Treinar quem cuida da saúde e segurança delas é a melhor forma de incluir essas pessoas
Em um sistema prisional onde o risco de viver com HIV é 7,2 vezes maior do que fora dos muros, o Distrito Federal reuniu profissionais de saúde e agentes penitenciários para aprender a oferecer PrEP com competência e respeito. A iniciativa, coordenada pelo UNAIDS e parceiros, reconhece que a prevenção só é efetiva quando alcança quem mais precisa — inclusive aqueles que o Estado priva de liberdade. Mais do que um treinamento técnico, o encontro de junho de 2026 representa uma aposta na ideia de que dignidade e proteção não deveriam parar na porta de uma prisão.
- Pessoas privadas de liberdade têm 7,2 vezes mais chances de viver com HIV, mas perdem acesso à prevenção justamente no momento em que entram no sistema prisional.
- Transferências entre unidades, liberações e readmissões fragmentam o cuidado contínuo, criando uma lacuna estrutural que expõe mais de 16 mil pessoas no DF a riscos evitáveis.
- A capacitação realizada em junho reuniu profissionais de saúde e agentes penitenciários para aprender fluxos práticos de PrEP, critérios de elegibilidade e como combater o estigma que bloqueia o acesso.
- O trabalho integra prevenção ao HIV com rastreamento de tuberculose, sífilis e hepatites, construindo uma resposta de saúde mais abrangente dentro das prisões.
- O Distrito Federal se torna pioneiro em uma implementação que, se replicada em outros estados, pode transformar a resposta ao HIV no Brasil para populações historicamente deixadas para trás.
No dia 16 de junho, profissionais de saúde e agentes penitenciários do Distrito Federal participaram de uma capacitação coordenada pelo UNAIDS, UNODC e pela Secretaria de Estado de Saúde, focada na implementação da PrEP — profilaxia pré-exposição ao HIV — nas unidades básicas de saúde prisional. O encontro aconteceu no complexo da Polícia Civil e respondeu a uma realidade urgente: pessoas privadas de liberdade têm 7,2 vezes mais chances de viver com HIV do que a população geral.
Essa vulnerabilidade tem raízes estruturais. Ao entrar no sistema prisional, muitas pessoas perdem o acesso à prevenção e ao tratamento que tinham antes. Transferências, liberações e readmissões interrompem o cuidado de forma recorrente. A formação, portanto, foi além da técnica: abordou direitos humanos, diversidade, estigma e discriminação, reconhecendo que prevenção efetiva exige acesso digno. Beatriz Maciel, gerente da vigilância de infecções sexualmente transmissíveis, destacou a expectativa de redução de novos casos de HIV com a ampliação da PrEP no sistema prisional — algo que já havia avançado na atenção primária.
A iniciativa é fruto de um grupo de trabalho interinstitucional lançado em agosto de 2025, envolvendo UNAIDS, OPAS e o governo do DF. Desde então, foram elaborados cronogramas, fluxos, procedimentos operacionais e indicadores de monitoramento. Gustavo Passos, oficial de igualdade e direitos do UNAIDS, reforçou que qualificar quem cuida da saúde e da segurança das pessoas presas é o caminho para incluí-las de fato no acesso à PrEP.
Com mais de 16 mil pessoas no sistema prisional do DF, o que está em jogo é a construção de uma resposta ao HIV que não deixa ninguém para trás. O modelo pioneiro do Distrito Federal abre caminho para replicação em outros estados — e afirma que o direito à prevenção não desaparece com a privação de liberdade.
No dia 16 de junho, profissionais de saúde e agentes penitenciários do Distrito Federal se reuniram em uma capacitação que marca um passo significativo na prevenção do HIV dentro das prisões. A iniciativa, coordenada pelo UNAIDS, UNODC e pelas gerências de vigilância de infecções sexualmente transmissíveis e saúde do sistema prisional da Secretaria de Estado de Saúde, aconteceu no complexo da Polícia Civil e focou na implementação da profilaxia pré-exposição ao HIV — a PrEP — nas unidades básicas de saúde prisional.
O trabalho responde a uma realidade alarmante: pessoas privadas de liberdade têm 7,2 vezes mais chances de viver com HIV do que a população geral. Essa vulnerabilidade não é acidental. Quando alguém entra no sistema prisional, frequentemente perde acesso aos serviços de prevenção e tratamento que tinha antes. Transferências entre unidades, liberações e readmissões interrompem o cuidado contínuo. A capacitação, portanto, não é apenas técnica — é uma resposta a uma lacuna estrutural que deixa uma população inteira desprotegida.
Durante os encontros, os participantes aprenderam sobre os fluxos práticos de implementação da PrEP: quem é elegível, como acompanhar clinicamente, como organizar os serviços. Mas a formação foi além da mecânica. Abordou direitos humanos, diversidade, estigma e discriminação. Beatriz Maciel, gerente da gerência de vigilância das infecções sexualmente transmissíveis, explicou que a ampliação da PrEP no sistema prisional — algo que já havia acontecido na atenção primária — traria um benefício significativo, com a expectativa de diminuição de novos casos de HIV entre essa população. Os participantes também discutiram como integrar a prevenção do HIV ao rastreamento de tuberculose, sífilis e hepatites virais, criando uma abordagem mais abrangente de saúde.
O contexto é importante. O sistema prisional do Distrito Federal atende mais de 16 mil pessoas. Essas pessoas enfrentam desafios específicos que vão além da falta de medicamentos. Elas enfrentam barreiras estruturais — estigma, discriminação, interrupção de cuidados. O UNAIDS e o UNODC contribuíram com debates que colocaram direitos humanos no centro da conversa, reconhecendo que prevenção efetiva só funciona quando todas as pessoas que dela precisam têm acesso digno aos serviços.
A capacitação é resultado de um trabalho que começou em agosto de 2025, quando foi lançado um grupo de trabalho interinstitucional envolvendo UNAIDS, OPAS e o governo do Distrito Federal. Esse grupo elaborou cronogramas, promoveu seminários para criar fluxos e procedimentos operacionais padrão, desenvolveu indicadores para monitoramento e agora realiza as capacitações. Cada etapa foi pensada para que os profissionais que trabalham diretamente com a população prisional — tanto na saúde quanto na segurança — estivessem preparados para oferecer PrEP de forma competente e respeitosa.
O Distrito Federal se torna pioneiro nesse tipo de implementação. Gustavo Passos, oficial de igualdade e direitos do UNAIDS, destacou que treinar quem cuida da saúde e segurança das pessoas privadas de liberdade é a melhor forma de incluí-las no acesso à PrEP. Essa abordagem — qualificar profissionais, alinhar fluxos, garantir direitos — pode ser replicada em outros estados. O que está em jogo é mais do que acesso a um medicamento. É a construção de uma resposta ao HIV que não deixa ninguém para trás, que reconhece que pessoas em prisões têm direito à prevenção, ao cuidado e à proteção de seus direitos fundamentais.
Citações Notáveis
A ampliação da PrEP para o sistema prisional vai trazer um grande benefício de acesso às pessoas privadas de liberdade a mais uma das estratégias de prevenção combinada ao HIV, e esperamos que haja uma diminuição de novos casos de HIV— Beatriz Maciel, gerente da GVIST
A junção de organismos públicos e internacionais para o fomento de políticas públicas de prevenção ao HIV reforça o compromisso do UNAIDS de não deixar ninguém para trás, e isso inclui as pessoas privadas de liberdade— Gustavo Passos, oficial de Igualdade e Direitos do UNAIDS
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a PrEP no sistema prisional é tão urgente? Não existem outras estratégias de prevenção?
Existem, mas a população prisional enfrenta barreiras que outras não enfrentam. Quando alguém é preso, o acesso ao cuidado que tinha antes é interrompido. A PrEP é uma das estratégias mais eficazes disponíveis no SUS, e colocá-la dentro das prisões significa não deixar essa população desprotegida.
Qual é o número de pessoas que isso afeta no Distrito Federal?
O sistema prisional do DF atende mais de 16 mil pessoas. Todas elas têm 7,2 vezes mais chances de viver com HIV do que a população geral. Então estamos falando de uma população altamente vulnerável.
A capacitação foi apenas sobre como prescrever PrEP?
Não. Abordou fluxos técnicos, critérios de elegibilidade, acompanhamento clínico, mas também direitos humanos, diversidade, estigma e discriminação. O objetivo era preparar profissionais para oferecer PrEP de forma digna e respeitosa.
Quem participou dessa capacitação?
Profissionais de saúde e agentes penitenciários que trabalham diretamente no sistema prisional. Ambos os grupos precisam estar alinhados para que a implementação funcione.
Isso é algo novo ou já existia em outros lugares?
A PrEP já havia sido expandida na atenção primária. O Distrito Federal é pioneiro em implementá-la especificamente dentro das prisões de forma estruturada. Isso pode ser replicado em outros estados.
O que muda para as pessoas presas a partir de agora?
Elas ganham acesso a uma das estratégias de prevenção mais eficazes disponíveis, mas também ganham a garantia de que profissionais foram treinados para oferecer esse acesso de forma respeitosa, sem discriminação, e de forma contínua — mesmo durante transferências e liberações.