Caso Americanas é corrupção que blinda bilionários, diz deputado da CPI

Fraude bilionária afetou acionistas minoritários, credores e funcionários da Americanas, causando perdas patrimoniais significativas e impacto na confiança do mercado.
É corrupção feita para que gente rica continue sendo rica
Deputado critica modelo de gestão que usa fraude como método para blindar controladores bilionários.

No coração de uma das maiores investigações parlamentares do Brasil contemporâneo, a CPI das Americanas debruça-se sobre um esquema que vai além do balanço contábil adulterado: trata-se, segundo o deputado Tarcísio Motta, de corrupção estrutural a serviço da perpetuação do poder. Com desvios estimados em quase R$ 50 bilhões, o caso coloca em xeque a narrativa de modernidade e meritocracia cultivada por décadas pelos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira — e levanta perguntas incômodas sobre o silêncio da mídia e os limites da accountability no capitalismo brasileiro.

  • Executivos da Americanas fabricavam lucros fictícios e ocultavam dívidas enquanto convertiam bônus milionários em patrimônio pessoal — um deles comprou uma mansão no Leblon por R$ 32,5 milhões à vista no auge das fraudes.
  • A CPI enfrenta pressão para validar uma narrativa que responsabiliza apenas diretores de segundo escalão, protegendo os três acionistas controladores que comandavam a empresa pela 3G Capital.
  • O deputado Motta denuncia o silêncio ensurdecedor da imprensa comercial: enquanto a Lava Jato dominou o noticiário por anos, o Jornal Nacional dedicou apenas 39 segundos às revelações do próprio CEO da Americanas.
  • A comissão planeja convocar Lemann, Telles e Sicupira, mas avança com cautela — reunindo provas antes de confrontar os bilionários que, segundo Motta, não poderiam ignorar uma fraude dessa magnitude.
  • O caso é lido como sintoma de um padrão sistêmico: a 'corrupção privada' como método de gestão, onde a blindagem dos poderosos é a regra, não a exceção.

Um ex-diretor da Lojas Americanas foi formalmente acusado pela própria empresa de participar de uma fraude bilionária — e para o deputado federal Tarcísio Motta, integrante da CPI que investiga o escândalo na Câmara, o episódio revela algo muito maior do que um desvio corporativo isolado. Os desvios se aproximam de R$ 50 bilhões, e a palavra que a imprensa comercial evita pronunciar, segundo ele, é corrupção.

O esquema era sofisticado: executivos inflavam lucros nos livros contábeis e escondiam o endividamento real da varejista, enquanto convertiam bônus milionários em ganhos pessoais. O ex-diretor Marcio Cruz, por exemplo, pagou R$ 32,5 milhões à vista por uma mansão no Leblon em 2021 — exatamente quando as fraudes se intensificavam. O CEO atual, Leonardo Coelho Pereira, indicou à CPI que as auditorias da PwC e da KPMG também podem estar envolvidas.

O maior obstáculo, na visão de Motta, é impedir a construção de uma blindagem em torno dos três bilionários controladores da empresa via 3G Capital: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Para o parlamentar do Psol, é inverossímil que eles desconhecessem a fraude durante todo esse período. A gestão atual da Americanas, por sua vez, pressiona para que a CPI endosse uma investigação interna que poupa os acionistas controladores.

Motta vê no caso uma oportunidade rara de expor o que chama de modus operandi do capitalismo brasileiro — especialmente irônico no caso de Lemann, defensor público da meritocracia. A CPI pretende convocar os três bilionários, mas quer chegar a esse confronto com provas sólidas. Enquanto isso, o deputado denuncia o contraste gritante com a cobertura da Lava Jato: o Jornal Nacional reservou apenas 39 segundos para as revelações do CEO da Americanas. Para Motta, trata-se de corrupção feita para garantir que os ricos e poderosos permaneçam exatamente assim.

Um dos ex-diretores da Lojas Americanas foi acusado há pouco pela própria empresa de participar do que seus assessores jurídicos chamaram de "fraude bilionária". Para o deputado federal Tarcísio Motta, integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o caso na Câmara, esse detalhe aponta para algo maior que um simples malfeito: trata-se de corrupção, palavra que a imprensa comercial tem evitado usar. Os desvios chegam perto de R$ 50 bilhões.

O esquema funcionava assim: executivos da varejista criavam lucros fictícios nos livros contábeis enquanto ocultavam o verdadeiro endividamento da empresa. Enquanto isso acontecia, eles usavam seus bônus milionários para transações pessoais. Um desses executivos, Marcio Cruz, desembolsou R$ 32,5 milhões à vista em 2021 para comprar uma mansão no Leblon, bairro de alto padrão no Rio de Janeiro, exatamente quando as fraudes ganhavam ritmo. O CEO atual da companhia, Leonardo Coelho Pereira, revelou em depoimento à CPI que há indícios de envolvimento das empresas de auditoria PwC e KPMG, além de ex-diretores.

Mas o maior desafio da comissão, segundo Motta, é evitar que se construa uma "blindagem dos donos da Americanas". Ele se refere aos três bilionários que controlavam a maior parte das ações por meio da 3G Capital: Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles. Para o deputado do Psol, é praticamente impossível que esses três não soubessem ou não tivessem sido enganados durante todo o tempo em que diretores desviavam dinheiro dos lucros fictícios para aumentar seus próprios dividendos e bônus. A gestão atual da Americanas quer que a CPI valide uma investigação interna que responsabiliza alguns executivos enquanto protege os acionistas controladores.

O que torna a situação ainda mais curiosa, na avaliação de Motta, é que esses são os mesmos empresários celebrados há décadas como modernos e meritocráticos. Sua única saída seria se autodeclararem incompetentes por não terem detectado uma fraude dessa magnitude. "É impossível acreditar nisso", rebate o parlamentar. Ele vê no caso uma oportunidade de expor o que chama de modus operandi do capitalismo brasileiro: usar fraude como método e blindagem como proteção. Motta aponta que Lemann, em particular, é conhecido por defender a meritocracia na educação, e o caso ofereceria chance de mostrar quanto de corrupção e fraude existe por trás desse modelo apresentado como "moderno, limpinho e bonitinho".

A CPI planeja convocar os três bilionários, mas quer reunir um conjunto robusto de provas antes disso. Os parlamentares também cobrarão novos documentos do CEO da Americanas. Um objetivo paralelo é impedir que a imprensa comercial continue silenciando sobre o escândalo. Diferentemente da cobertura dada à Operação Lava Jato, o caso ganhou pouco espaço nos noticiários, especialmente na televisão. O Jornal Nacional, por exemplo, dedicou apenas 39 segundos para expor as denúncias de Pereira na semana anterior.

Motta caracteriza o que acontece como "corrupção privada", um modelo de gestão que usa fraude como ferramenta e blindagem dos principais nomes como forma de salvação. Não há reconhecimento da ação nem intenção de mudar como as coisas funcionam. O deputado nota ainda que esses mesmos três bilionários conseguiram influir nas decisões da Eletrobras recém-privatizada, mesmo como acionistas minoritários. Isso demonstra, em sua visão, que a eficiência privada prometida cai por terra. "É corrupção feita para que gente rica e poderosa continue sendo rica e poderosa", conclui.

É muito difícil imaginar que eles não soubessem ou tivessem sido enganados ao longo desse tempo todo enquanto os diretores faziam isso
— Deputado Tarcísio Motta
É uma corrupção privada, num modelo de gestão que usa a fraude como método e a forma de blindagem dos principais nomes como uma forma de se salvar
— Deputado Tarcísio Motta
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o deputado insiste que os três bilionários tinham que saber da fraude?

Model

Porque durante anos, enquanto diretores criavam lucros fictícios, esses três controlavam a maioria das ações e recebiam dividendos crescentes. É difícil imaginar que não percebessem onde aquele dinheiro vinha.

Inventor

Mas não é possível que uma fraude dessa escala ficasse escondida da administração?

Model

Possível é. Mas esses são homens que se vendem como modernos e meritocráticos, que ensinam sobre eficiência. Se dizem que não sabiam, estão admitindo incompetência. Se sabiam, estão admitindo conivência.

Inventor

E por que a mídia não está cobrindo isso como cobriu a Lava Jato?

Model

Essa é a questão. A Lava Jato era corrupção pública, envolvendo políticos. Isso é corrupção privada, envolvendo bilionários que controlam mídia e influência. O silêncio não é acidental.

Inventor

O que muda se a CPI conseguir provar a conexão entre os bilionários e a fraude?

Model

Muda a narrativa inteira sobre quem são essas pessoas. Não são gênios da gestão moderna. São homens que usaram fraude como método e poder como proteção. E se conseguem fazer isso na Americanas, conseguem fazer em qualquer lugar.

Inventor

Você acha que vão ser condenados?

Model

Não sei. Mas a CPI quer pelo menos que as pessoas vejam a verdade. Que entendam que a corrupção não é só coisa de político. É também coisa de bilionário bem-vestido.

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