Ceratocone cresce 77% entre jovens brasileiros; diagnóstico precoce é chave

A doença afeta principalmente jovens entre 10 e 30 anos, período crítico de progressão da deformidade estrutural que pode comprometer a visão.
A córnea saudável é lisa e esférica; no ceratocone, fica cônica e irregular
Descrição de como a doença transforma a estrutura do olho e compromete a visão.

Em silêncio, uma doença que deforma a córnea e embaraça o olhar jovem avança pelo Brasil com velocidade preocupante: em apenas dois anos, os registros de ceratocone cresceram 77,6%, atingindo sobretudo adolescentes e adultos jovens num momento em que a progressão é mais intensa. A combinação de herança genética e o hábito aparentemente inofensivo de coçar os olhos revela como gestos cotidianos podem carregar consequências profundas. O que a medicina oferece como resposta é, antes de tudo, tempo — e a sabedoria de buscar o diagnóstico antes que a deformidade se torne irreversível.

  • Os atendimentos por ceratocone quase dobraram em dois anos, saltando de 18 mil para mais de 32 mil casos anuais, segundo o Ministério da Saúde.
  • A doença avança sem avisar: jovens confundem os primeiros sintomas — visão embaçada, fotofobia e dores de cabeça — com simples cansaço visual ou tempo excessivo em telas.
  • O hábito de coçar os olhos, especialmente em quem sofre de alergias, funciona como gatilho silencioso que acelera a deformação da córnea ao longo do tempo.
  • Quando detectado tarde, o ceratocone pode exigir transplante de córnea; quando detectado cedo, exames como topografia corneana permitem intervenções muito menos invasivas.
  • A faixa etária mais afetada — entre 10 e 30 anos — é justamente aquela em que a progressão é mais rápida, tornando cada ano de atraso no diagnóstico potencialmente decisivo.

Os consultórios oftalmológicos brasileiros registraram uma alta expressiva nos casos de ceratocone entre 2023 e 2025: os atendimentos saltaram de 18.026 para 32.018 por ano, um crescimento de 77,6% confirmado pelo Ministério da Saúde. O aumento não é coincidência — é o retrato de uma doença que avança em silêncio, especialmente entre adolescentes e adultos jovens, justamente quando a deformidade tende a progredir com mais força.

O ceratocone transforma a córnea saudável — lisa e esférica — numa estrutura progressivamente mais fina e cônica. O resultado é uma visão distorcida e embaçada, como se o mundo tivesse perdido o foco. A doença tem raízes genéticas, mas encontra um poderoso aliado no cotidiano: o hábito crônico de coçar os olhos. Pessoas com alergias, conjuntivite, dermatite ou rinite são especialmente vulneráveis, pois a coceira persistente leva ao esfregaço constante, que vai danificando a córnea num ciclo difícil de interromper.

Os primeiros sinais são traiçoeiros. Dores de cabeça por esforço visual, sensibilidade à luz e piora rápida da visão são frequentemente atribuídos a miopia, astigmatismo ou cansaço digital. Muitos jovens levam meses — ou anos — para receber o diagnóstico correto. E é aí que está o ponto mais delicado: detectar a doença cedo, por meio de exames como topografia corneana e paquimetria, pode ser a diferença entre um tratamento simples e a necessidade de um transplante de córnea. Para quem tem entre 10 e 30 anos, cada ano conta.

Nos últimos dois anos, consultórios oftalmológicos brasileiros viram seus registros de ceratocone quase dobrar. Entre 2023 e 2025, o número de atendimentos relacionados à doença saltou de 18.026 para 32.018 casos anuais — um crescimento de 77,6% segundo dados do Ministério da Saúde. O aumento não é acidental. Trata-se de uma condição que avança silenciosamente, especialmente entre adolescentes e adultos jovens, justamente quando a deformidade estrutural tende a progredir com mais intensidade.

O ceratocone é uma doença crônica e degenerativa que transforma a córnea — aquela camada transparente que protege a frente do olho — em algo que não deveria ser. A córnea saudável é lisa e esférica. No ceratocone, ela fica progressivamente mais fina e assume uma forma cônica e irregular. O resultado é que as imagens chegam à retina distorcidas, embaçadas, sem nitidez. Quem tem a doença enxerga o mundo borrado.

A origem é uma combinação de dois fatores. Há um componente genético hereditário — a doença corre nas famílias. Mas há também um gatilho externo poderoso: o hábito crônico de coçar ou esfregar os olhos. Samir El Faro, oftalmologista do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual em São Paulo, observa que a doença é particularmente comum em pessoas com atopia ou alergias — aquelas com conjuntivite alérgica, dermatite atópica, rinite ou asma. Essas condições causam coceira persistente, e a coceira leva ao esfregaço, e o esfregaço danifica a córnea. É um ciclo.

Os primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas de refração comuns, como miopia ou astigmatismo. Uma pessoa começa a notar dores de cabeça recorrentes causadas pelo esforço visual. Sente coceira nos olhos que não passa. Fica incomodada com luz brilhante — fotofobia. E percebe que sua visão está piorando rapidamente, sem explicação clara. Muitos jovens atribuem isso a cansaço ou à tela do computador. Alguns levam meses ou anos para descobrir que têm ceratocone.

Aqui está o ponto crítico: o diagnóstico precoce muda tudo. Detectar a doença nos estágios iniciais permite que os médicos intervenham antes que a deformidade avance demais. Os exames necessários são específicos — topografia corneana, que mapeia a curvatura e o relevo da córnea, e paquimetria, que mede sua espessura. Esses testes são feitos em consultório e fornecem um retrato preciso do que está acontecendo. Quando a doença é descoberta cedo, as opções de tratamento são menos invasivas. Quando é descoberta tarde, o transplante de córnea pode se tornar necessário.

O crescimento de 77,6% nos registros de atendimento em dois anos sugere que mais pessoas estão procurando ajuda — ou que mais casos estão sendo diagnosticados. Pode ser ambos. O que importa é que a maioria desses novos casos envolve pessoas entre 10 e 30 anos, a faixa etária onde a progressão é mais rápida e mais perigosa. Para esses jovens, a diferença entre um diagnóstico aos 15 anos e um aos 25 anos pode ser a diferença entre preservar a visão e precisar de um transplante. O desafio agora é garantir que esses diagnósticos aconteçam cedo o suficiente.

É recorrente ver a doença nos 'coçadores', pessoas que têm atopia ou alergias, como conjuntivite alérgica, dermatite atópica, rinite e asma
— Samir El Faro, oftalmologista do Iamspe de São Paulo
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o ceratocone está crescendo tanto entre jovens brasileiros especificamente?

Model

Não sabemos se está realmente crescendo ou se estamos detectando melhor. Mas a faixa etária de 10 a 30 anos é quando a doença progride mais rápido, então é quando as pessoas mais procuram ajuda — ou quando os danos ficam visíveis o suficiente para alguém notar.

Inventor

E o hábito de coçar os olhos é realmente tão importante assim?

Model

É o gatilho externo principal. Se você tem predisposição genética e alergias que causam coceira, você está constantemente esfregando os olhos. Cada esfregaço danifica a córnea um pouco mais. É mecânico, repetitivo, e acumula.

Inventor

Então alguém com asma ou dermatite atópica tem risco maior?

Model

Muito maior. Essas pessoas têm inflamação crônica, coceira persistente. Elas coçam mais. E quando você coça muito, a córnea sofre. É por isso que o oftalmologista mencionou os 'coçadores'.

Inventor

Se o diagnóstico precoce é tão importante, por que tantas pessoas chegam tarde?

Model

Porque os primeiros sintomas parecem miopia ou astigmatismo comum. Dor de cabeça, visão embaçada, sensibilidade à luz — qualquer um pode ter isso. Muitos jovens acham que é cansaço ou que precisam de óculos novos. Levam tempo para procurar um oftalmologista, e mais tempo ainda para fazer os exames específicos que detectam ceratocone.

Inventor

E quando é detectado tarde, o que acontece?

Model

Transplante de córnea. É invasivo, tem riscos, e muda a vida de alguém. Por isso o crescimento de 77% em dois anos é importante — significa que mais pessoas estão sendo diagnosticadas, e quanto mais cedo, melhor.

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