Casal americano é preso ao tentar vender segredos nucleares dos EUA para o Brasil

O casal enfrenta penas de até 17 anos e meio (Jonathan) e três anos (Diana) de prisão por espionagem.
Não sinto lealdade às abstrações
Diana Toebbe respondeu quando seu marido expressou dúvidas morais sobre vender segredos nucleares.

Em 2020, um engenheiro naval americano e sua esposa tentaram vender segredos sobre reatores nucleares de submarinos dos Estados Unidos ao Brasil — escolhido não por hostilidade, mas por ambição tecnológica e relativa neutralidade geopolítica. O Brasil, em vez de aceitar a oferta, entregou-a imediatamente ao FBI, iniciando uma operação encoberta que culminou na prisão do casal. O episódio revela, com rara clareza, que as lealdades no tabuleiro nuclear do século XXI são moldadas tanto pela prudência diplomática quanto pela tentação do poder.

  • Um casal americano roubou durante anos documentos ultrassecretos sobre reatores nucleares e os ofereceu ao Brasil por carta, apostando que o país seria um comprador discreto e não hostil.
  • O Brasil surpreendeu ao recusar a oferta e notificar imediatamente o FBI, priorizando a parceria estratégica com Washington sobre qualquer ganho tecnológico.
  • Um agente encoberto do FBI se passou por oficial brasileiro por meses, ganhando a confiança de Jonathan Toebbe até que ele escondeu segredos nucleares dentro de um sanduíche de manteiga de amendoim na Virgínia Ocidental.
  • O casal foi preso em outubro de 2020 e se declarou culpado de espionagem — Jonathan enfrenta até 17 anos e meio de prisão, Diana até três anos.
  • O caso expõe a fragilidade do programa nuclear submarino brasileiro e sua busca por parcerias, incluindo aproximações com a Rússia às vésperas da invasão da Ucrânia.

Em abril de 2020, uma carta chegou à inteligência militar brasileira com uma oferta extraordinária: milhares de páginas de documentos secretos sobre os reatores nucleares dos submarinos americanos. Jonathan Toebbe, engenheiro naval do Navy Yard de Washington, e sua esposa Diana haviam acumulado esses segredos ao longo de anos. Escolheram o Brasil por considerá-lo rico o suficiente, tecnologicamente ambicioso e longe da hostilidade aberta de Rússia ou China. Diana foi ainda mais direta: "Não sinto lealdade às abstrações", disse ao marido quando ele hesitou.

As autoridades brasileiras, porém, não hesitaram. Entregaram a carta imediatamente ao adido legal do FBI, compreendendo que aceitar a oferta destruiria a parceria estratégica com Washington e o compartilhamento de inteligência com a CIA. A cooperação foi discreta — o Brasil insistiu em permanecer anônimo — mas decisiva.

A partir de dezembro de 2020, um agente do FBI disfarçado de oficial brasileiro ganhou a confiança de Jonathan, que chegou a oferecer assistência técnica ao programa submarino brasileiro. O momento decisivo veio no fim de semana do Memorial Day: ao ver um sinal combinado em uma janela de um prédio do governo brasileiro em Washington, Jonathan deixou uma amostra de documentos secretos escondida em um sanduíche de manteiga de amendoim na Virgínia Ocidental. Aquele gesto selou seu destino.

O contexto geopolítico torna o caso ainda mais denso. O Brasil investia bilhões em seu programa de submarinos nucleares desde 2008 e se aproximava da Rússia em busca de tecnologia — tema discutido pelo presidente Bolsonaro em Moscou apenas uma semana antes da invasão da Ucrânia. A experiência de Jonathan em tornar reatores mais silenciosos e difíceis de detectar teria sido de valor incalculável. A cooperação brasileira impediu que isso acontecesse.

Jonathan e Diana se declararam culpados de espionagem. Ele aguarda pena de até 17 anos e meio; ela, até três anos, com sentença marcada para agosto. O que começou como uma aposta na ambiguidade diplomática terminou expondo tanto as fissuras na segurança americana quanto a sofisticação — e os limites — das alianças no mundo nuclear contemporâneo.

Em abril de 2020, uma carta chegou aos escritórios da agência de inteligência militar brasileira. Dentro dela, um casal americano oferecia algo extraordinário: milhares de páginas de documentos confidenciais sobre os reatores nucleares que alimentam a frota de submarinos dos Estados Unidos. Jonathan Toebbe, engenheiro naval, e sua esposa Diana haviam roubado esses segredos ao longo de anos trabalhando no Navy Yard de Washington. Mas em vez de tentar vendê-los aos adversários tradicionais americanos, escolheram o Brasil. As autoridades brasileiras, porém, não hesitaram. Imediatamente entregaram a carta ao adido legal do FBI no país, iniciando uma operação que duraria meses e terminaria com a prisão do casal em outubro daquele ano.

A escolha do Brasil não foi aleatória. Em mensagens criptografadas recuperadas pelo FBI, Jonathan e Diana discutiram suas opções. Vender para a Rússia ou China, pensava Jonathan, seria moralmente indefensável. Mas um país rico o suficiente para comprar os segredos, não abertamente hostil aos Estados Unidos e desesperado por adquirir a mesma tecnologia que possuíam? Isso parecia diferente. Diana concordava, embora com menos escrúpulos. "Não tenho nenhum problema com isso. Não sinto lealdade às abstrações", respondeu ela quando Jonathan expressou suas dúvidas. O Brasil, que desde 2008 investia bilhões em um programa de submarinos nucleares e planejava lançar seu primeiro em 2029, era o alvo perfeito.

O plano desmoronou rapidamente. A partir de dezembro de 2020, um agente do FBI disfarçado começou a se passar por um oficial brasileiro. Ganhou a confiança de Jonathan, convencendo-o a depositar documentos em locais escolhidos pelos investigadores. O engenheiro até ofereceu assistência técnica ao programa submarino brasileiro, compartilhando informações secretas que havia acumulado durante anos na Marinha americana. Quando hesitou em usar um "dead drop" — um local de entrega clandestina — o agente encoberto colocou um sinal em uma janela de um prédio do governo brasileiro em Washington durante o fim de semana do Memorial Day. Jonathan viu o sinal e concordou. Deixou uma amostra dos segredos nucleares escondida em um sanduíche de manteiga de amendoim na Virgínia Ocidental. Aquele ato selou seu destino.

O que torna este caso particularmente delicado é o que ele revela sobre as prioridades diplomáticas. O Brasil cooperou plenamente com investigadores americanos, não porque fosse obrigado, mas porque as autoridades brasileiras compreenderam que ser descoberto tentando comprar segredos militares americanos teria prejudicado a parceria entre os dois países e o compartilhamento de inteligência com a CIA. A embaixada brasileira recusou-se a comentar, mas um alto funcionário brasileiro confirmou que o país agiu por causa da amizade entre as nações. O governo americano, por sua vez, inicialmente quis divulgar o nome do país, mas as autoridades brasileiras insistiram que sua cooperação permanecesse confidencial — um acordo que durou até a revelação recente.

O contexto geopolítico amplifica a importância do caso. O Brasil vinha lutando com seu programa de reator nuclear submarino e se aproximava da Rússia em busca de parceria. Apenas uma semana antes da invasão russa da Ucrânia, o presidente Jair Bolsonaro discutiu a tecnologia durante uma viagem a Moscou. A experiência de Jonathan em tornar reatores nucleares mais silenciosos e difíceis de detectar teria sido de valor incalculável para o Brasil. Mas a cooperação brasileira com o FBI impediu que isso acontecesse.

Jonathan e Diana Toebbe se declararam culpados de acusações de espionagem. Ele enfrenta até 17 anos e meio de prisão; ela, até três anos. A defesa de Diana argumentou que o governo apresentou mensagens selecionadas fora de contexto, e sua sentença está marcada para agosto. Jonathan, por sua vez, tem um defensor público impedido pelas regras do governo de responder perguntas sobre o caso. O que começou como uma tentativa de vender segredos nucleares terminou como um episódio que expôs tanto a vulnerabilidade da segurança americana quanto a complexidade das alianças diplomáticas no século XXI.

Também não é moralmente defensável. Nós nos convencemos de que estava tudo bem, mas também não está, não é?
— Jonathan Toebbe, em mensagens criptografadas recuperadas pelo FBI
Não tenho nenhum problema com isso. Não sinto lealdade às abstrações.
— Diana Toebbe, respondendo ao marido sobre vender os segredos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o Brasil? Havia tantos outros países que poderiam ter interesse em tecnologia nuclear.

Model

Jonathan parecia acreditar que havia uma diferença moral entre vender para adversários declarados e vender para um país amigável. O Brasil era rico o suficiente, não era hostil aos EUA, e desesperadamente queria essa tecnologia. Era a escolha que ele podia viver consigo mesmo.

Inventor

Mas Diana não parecia compartilhar dessa preocupação moral.

Model

Não. Ela disse explicitamente que não sentia lealdade a abstrações. Para ela, a questão era prática: havia um comprador, havia um produto, havia um preço. A moral era secundária.

Inventor

O que mais me intriga é que o Brasil imediatamente entregou a carta ao FBI. Não tentou negociar, não tentou comprar.

Model

Porque o Brasil entendia que ser descoberto comprando segredos militares americanos destruiria a parceria entre os dois países. A inteligência brasileira trabalhou com o FBI para proteger a relação bilateral. Era a escolha racional.

Inventor

Então, de certa forma, Jonathan e Diana escolheram o único país que não compraria deles.

Model

Exatamente. Eles escolheram um país que valorizava sua amizade com os EUA mais do que a tecnologia que estavam oferecendo. Foi um cálculo estratégico que saiu completamente errado.

Quieres la nota completa? Lee el original en O GLOBO ↗
Contáctanos FAQ