Não sinto lealdade às abstrações
Em 2020, um engenheiro naval americano e sua esposa tentaram vender ao Brasil os segredos mais sensíveis da Marinha dos Estados Unidos — os reatores que movem seus submarinos nucleares. Escolheram o Brasil não por hostilidade, mas por cálculo: um país rico, amigável e com ambições nucleares próprias. O que não previram foi que o Brasil entregaria a carta ao FBI imediatamente, transformando uma tentativa de traição em uma armadilha silenciosa. O episódio revela, com rara clareza, como a lealdade, a ambição e a confiança entre nações operam em camadas que raramente chegam à superfície.
- Um casal americano roubou durante anos documentos ultrassecretos sobre reatores de submarinos e tentou vendê-los a um governo estrangeiro — escolhendo o Brasil por ser rico, não hostil e tecnologicamente ambicioso.
- A carta enviada em abril de 2020 nunca chegou a mãos erradas: as autoridades brasileiras a entregaram ao FBI em questão de horas, detonando uma operação encoberta que duraria meses.
- Um agente federal disfarçado de oficial brasileiro ganhou a confiança de Jonathan Toebbe, convencendo-o a esconder documentos nucleares dentro de um sanduíche de manteiga de amendoim na Virgínia Ocidental.
- O casal foi preso em outubro de 2021 e se declarou culpado de espionagem — Jonathan enfrenta até 17 anos e meio de prisão, Diana até três anos.
- O Brasil, que protegeu sua identidade no caso por razões diplomáticas, segue em busca de tecnologia para seu submarino nuclear, agora de olho em uma parceria com a Rússia, com lançamento previsto para 2029.
Em abril de 2020, Jonathan e Diana Toebbe enviaram uma carta a uma agência de inteligência militar brasileira oferecendo o que haviam passado anos acumulando: milhares de páginas de documentos confidenciais sobre os reatores nucleares que movem os submarinos da Marinha americana. Jonathan era engenheiro naval e havia coletado esse material trabalhando no Navy Yard de Washington. O casal debateu a quem vender — Diana não via problema em oferecer os segredos a adversários como Rússia ou China, mas Jonathan resistia moralmente. Chegaram a um acordo: buscariam um país rico, não hostil aos EUA e interessado em tecnologia nuclear. Escolheram o Brasil.
A escolha parecia lógica. O Brasil investia bilhões em seu programa de submarinos nucleares, construía quatro embarcações convencionais com ajuda francesa e lutava para desenvolver um quinto, movido a reator nuclear. A expertise de Jonathan seria de valor incalculável. Mas o plano desmoronou no instante em que começou: as autoridades brasileiras entregaram a carta imediatamente ao adido legal do FBI no país.
A partir de dezembro de 2020, um agente federal disfarçado passou a se comunicar com Jonathan como se fosse um oficial brasileiro. Ganhou sua confiança aos poucos. Quando o agente pediu que Jonathan deixasse uma amostra dos documentos escondida em um sanduíche de manteiga de amendoim na Virgínia Ocidental, ele obedeceu. Essa entrega selou o destino do casal, que foi preso em outubro de 2021 e se declarou culpado de espionagem.
Jonathan enfrenta até 17 anos e meio de prisão; Diana, até três. A identidade do Brasil como alvo foi mantida em sigilo por insistência das próprias autoridades brasileiras, que temiam danos às relações bilaterais e ao compartilhamento de inteligência com os Estados Unidos caso sua cooperação viesse a público.
Enquanto o caso se encerrava nos tribunais americanos, o Brasil continuava sua busca por tecnologia nuclear. O presidente Bolsonaro chegou a discutir o tema em Moscou, um mês antes da invasão russa da Ucrânia, mantendo aberta a possibilidade de uma parceria com a Rússia. O governo Biden respondeu que buscar tecnologia militar russa "é uma aposta ruim para qualquer país". O Brasil segue em frente, com previsão de lançar seu primeiro submarino nuclear em 2029.
Em abril de 2020, um casal americano enviou uma carta a uma agência de inteligência militar brasileira com uma proposta extraordinária: vender alguns dos segredos mais bem guardados do Pentágono. Jonathan Toebbe era engenheiro naval. Sua esposa, Diana, o acompanhava naquilo que seria uma tentativa de espionagem que desmoronaria quase no instante em que começou.
Os Toebbe haviam roubado milhares de páginas de documentos confidenciais sobre reatores nucleares que alimentam a frota de submarinos americanos. Jonathan havia coletado esse material ao longo de vários anos trabalhando no Navy Yard de Washington. Agora, em 2020, o casal enfrentava uma decisão moral que os dividiria: para qual governo estrangeiro vender o que haviam roubado? Jonathan acreditava que oferecer os segredos a adversários declarados como Rússia ou China era moralmente indefensável. Diana discordava. "Não tenho nenhum problema com isso. Não sinto lealdade às abstrações", respondeu ela quando Jonathan expressou suas dúvidas. Mesmo assim, o casal chegou a um acordo: procurariam um país rico o suficiente para pagar, não abertamente hostil aos Estados Unidos e desesperadamente interessado na tecnologia que possuíam. Escolheram o Brasil.
O Brasil havia iniciado seu programa de submarinos nucleares em 1978, originalmente como resposta à rivalidade com a Argentina. Décadas depois, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o país reinvestiu no projeto em 2008, buscando melhor patrulhar sua zona econômica exclusiva no Oceano Atlântico. O programa submarino brasileiro tinha orçamento de 7,2 bilhões de dólares. O país construía quatro submarinos convencionais com ajuda francesa, mas enfrentava dificuldades para desenvolver um quinto submarino movido por reator nuclear por conta própria. A experiência de Jonathan em tornar reatores nucleares mais silenciosos e difíceis de detectar teria sido de valor incalculável para o Brasil.
Mas o plano desabou rapidamente. Quando o casal enviou sua carta em abril de 2020, as autoridades brasileiras não a guardaram em segredo. Imediatamente, entregaram o documento ao adido legal do FBI no país. A partir de dezembro de 2020, um agente federal disfarçado começou a se passar por um oficial brasileiro, ganhando a confiança de Jonathan e convencendo-o a depositar documentos em locais escolhidos pelos investigadores. Jonathan inicialmente hesitou, preocupado de estar sendo enganado. Mas quando o agente disfarçado lhe disse para procurar um sinal em uma janela de um prédio do governo brasileiro em Washington durante o fim de semana do Memorial Day, Jonathan acreditou. Ele concordou em deixar uma amostra dos segredos nucleares escondida em um sanduíche de manteiga de amendoim na Virgínia Ocidental. Essa entrega desencadeou uma série de eventos que culminou com a prisão do casal em outubro de 2020.
Os Toebbe, que moravam em Annapolis, Maryland, se declararam culpados de acusações de espionagem no mês seguinte. Jonathan enfrenta até 17 anos e meio de prisão. Diana enfrenta até três anos. O defensor público de Jonathan disse que as regras do governo o impedem de responder a perguntas. Um advogado de Diana se recusou a discutir o caso antes de sua sentença, marcada para agosto, e afirmou repetidamente que o governo apresentou mensagens selecionadas fora de contexto.
A identidade do Brasil como alvo permaneceu protegida por promotores federais americanos até agora. O governo dos EUA inicialmente quis divulgar o nome do país, mas as autoridades brasileiras insistiram que sua cooperação não fosse tornada pública. Um alto funcionário brasileiro confirmou que o país cooperou com investigadores americanos por causa da parceria entre as duas nações e das relações amistosas entre o serviço de inteligência brasileiro e a CIA. Se o Brasil tivesse sido descoberto tentando comprar segredos americanos, as relações bilaterais, incluindo o compartilhamento de inteligência, poderiam ter sido danificadas irreversivelmente.
Enquanto isso, o Brasil continua lutando com seu programa de reator nuclear submarino. O país se aproximou da Rússia para buscar uma parceria no projeto. Um mês antes da invasão russa da Ucrânia, o presidente Jair Bolsonaro até discutiu a tecnologia durante uma viagem a Moscou. Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, parecia esperançoso de manter a porta aberta para uma parceria russa em tecnologia de reatores nucleares, mesmo enquanto Putin atacava a Ucrânia. Um alto funcionário do governo Biden respondeu que buscar adquirir tecnologia militar russa "é uma aposta ruim para qualquer país". O Brasil segue em seu caminho, buscando lançar seu primeiro submarino movido a energia nuclear em 2029.
Citas Notables
Também não é moralmente defensável. Nós nos convencemos de que estava tudo bem, mas também não está, não é?— Jonathan Toebbe, em mensagens criptografadas recuperadas pelo FBI
Estou preocupado que o uso do local de entrega que seu amigo preparou me torne muito vulnerável— Jonathan Toebbe, expressando desconfiança ao agente disfarçado do FBI
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o Brasil? Parecia uma escolha estranha para um casal americano roubar segredos nucleares.
Não era tão estranha assim. O Brasil tinha dinheiro, tecnologia avançada o suficiente para usar o que eles tinham, e não era abertamente hostil aos EUA. Rússia e China estavam fora de questão para Jonathan — ele tinha limites morais. O Brasil se encaixava perfeitamente.
E as autoridades brasileiras? Como reagiram quando receberam a carta?
Imediatamente entregaram ao FBI. Não hesitaram. Havia muito em jogo — a parceria entre Brasil e EUA, o compartilhamento de inteligência. Se o Brasil tivesse sido pego comprando segredos americanos, tudo desabaria.
Então o FBI montou uma operação encoberta?
Exatamente. Um agente se passou por um oficial brasileiro durante meses. Jonathan era cauteloso, desconfiado. Mas quando viu o sinal na janela do prédio brasileiro em Washington, acreditou. Deixou os documentos em um sanduíche de manteiga de amendoim.
Um sanduíche? Sério?
Sério. Parecia inócuo. Mas dentro havia alguns dos segredos militares mais bem guardados do país. Jonathan pensava estar ajudando o Brasil a construir submarinos nucleares melhores. Na verdade, estava entregando a si mesmo.
E agora? O Brasil ainda quer essa tecnologia?
Mais do que nunca. Está tendo dificuldades com seu próprio programa. Agora está olhando para a Rússia. Bolsonaro visitou Moscou semanas antes da invasão da Ucrânia para discutir reatores nucleares. O Brasil segue buscando.