os emergentes veem como controlado pelo Ocidente. Mas sim, os EUA estão no centro dessa crítica. Wang está dizendo: nós cinco países temos o direito de ter voz igual nas decisões globais.
Qual é o risco de o Brics não conseguir se unificar dessa forma?
Que continua sendo o que sempre foi: um grupo que fala muito e faz pouco. Brasil, Rússia, Índia e África do Sul têm interesses que nem sempre coincidem com os da China. Sem mecanismos reais de coordenação, esses apelos de Wang viram apenas retórica.