Celular de fraude revelou vídeos que originaram operação da PF contra tortura infantil

Crianças e bebês foram submetidos a tortura deliberada, asfixia e sufocamento; em pelo menos um caso, o investigado é pai da vítima.
Um encontro fortuito de provas que revelou tortura deliberada
Como um celular apreendido em investigação de fraude levou à descoberta de uma rede de violência infantil.

Celular apreendido em investigação sobre desvios de recursos públicos revelou vídeos de tortura deliberada contra crianças e bebês, gerando nova operação policial. Nove suspeitos foram presos temporariamente; material era compartilhado e comercializado em plataformas como Telegram e Bigo entre abril e agosto de 2025.

  • Celular apreendido em agosto de 2025 durante investigação sobre desvios de 624 mil reais em Bagé
  • Nove suspeitos presos temporariamente; vídeos produzidos entre abril e agosto de 2025
  • Material compartilhado e comercializado em Telegram e Bigo; em um caso, investigado é pai da vítima

Investigação sobre fraude em Bagé levou à descoberta de vídeos de tortura infantil em celular apreendido, resultando na Operação Contra Barbariem com nove prisões temporárias e investigação de rede de compartilhamento e comercialização do material.

Um telefone celular apreendido em agosto de 2025 durante uma investigação de rotina sobre desvios de recursos públicos em Bagé se tornou a chave para descobrir uma rede de tortura infantil. O aparelho pertencia a Tiago Ximendes de Oliveira, um dos nove suspeitos presos temporariamente na quinta-feira pela Polícia Federal na Operação Contra Barbariem. Ximendes havia sido candidato a vereador pelo PL nas eleições de 2024, recebendo 701 votos e ficando como quarto suplente do partido. Na época da apreensão original, ele trabalhava como coordenador do Posto de Atendimento Médico de Bagé.

O celular havia sido confiscado durante a segunda fase da Operação Free Fuel, que investigava suspeitas de fraudes no abastecimento de veículos da prefeitura. A investigação apontava um esquema de desvios de recursos destinados à Secretaria Municipal de Saúde, com prejuízo estimado em 624 mil reais. Entre 2023 e 2024, segundo a apuração, teriam sido pagos com cartões oficiais da prefeitura abastecimentos de galões e veículos particulares. Não havia qualquer conexão esperada entre essa investigação de fraude administrativa e o que viria a ser descoberto.

Quando peritos analisaram o celular, encontraram vídeos contendo cenas de violência extrema contra crianças, incluindo bebês, além de maus-tratos a animais. Os vídeos registravam atos de tortura deliberada — asfixia, sufocamento e outras formas de violência — sem qualquer conotação sexual, segundo o delegado da Polícia Federal em Bagé, Ronaldo Reis. A descoberta foi o que ele descreveu como um "encontro fortuito de provas", que levou à instauração de um novo inquérito policial e, posteriormente, à deflagração da Operação Contra Barbariem.

A operação cumpriu nove mandados de prisão temporária, com duração de 30 dias, e 12 mandados de busca e apreensão em Bagé, Candiota e Canoas. As investigações indicam que a maior parte dos vídeos foi produzida entre abril e agosto de 2025, principalmente em Bagé, e que o material era compartilhado e comercializado pela internet em plataformas como Telegram e Bigo. Parte dos suspeitos possuía vínculo familiar com as vítimas. Em pelo menos um caso, o investigado é pai de uma das crianças submetidas às agressões. Os investigados poderão responder por tortura qualificada por envolver crianças e adolescentes, associação criminosa e maus-tratos a animais.

A investigação agora entra em uma nova etapa. O delegado Ronaldo Reis afirmou que a Polícia Federal busca identificar outras vítimas, possíveis participantes da produção dos vídeos e as pessoas que adquiriram esse tipo de conteúdo. A instituição também tenta dimensionar o alcance da rede de compartilhamento e verificar se existem outros grupos organizados no Brasil ou no exterior envolvidos com esse tipo de crime.

O advogado Roberto Valerio Ximendes Junior, que representa Tiago Ximendes de Oliveira, informou que acompanhou a audiência de custódia realizada na quinta-feira, quando foi mantida a prisão temporária do investigado. Segundo a defesa, o acesso aos autos ocorreu recentemente e o procedimento reúne um expressivo volume de documentos, depoimentos, vídeos, áudios e demais elementos, o que ainda impede qualquer manifestação sobre o mérito das acusações. O advogado optou por não comentar o conteúdo da investigação neste momento em respeito à necessidade de análise integral dos autos e para evitar qualquer interferência no andamento das apurações. A defesa sustenta que Tiago tem colaborado com as autoridades desde o início da investigação.

A partir da análise dos elementos do celular encontramos esse tipo de material e iniciamos uma nova investigação. Foi um encontro fortuito de provas.
— Delegado Ronaldo Reis, Polícia Federal em Bagé
Os vídeos eram de tortura deliberada, asfixia, sufocamento, esse tipo de coisa. Não tinham cunho sexual.
— Delegado Ronaldo Reis
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é que um caso de fraude administrativa termina levando à descoberta de crimes tão graves?

Model

Foi literalmente acaso. Quando os peritos analisaram o celular apreendido na investigação de desvios de recursos, encontraram os vídeos. Não havia nenhuma conexão esperada entre os dois casos.

Inventor

E quanto tempo levou para que alguém percebesse o que havia naquele telefone?

Model

O celular foi apreendido em agosto de 2025. A análise revelou o material, e isso levou à instauração de um novo inquérito. A operação foi deflagrada agora, em julho de 2026.

Inventor

Nove pessoas presas. Isso sugere uma rede organizada?

Model

Sim. Os vídeos eram compartilhados e vendidos em plataformas como Telegram e Bigo. Havia comercialização do material. Alguns dos suspeitos tinham vínculos familiares com as vítimas.

Inventor

Qual é o próximo passo da investigação?

Model

Identificar outras vítimas, encontrar quem comprou esse material e verificar se existem redes similares em outras partes do Brasil ou no exterior. O delegado deixou claro que isso é apenas o começo.

Inventor

E quanto aos investigados? Eles estão cooperando?

Model

A defesa de um deles diz que ele tem colaborado desde o início. Mas a maioria dos detalhes ainda está sob análise. Os autos contêm um volume expressivo de documentos, vídeos e áudios.

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