Vinte e três milhões de pessoas não estão escolhendo se expor
O câncer de pele não melanoma é o mais frequente no Brasil, com 263 mil casos estimados anualmente, mas permanece associado ao lazer em vez de à exposição ocupacional. Trabalhadores rurais, da construção civil e pesca enfrentam maior risco, especialmente homens com menor escolaridade, renda e vínculos informais que trabalham mais de 40 horas semanais.
- 263 mil novos casos de câncer de pele não melanoma estimados anualmente no Brasil entre 2026 e 2028
- 23 milhões de trabalhadores brasileiros (23,5% da população ocupada) expostos à radiação solar no trabalho em 2019
- Maior incidência entre homens, trabalhadores rurais, construção civil, pesca e transporte com jornadas acima de 40 horas semanais
Estudo revela que 23,5% da população ocupada brasileira está exposta à radiação solar no trabalho, deslocando a discussão sobre câncer de pele além do lazer para a realidade ocupacional de grupos vulneráveis.
O câncer de pele não melanoma segue como o diagnóstico oncológico mais comum no Brasil. A cada ano entre 2026 e 2028, o país deve registrar aproximadamente 263 mil novos casos, segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer. Mas há um aspecto da doença que permanece invisível na conversa pública: ela não é apenas um risco de quem escolhe se expor ao sol na praia ou em momentos de lazer. Um estudo publicado em 2025, baseado na Pesquisa Nacional de Saúde, revelou que cerca de 23 milhões de brasileiros — o equivalente a 23,5% de toda a população ocupada — estão expostos à radiação solar como parte de sua rotina profissional diária.
Esse número reposiciona completamente a forma como se deve pensar sobre a doença. Não se trata apenas de uma questão de escolha pessoal ou hábitos de verão. Trata-se de uma realidade ocupacional que afeta milhões de pessoas que trabalham ao ar livre, muitas vezes sem proteção adequada, porque simplesmente é assim que ganham a vida. O dermatologista Matheus Rocha observa que essa dimensão recebe pouca atenção nos debates sobre prevenção. "Muita gente associa o câncer de pele apenas à praia ou ao lazer, mas uma parcela importante da população se expõe ao sol porque trabalha nessas condições. Isso muda a forma de entender o risco e também de pensar em prevenção", afirma.
O perfil dos mais expostos revela uma concentração clara de vulnerabilidade. Homens, trabalhadores de áreas rurais, pessoas com menor escolaridade e renda, aqueles com vínculos informais de trabalho e quem cumpre jornadas acima de 40 horas semanais enfrentam o maior risco. O Instituto Nacional de Câncer já identificou as ocupações de maior exposição: atividades rurais, construção civil, transporte, pesca e outros trabalhos exercidos sob sol intenso e repetido. São justamente os grupos que têm menos acesso a medidas regulares de proteção e menos poder para negociar condições de trabalho.
Um obstáculo adicional está na forma como a doença se apresenta. Os primeiros sinais — feridas que não cicatrizam, crostas persistentes, manchas que sangram, lesões que descamam — são frequentemente confundidos com alterações comuns da pele ou com o desgaste natural do trabalho ao ar livre. Um trabalhador que passa anos sob o sol, convivendo diariamente com poeira, atrito e ressecamento, tende a banalizar essas lesões. "O câncer de pele pode começar de forma discreta e ser confundido com algo simples, o que atrasa o diagnóstico", explica Rocha. Esse atraso pode ser crítico, permitindo que a lesão avance antes de qualquer intervenção.
A prevenção, quando vista através dessa lente ocupacional, exige uma abordagem completamente diferente. Não funciona simplesmente repetir as orientações genéricas que se dão a quem se expõe ao sol por escolha. Um trabalhador em uma construção ou em uma plantação não pode se proteger da mesma forma que alguém em um dia de praia. O calor, o esforço físico, a falta de sombra e as jornadas longas tornam o uso contínuo de barreiras de proteção — chapéus, roupas, protetor solar — impraticável ou insustentável. Rocha defende uma estratégia mais realista: "Não basta repetir orientações genéricas. É preciso pensar em prevenção adaptada à rotina de quem trabalha exposto ao sol e em estratégias para reconhecer sinais precoces antes que a lesão avance". Isso significa políticas e práticas que levem em conta a realidade concreta desses trabalhadores, não apenas recomendações que funcionam bem em contextos de lazer.
Citações Notáveis
Muita gente associa o câncer de pele apenas à praia ou ao lazer, mas uma parcela importante da população se expõe ao sol porque trabalha nessas condições. Isso muda a forma de entender o risco e também de pensar em prevenção.— Dr. Matheus Rocha, dermatologista
Não basta repetir orientações genéricas. É preciso pensar em prevenção adaptada à rotina de quem trabalha exposto ao sol e em estratégias para reconhecer sinais precoces antes que a lesão avance.— Dr. Matheus Rocha, dermatologista
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esse estudo muda a forma como devemos pensar sobre câncer de pele?
Porque desloca a conversa de um problema individual — alguém que se expõe mal ao sol — para uma questão estrutural. Vinte e três milhões de pessoas não estão escolhendo se expor. Estão trabalhando.
E por que isso importa para a prevenção?
Porque as estratégias que funcionam para quem vai à praia não funcionam para quem trabalha 40, 50 horas por semana sob o sol. Você não pode pedir a um pedreiro que use protetor solar a cada duas horas quando ele está em uma obra sem sombra, com calor de 35 graus.
Então o problema não é falta de informação?
Não é só isso. É que a informação genérica ignora a realidade material. Um trabalhador rural sabe que o sol é perigoso. O problema é que ele não tem alternativa.
E quanto aos sinais iniciais? Por que são confundidos?
Porque quando você trabalha ao ar livre todo dia, pequenas feridas, ressecamento, manchas — isso parece normal. Faz parte do trabalho. Então as pessoas não procuram um médico até que seja tarde.
Qual seria uma prevenção realista?
Uma que reconheça que nem todo trabalhador consegue se proteger igualmente. Talvez seja necessário pensar em equipamento de proteção obrigatório, em pausas à sombra, em acesso a dermatologia ocupacional. Prevenção que se encaixe na vida real das pessoas.