Campos amplia rede de vacinação, mas enfrenta barreira da desinformação

Doenças que já foram eliminadas correm o risco de voltar
A queda na cobertura vacinal, impulsionada pela desinformação, ameaça resgatar riscos sanitários já controlados.

Em Campos, uma rede de 42 salas de vacinação oferece gratuitamente toda a gama de imunizantes do Programa Nacional de Imunizações — mas a infraestrutura, por si só, não é suficiente. O verdadeiro obstáculo não está nos corredores dos postos de saúde, e sim no espaço invisível onde a desinformação pós-pandemia corrói a confiança das famílias e afasta crianças da proteção que já foi conquistada a duras penas pela ciência. A distância entre os 80% alcançados e os 95% exigidos pelo Ministério da Saúde não é apenas estatística — é o intervalo onde doenças esquecidas encontram caminho de volta.

  • A cobertura vacinal contra Influenza chegou a apenas 23%, um número alarmante justamente quando doenças respiratórias estão em alta na cidade.
  • A desinformação disseminada após a pandemia de Covid-19 tornou-se o principal inimigo da saúde pública local, minando a confiança de pais e responsáveis.
  • Crianças são as mais vulneráveis: sem a decisão consciente dos adultos, elas ficam desprotegidas contra doenças que o Brasil já havia controlado.
  • O município responde com estratégias específicas — anticorpo monoclonal para prematuros, doses para gestantes e atendimento em fins de semana — mas a batalha cultural permanece aberta.
  • O subsecretário de Vigilância em Saúde reconhece avanços reais, mas alerta: enquanto a meta de 95% não for atingida, o risco de reemergência de doenças eliminadas é concreto.

Campos construiu uma das redes de vacinação mais abrangentes do interior fluminense: 42 salas de imunização distribuídas por toda a cidade, abertas de segunda a sábado em horários estendidos, oferecendo gratuitamente todos os imunizantes do Programa Nacional de Imunizações. O cardápio vai da BCG ao Nirsevimabe, cobrindo recém-nascidos, gestantes, crianças, adultos e idosos.

Mas os números contam uma história de alerta. A vacina contra Influenza atingiu apenas 23% de cobertura neste ano — bem abaixo do esperado em plena temporada de doenças respiratórias. Outras vacinas vão melhor: a BCG chegou a 82%, a Pneumocócica a 80% e a Pentavalente a 76%. Ainda assim, há uma tendência de queda que preocupa os gestores de saúde do município.

A Secretaria Municipal de Saúde aponta a desinformação como o principal obstáculo. Desde o fim da pandemia de Covid-19, notícias falsas sobre vacinas se multiplicaram nas redes sociais, afastando famílias dos postos de imunização. O impacto mais grave recai sobre as crianças, que dependem inteiramente da decisão dos responsáveis para serem vacinadas — e que ficam expostas ao risco de doenças já controladas quando essa decisão não vem.

Para proteger os mais vulneráveis, o município adotou medidas específicas: aplicou quase 2.000 doses da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório em gestantes e administrou o anticorpo monoclonal Nirsevimabe em 285 prematuros nas maternidades. Crianças com comorbidades têm atendimento especializado no Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais.

O subsecretário de Vigilância em Saúde, Rodrigo Carneiro, reconhece que Campos saiu de coberturas entre 40% e 50% e hoje alcança cerca de 80% na maioria das vacinas de rotina — um avanço real. Mas a meta do Ministério da Saúde é de 95%, e o fosso ainda é significativo. Para Carneiro, conscientizar a população não é apenas uma questão de saúde pública: é a única forma de evitar que doenças já eliminadas encontrem, na desconfiança, uma porta de entrada.

Campos mantém uma estrutura de vacinação que se estende por toda a cidade: 42 salas de imunização espalhadas em diferentes regiões, funcionando em horários que vão desde as 8 da manhã até as 20 horas em dias úteis, com atendimento também nos fins de semana. A Secretaria Municipal de Saúde oferece gratuitamente todas as vacinas previstas no Programa Nacional de Imunizações, além dos imunizantes distribuídos durante campanhas anuais. O cardápio é amplo: BCG, Hepatite B, Pentavalente, Poliomielite, Pneumocócica, Rotavírus, Meningocócica, Febre Amarela, Covid-19, Tríplice Viral, Varicela, HPV, Influenza, Dengue e outras. A cobertura vai desde recém-nascidos até idosos.

Mas os números revelam uma realidade preocupante. Neste ano, o município aplicou 48.327 doses da vacina contra Influenza, alcançando apenas 23% de cobertura — uma marca bem abaixo do esperado em um período marcado pelo aumento de doenças respiratórias. Outras vacinas mostram desempenho melhor: a Pneumocócica atingiu 80,45% de cobertura em crianças menores de um ano, a BCG chegou a 82,18%, e a Pentavalente alcançou 76,59%. Mesmo assim, há um padrão claro de queda na adesão que preocupa gestores de saúde.

O principal culpado, segundo a Secretaria de Saúde, não é a falta de acesso ou infraestrutura. É a desinformação. Desde o fim da pandemia de Covid-19, notícias falsas sobre vacinas se multiplicaram, minando a confiança das famílias e afastando pessoas dos postos de vacinação. O impacto é especialmente grave quando se trata de crianças, que dependem inteiramente da decisão dos responsáveis. Se os pais não acreditam na importância da vacinação, as crianças não são imunizadas — e doenças que já foram controladas correm o risco de voltar.

O município tem investido em estratégias específicas para proteger os mais vulneráveis. Foram aplicadas 1.990 doses da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório em gestantes, uma das principais causas de infecções respiratórias graves em bebês. Para prematuros com idade gestacional igual ou inferior a 36 semanas e seis dias, o município oferece o anticorpo monoclonal Nirsevimabe, com 285 doses já administradas nas maternidades. Crianças menores de 24 meses com comorbidades recebem o imunizante no Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, mediante agendamento.

Apesar dos avanços, há um fosso entre a realidade e a meta. Rodrigo Carneiro, subsecretário de Vigilância em Saúde, reconhece que o município saiu de uma cobertura entre 40% e 50% há alguns anos e hoje alcança cerca de 80% na maioria das vacinas de rotina. Mas o Ministério da Saúde estabeleceu uma meta de 95% para a maior parte dos imunizantes e 90% para alguns deles. Ainda há um número significativo de crianças menores de cinco anos que precisam ser imunizadas. Carneiro enfatiza que conscientizar a população sobre a importância da vacinação é essencial para evitar o retorno de doenças já eliminadas — um risco real quando a cobertura cai.

O município saiu de uma cobertura vacinal entre 40% e 50% e hoje alcança cerca de 80% na maioria das vacinas de rotina, mas a meta do Ministério da Saúde é de 95%
— Rodrigo Carneiro, subsecretário de Vigilância em Saúde
É essencial conscientizar a população sobre a importância da vacinação, evitando o risco do retorno de doenças que já haviam sido eliminadas
— Rodrigo Carneiro, subsecretário de Vigilância em Saúde
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a Influenza tem apenas 23% de cobertura se o acesso às vacinas é tão fácil em Campos?

Model

A infraestrutura existe, mas as pessoas não estão indo. A desinformação criou uma barreira invisível. Muitos pais ouviram histórias falsas sobre efeitos colaterais e simplesmente não confiam mais.

Inventor

E as outras vacinas têm números melhores?

Model

Sim. A Pneumocócica está em 80%, a BCG em 82%. Mas mesmo esses números ficam abaixo da meta de 95% do Ministério. É como se houvesse um teto de desconfiança que varia de vacina para vacina.

Inventor

Como a desinformação pós-Covid afetou especificamente a vacinação infantil?

Model

As crianças não decidem se vão ou não ser vacinadas. Os pais decidem. E muitos pais foram expostos a narrativas falsas durante a pandemia que ainda ecoam. Eles têm medo, e esse medo é mais forte que a confiança nas autoridades de saúde.

Inventor

Qual é o risco real se essas coberturas continuarem caindo?

Model

Doenças que já foram eliminadas podem voltar. Poliomielite, sarampo — essas não desaparecem sozinhas. Elas desaparecem porque a vacinação mantém a população protegida. Quando a cobertura cai, o vírus encontra espaço.

Inventor

O que o município está fazendo além de oferecer acesso?

Model

Estão tentando conscientizar, mas é uma luta contra narrativas que se espalham mais rápido que informação correta. Abriram postos com horários estendidos, criaram estratégias especiais para gestantes e prematuros. Mas sem confiança, nenhuma infraestrutura resolve.

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