Os modelos dos anos 70 já apontavam para isto; a ciência tinha feito o seu trabalho
Europa aqueceu duas vezes mais que a média global, com 2022 registando o verão mais quente de sempre e múltiplos recordes nacionais. Climatologista Carlos Câmara reafirma que modelos dos anos 70 já previam este cenário, mesmo quando poucos se preocupavam com alterações climáticas.
- Mais de 16 mil europeus morreram em 2022 devido ao calor extremo
- Europa aqueceu duas vezes mais que a média global
- Desde 1980, catástrofes climáticas causaram 195 mil mortes na Europa
- 2022 foi o ano mais quente já registado em vários países europeus
- Modelos climáticos dos anos 70 já previam este cenário
Mais de 16 mil europeus morreram em 2022 devido ao calor extremo e alterações climáticas. Climatologistas afirmam que fenómenos extremos eram esperados e serão mais frequentes.
No verão de 2022, a Europa enfrentou um calor sem precedentes. Mais de 16 mil pessoas morreram naquele ano em consequência direta das alterações climáticas — um número que resume, em certa medida, o custo humano de um fenómeno que os cientistas não apenas previram, mas que já alertavam estar a caminho há décadas.
O continente europeu aqueceu ao dobro da velocidade da média global. Vários países registaram simultaneamente os seus anos mais quentes desde que há registos: Portugal, Bélgica, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Espanha, Suíça e Reino Unido. O próprio verão, considerado isoladamente, foi o mais quente jamais documentado. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, desde 1980 as catástrofes climáticas já tinham causado 195 mil mortes no continente.
O climatologista Carlos Câmara, em entrevista à SIC, ofereceu uma perspectiva que combina a urgência do presente com a história da ciência. Os modelos matemáticos dos anos 70 — época em que poucos se preocupavam genuinamente com o tema — já apontavam para aumentos de temperatura desta magnitude. A teoria do aquecimento global causado por gases de efeito estufa remonta ainda mais longe, ao final do século 19. "As consequências não nos surpreendem", disse Câmara, sublinhando que a ciência tinha feito o seu trabalho há muito tempo.
O que torna a situação europeia particularmente grave é uma aparente contradição: a Europa não é um dos maiores emissores globais de gases de efeito estufa, e no entanto sofre desproporcionalmente. Câmara explicou que "o processo não é linear" e que as consequências do aquecimento global "não são locais". O calor gerado em qualquer parte do planeta circula pela atmosfera e pelos oceanos, afetando regiões que podem estar geograficamente distantes das suas fontes.
As regiões mediterrânicas enfrentam um risco particular. Câmara descreveu-as como "particularmente sensíveis" às mudanças climáticas. O padrão que se desenha para o futuro próximo inclui episódios de seca mais intensos e mais frequentes na Europa mediterrânea. Simultaneamente, a intensificação do ciclo da água — a aceleração dos processos de evaporação e precipitação — significa que os fenómenos extremos em geral se tornarão mais comuns. Não se trata apenas de mais calor; trata-se de um clima mais volátil e imprevisível.
Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, documentou os efeitos concretos do verão de 2022. As temperaturas elevadas agravaram as secas severas e generalizadas. Os incêndios florestais que se seguiram foram violentos e abrangentes — a segunda maior área ardida já registada em registos históricos. Milhares de mortes foram atribuídas diretamente ao excesso de calor.
O que Câmara enfatizou, talvez de forma mais importante, é que nenhuma destas descobertas é nova. Os cientistas fizeram soar o alarme quando poucos ouviam. Os modelos computacionais dos anos 70 já desenhavam este futuro. A teoria subjacente tem mais de um século. O que mudou não foi a ciência — foi a realidade a alcançar as previsões. E segundo os mesmos modelos que acertaram no passado, o que vem a seguir será ainda mais extremo.
Citas Notables
Os modelos dos anos 70, quando poucas pessoas se preocupavam com o assunto, já apontavam para um aumento de temperatura— Carlos Câmara, climatologista
As temperaturas altas agravaram as condições de seca severa e generalizada, estimularam os incêndios florestais violentos e causaram milhares de mortes devido ao excesso de calor— Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como é que a Europa, que não é um grande emissor de gases de efeito estufa, acaba por sofrer tanto com o aquecimento global?
Porque o clima não respeita fronteiras. O calor que se acumula na atmosfera circula globalmente. A Europa está numa posição particularmente vulnerável — aquece duas vezes mais depressa que a média mundial. É como estar perto de um radiador que está a aquecer toda a casa.
Mas então isto era previsível? Os cientistas sabiam que isto ia acontecer?
Sabiam. Os modelos dos anos 70 já apontavam para isto. A teoria do aquecimento global por gases de efeito estufa vem do século 19. O que é surpreendente não é que isto esteja a acontecer — é que levou tanto tempo para as pessoas levarem a sério.
E o que muda agora? Se os fenómenos extremos vão ser mais frequentes, o que é que as pessoas podem esperar?
Nas regiões mediterrânicas, espera-se secas mais intensas e mais frequentes. Mas também há uma intensificação do ciclo da água — mais chuva em alguns sítios, mais seca noutros. O clima fica mais volátil. Não é apenas mais quente; é mais imprevisível.
16 mil mortes em 2022 é um número que choca. Mas será que as pessoas entendem que isto é causado pelas alterações climáticas?
Muitas vezes não. Veem o calor extremo como um evento isolado. Mas quando se olha para os números — 195 mil mortes desde 1980 — vê-se um padrão. Isto não é acaso. É o sistema climático a mudar de forma mensurável e letal.
Se os cientistas já sabiam disto há 50 anos, porque é que não foi feito mais?
Essa é a pergunta difícil. A ciência estava lá. O aviso estava lá. Mas a ação política e social não acompanhou. Agora estamos a viver as consequências que foram previstas.