Câmara aprova Dia Nacional da Axé Music em 17 de fevereiro

O Congresso custa 40 milhões por dia para votar o dia do axé?
Deputado crítico questiona prioridades do Congresso ao aprovar data festiva em meio a crises econômicas.

Em 25 de fevereiro, a Câmara dos Deputados votou a favor de instituir o Dia Nacional da Axé Music em 17 de fevereiro — data que evoca o Carnaval de 1985, quando 'Fricote' abriu caminho para um gênero que moldaria a identidade cultural baiana por décadas. O gesto legislativo celebra quarenta anos de um movimento nascido da fusão entre ritmos africanos e urbanos, mas chega envolto numa tensão própria do tempo: o criador da música que deu origem ao gênero renegou publicamente sua própria letra, reconhecendo nela marcas de machismo e racismo. O projeto segue para o Senado carregando, junto ao reconhecimento, uma pergunta que a celebração ainda não soube responder.

  • A Câmara aprovou, com votos divididos, a criação de uma data nacional para homenagear um gênero musical que completa 40 anos — mas a votação expôs fraturas sobre o que o Congresso deveria priorizar.
  • Deputados contrários compararam o debate ao 'pão e circo' romano, questionando se uma casa legislativa que custa 40 milhões de reais por dia deveria ocupar seu tempo com calendários culturais enquanto o país enfrenta fome e inflação.
  • A dimensão econômica do axé — que sustenta milhares de trabalhadores durante o Carnaval — foi usada como argumento central pelos defensores, tentando ancorar a proposta em necessidade concreta, não apenas em nostalgia.
  • O maior constrangimento veio de fora do plenário: Luiz Caldas, pai da axé music, declarou na TV que não canta mais 'Fricote' por considerar sua letra machista e racista — exatamente a música que inspira a data aprovada.
  • O projeto segue para o Senado com uma contradição aberta: celebrar culturalmente aquilo que seu próprio criador já não consegue defender moralmente.

A Câmara dos Deputados aprovou, em 25 de fevereiro, um projeto que institui 17 de fevereiro como Dia Nacional da Axé Music. A data remete ao Carnaval de 1985, o primeiro após o lançamento de 'Fricote', a música de Luiz Caldas que abriu caminho para o gênero que definiria a cultura baiana nas décadas seguintes. O Projeto de Lei 4187/24 segue agora para o Senado.

A autora da proposta, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), vê na iniciativa um tributo aos 40 anos de um movimento que nasceu da fusão entre sonoridades africanas dos blocos de rua e ritmos como reggae, samba e rock — algo novo e visceralmente baiano. O relator Daniel Almeida (PCdoB-BA) descreveu o axé como símbolo de resistência cultural nordestina, enquanto José Rocha (União-BA) destacou seu peso econômico: durante o Carnaval, o gênero sustenta a vida de muitas pessoas.

A aprovação, porém, não foi tranquila. Gilson Marques (Novo-SC) invocou a metáfora romana do 'pão e circo' para criticar o que chamou de distração legislativa, e Clarissa Tércio (PP-PE) foi mais direta, classificando a proposta de inútil diante de problemas concretos como fome e inflação.

O momento mais incômodo veio de fora do plenário. No domingo anterior à votação, Luiz Caldas havia admitido ao programa Fantástico que a letra de 'Fricote' contém termos machistas e racistas — e que por isso não canta mais a música. O deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) trouxe o tema ao debate, expondo a ironia: a Câmara aprovava uma homenagem nacional inspirada numa canção que seu próprio criador hoje rejeita. O projeto segue para o Senado com essa tensão ainda sem resposta.

A Câmara dos Deputados votou na terça-feira, 25 de fevereiro, a favor de um projeto que estabelece 17 de fevereiro como Dia Nacional da Axé Music. A data não foi escolhida ao acaso: marca o primeiro Carnaval que se seguiu ao lançamento de "Fricote", a música de Luiz Caldas que em 1985 abriu caminho para o gênero que definiria a cultura musical baiana nas décadas seguintes. O Projeto de Lei 4187/24 agora segue para votação no Senado.

A deputada Lídice da Mata, do PSB baiano e autora da proposta, vê na data um tributo ao nascimento de um movimento que completaria 40 anos em 2025. A axé music emergiu da fusão entre a sonoridade africana dos blocos de rua e outros ritmos — reggae, samba, rock — criando algo novo e visceralmente baiano. O gênero receberia seu nome oficial em 1987, dois anos depois que "Fricote" já havia conquistado as ruas.

No plenário, o relator Daniel Almeida, do PCdoB baiano, descreveu a axé music como "um símbolo de resistência e afirmação da cultura baiana, refletindo a força e a diversidade do povo nordestino". Seu colega José Rocha, da bancada União baiana, reforçou a dimensão econômica do movimento: durante o período carnavalesco, o axé sustenta a vida de muitas pessoas. Para ele, o voto era sobre reconhecer uma cultura que nasceu na Bahia e que merecia seu lugar no calendário nacional.

Mas a aprovação não foi unânime. Gilson Marques, deputado pelo Novo de Santa Catarina, comparou o debate à política romana do "pão e circo" — a estratégia imperial de distrair a população de seus problemas reais com espetáculo. "O Congresso Nacional custa 40 milhões de reais por dia para vir aqui e votar o dia do axé?", perguntou, incrédulo. Clarissa Tércio, da bancada PP pernambucana, foi mais direta: chamou a proposta de inútil, argumentando que música boa não alimenta quem tem fome nem resolve a escalada de preços que aflige o país.

Houve ainda uma questão mais incômoda, levantada pelo deputado Paulo Bilynskyj do PL paulista. Luiz Caldas, o próprio criador de "Fricote" e considerado o pai da axé music, havia reconhecido publicamente, em entrevista ao programa Fantástico no domingo anterior, que a letra de sua música mais famosa contém termos machistas e racistas. O músico disse que não canta mais a canção justamente por isso — considera desnecessário perpetuar aquelas palavras. A ironia não passou despercebida: a Câmara aprovava um dia nacional em homenagem a uma música que seu próprio autor agora rejeita.

O projeto segue agora para o Senado, carregando consigo essa tensão não resolvida entre celebração cultural e crítica moral, entre reconhecimento econômico e questionamento de valores.

A axé music se consolidou como um símbolo de resistência e afirmação da cultura baiana, refletindo a força e a diversidade do povo nordestino
— Deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), relator do projeto
O Congresso Nacional custa R$ 40 milhões por dia para vir aqui e votar o dia do axé? É inacreditável
— Deputado Gilson Marques (Novo-SC)
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que escolher exatamente 17 de fevereiro? Parece uma data muito específica.

Model

É o primeiro dia de Carnaval após "Fricote" ter sido lançado, em 1985. A música não apenas marcou um momento, mas abriu a porta para todo um gênero. A data funciona como um ponto de origem.

Inventor

E por que isso importa agora, em 2025?

Model

O axé completa 40 anos. É um gênero que nasceu na rua, que alimenta pessoas durante o Carnaval, que é profundamente baiano. Há um argumento de que merecia reconhecimento oficial.

Inventor

Mas alguns deputados votaram contra. O que os incomodava?

Model

Alguns viam como distração — o Congresso gastando tempo e dinheiro com um dia festivo enquanto há fome e inflação. Outros apontavam uma contradição: Luiz Caldas, o próprio criador de "Fricote", havia acabado de dizer que não canta mais a música porque ela é machista e racista.

Inventor

Então a Câmara aprovou um dia em homenagem a uma música que seu autor rejeita?

Model

Exatamente. É uma tensão real. O axé como movimento cultural é importante, mas "Fricote" especificamente carrega palavras que o próprio Caldas agora reconhece como prejudiciais.

Inventor

Como Caldas explicou isso?

Model

Ele disse que é desnecessário cantar aquela letra. Não é uma rejeição do gênero, mas da própria canção — da forma como foi escrita.

Inventor

O que acontece agora?

Model

O projeto vai para o Senado. Mas a questão fica: como celebrar um gênero sem celebrar também suas origens problemáticas?

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