Nasci com esse bichinho de criar, e o meu pai incutiu-mo desde pequena
Há histórias que nascem da terra antes de nascerem do papel. Carolina Ferreira cresceu entre maracujás e videiras em São Miguel, filha de um homem que trouxe dos Estados Unidos a vontade de criar, e foi essa herança — mais do que qualquer diploma — que a moldou. Depois de Lisboa e da Suécia, voltou com ferramentas novas para servir uma missão antiga: levar os Açores ao mundo, garrafa a garrafa, prateleira a prateleira.
- Uma rapariga conhecida na escola pelo apelido 'do maracujá' tornou-se empresária com dois negócios a operar entre Lisboa e São Miguel — a tensão entre raízes e ambição nunca desapareceu, apenas ganhou escala.
- A ausência de produtos açorianos em Lisboa quando foi estudar não foi apenas uma saudade pessoal: foi o diagnóstico que, anos depois, se transformou na Mercearia dos Açores e numa plataforma online.
- A Fábrica de Licores Mulher de Capote, fundada pelo pai Eduardo Ferreira, carrega o peso de um segredo de família e a responsabilidade de o transformar em marca reconhecida em todo o país.
- Carolina divide-se entre duas cidades de duas em duas semanas, tentando replicar nas filhas o mesmo olhar atento que o pai lhe ensinou — a arte de observar o mundo para o trazer melhorado de volta.
- O próximo horizonte é concreto: novos licores, um rum envelhecido e a ambição de que os sabores açorianos cheguem a quase todas as mesas portuguesas, não apenas às das ilhas.
Carolina Ferreira cresceu numa casa cheia — dez irmãos entre os dois lados da família, primos por toda a parte, e um pai, Eduardo Ferreira, que tinha vindo dos Estados Unidos para São Miguel com vontade de plantar e criar. Foi nesse ambiente de trabalho manual e terra fértil que Carolina aprendeu a observar antes de agir. Na Ribeira Grande, era conhecida como 'a rapariga do maracujá', um apelido que carregava com naturalidade porque dizia exatamente quem ela era.
O ensino superior levou-a para longe: Gestão de Engenharia Industrial em Lisboa, mestrado em Logística na Suécia. Foram anos de aprendizado intenso, especialmente no Norte da Europa, onde descobriu que a crítica construtiva é um convite ao crescimento, não um ataque. Antes de empreender, passou pela Deloitte e pela grande distribuição — mas o bichinho de criar, herdado do pai, não a largava.
Em 2009, abriu a Mercearia dos Açores em Lisboa. A ideia nasceu de uma necessidade vivida na própria pele: quando foi estudar para a capital, não havia produtos açorianos à venda e ela viajava carregada de malas com carne, licores e chás. Hoje, a mercearia tem duas lojas físicas e uma plataforma online, e funciona como um museu vivo das ilhas — vinhos do Pico, conservas de São Jorge, Donas Amélia da Terceira, queijo da Vaquinha. Cada produto é uma porta aberta para quem ainda não conhece os Açores de verdade.
O outro negócio que divide o seu coração é a Fábrica de Licores Mulher de Capote, fundada pelo pai. Carolina cresceu fascinada pelo mistério do licor de maracujá — um segredo guardado que ela queria desvendar. Agora trabalha com a família para fazer crescer a fábrica, com a convicção de que cada garrafa é feita com carinho genuíno, não como slogan mas como filosofia.
Vive entre Lisboa, onde estão as filhas, e São Miguel, para onde viaja de duas em duas semanas. Tenta fazer com as filhas o que o pai fez com ela: ensiná-las a estar atentas ao mundo. Os seus sonhos têm contornos precisos — novos licores, um rum envelhecido, e os sabores açorianos em quase todas as mesas portuguesas. Há espaço para continuar, diz ela, e a voz trai a ternura de quem sabe exatamente de onde vem.
Carolina Ferreira cresceu rodeada de maracujás e videiras, entre uma família numerosa que encheu a infância de movimento e trabalho. Na escola da Ribeira Grande, onde estudou desde pequena, ficou conhecida como a rapariga do maracujá — um apelido que carregava sem constrangimento, porque refletia exatamente o que ela era: filha de uma terra que plantava, regava e colhia com as próprias mãos. Seu pai, Eduardo Ferreira, tinha vindo dos Estados Unidos para São Miguel e começara com aguardentes, depois com maracujás, e essa ligação à terra e ao trabalho manual marcou profundamente a forma como Carolina veria o mundo.
A infância foi vivida em casa cheia. Cinco filhos do lado da mãe, cinco do lado do pai, primos por toda a parte. Não havia espaço para solidão, apenas para aprender observando. Quando chegou a hora de estudar, Carolina manteve-se na Ribeira Grande — Escola do Divino Espírito Santo, depois Gaspar Frutuoso, depois a Secundária. Mas o ensino superior a chamava para longe. Entrou em Gestão de Engenharia Industrial no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, e depois fez um mestrado em Logística na Suécia. Foram anos desafiantes, longe da família, longe do mar. Mas também foram anos de aprendizado que ela absorveu como uma esponja — especialmente na Suécia, onde aprendeu que a crítica construtiva não era um ataque, mas um convite para crescer.
Antes de se lançar em negócio próprio, Carolina trabalhou como consultora financeira na Deloitte e depois na grande distribuição. Mas havia algo que a puxava, algo que o pai lhe tinha incutido desde pequena: o bichinho de criar, de inovar, de estar sempre atento ao que se via no mundo para trazer de volta e melhorar. Em 2009, abriu a Mercearia dos Açores em Lisboa. A ideia era simples: quando ela tinha ido estudar para a capital, não havia produtos açorianos à venda. Vinha carregada de malas — carne, licores, pimentas, chás — porque não havia limite de bagagens. Agora, pensou, os estudantes poderiam vir matar saudades sem precisar de encher as malas. A loja cresceu. Hoje tem duas lojas físicas e uma plataforma online.
Mas a Mercearia não é apenas um negócio. É um museu vivo dos Açores. Vinhos do Pico, conservas de São Jorge, biscoitinhos de orelha, queijadas da Graciosa, queijinhos da Graciosa, Donas Amélia da Terceira, queijo da Vaquinha, gelados, carne da Terceira, mel da Terceira. Cada produto é uma porta aberta para as ilhas, uma forma de fazer com que quem entra pela porta sinta curiosidade de ir lá, de conhecer de verdade. Carolina quer que cada pessoa que compra ali saia com um pedaço dos Açores debaixo do braço.
Mas há outro negócio que divide seu coração: a Fábrica de Licores Mulher de Capote, fundada pelo pai. Quando Carolina era pequena, havia um mistério à volta do licor de maracujá — ninguém sabia como se fazia, era um segredo guardado. Ela cresceu querendo desvendar esse segredo, querendo entender a magia. Agora, trabalha com a família para fazer crescer a fábrica, para trazer sabores diferentes para a mesa dos açorianos, para fazer com que cada garrafa aberta seja um momento de partilha. Cada garrafa é feita com muito carinho, diz ela, e isso não é apenas uma frase feita — é uma filosofia.
Carolina vive dividida entre Lisboa e São Miguel. Sua casa é em Lisboa, onde estão suas filhas, mas viaja para São Miguel de duas em duas semanas porque metade de seu trabalho fica lá. Ela tenta fazer com as filhas o que o pai fez com ela: ensinar-lhes a estar atentas, a observar, a trazer de volta ideias para melhorar. Seus sonhos são claros: quer que os licores açorianos estejam em quase todas as mesas portuguesas. Já estão nas mesas dos açorianos, mas o resto de Portugal ainda espera. Por isso está a desenvolver novos licores, um rum envelhecido, novos produtos. Há espaço para continuar, diz com ternura na voz, e seu coração está dividido entre as lojas e a fábrica, mas há espaço para ambas.
Citações Notáveis
Cada garrafa que é desenvolvida por nós é feita mesmo com muito carinho— Carolina Ferreira, sobre a produção de licores
Gostava muito que os nossos licores estivessem em quase todas as mesas portuguesas— Carolina Ferreira, sobre seus sonhos para o negócio
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
O que a fez regressar aos Açores regularmente, sendo que sua vida está principalmente em Lisboa?
Metade do meu trabalho fica em São Miguel. Não é apenas sentimento, é negócio. A fábrica está lá, os fornecedores estão lá, a origem de tudo está lá. Não posso estar longe.
Quando abriu a Mercearia em 2009, acreditava que seria apenas um negócio de estudantes saudosos?
Começou assim, é verdade. Mas percebi que era mais do que isso — era uma forma de as pessoas conhecerem os Açores sem sair de Lisboa. Cada produto é um convite.
Seu pai fundou a marca Mulher de Capote. Sente-se pressionada a estar à altura dessa herança?
Não é pressão. É orgulho. Ele criou algo com as mãos, com paciência, com segredo. Agora nós temos a responsabilidade de fazer crescer isso, de honrar o trabalho dele.
A experiência na Suécia mudou a forma como trabalha?
Completamente. Aprendi que melhorar o trabalho dos outros não é crítica — é amor. Aqui em Portugal não estávamos habituados a isso. Agora tento fazer o mesmo com minha equipa.
Qual é o maior desafio de manter dois negócios em duas cidades diferentes?
A distância, claro. Mas também é o que torna tudo possível. Se estivesse apenas num sítio, não conseguiria fazer crescer nenhum dos dois como estou a fazer.
O que espera que as pessoas sintam quando compram um produto seu?
Que estão a levar um pedaço dos Açores para casa. Não é apenas um licor ou um queijo — é uma história, é uma memória, é um convite para vir conhecer.