À medida que aumenta a escolaridade, diminui o risco de óbito
Entre 2000 e 2019, o calor extremo ceifou 120 mil vidas no Brasil — uma cifra que, embora represente 0,6% da mortalidade total do período, carrega o peso de décadas de vulnerabilidade estrutural ignorada. Um estudo da Fiocruz e da UFBA revelou que idosos, pessoas de baixa escolaridade e moradores de regiões com infraestrutura precária pagaram o preço mais alto por um fenômeno climático que só tende a se intensificar. O conhecimento agora existe; o que resta saber é se ele será convertido em políticas capazes de proteger os mais frágeis antes que a próxima onda de calor chegue.
- 120 mil mortes em vinte anos transformam o calor extremo de desconforto climático em emergência silenciosa de saúde pública.
- Idosos acima de 65 anos concentram 97 mil desses óbitos, revelando que o envelhecimento sem proteção social é, em si, um fator de risco mortal.
- A desigualdade aprofunda a tragédia: quanto menor a escolaridade, maior o risco — porque pobreza significa exposição ao sol, moradia sem ventilação e distância dos serviços de saúde.
- O Norte e o Centro-Oeste sofrem ondas mais longas e frequentes; o Sul e o Sudeste enfrentam picos de intensidade — nenhuma região escapa, mas cada uma adoece à sua maneira.
- O Rio de Janeiro já ensaia uma resposta com sistemas de alerta integrados, mas a atenção primária — porta de entrada de 70% dos usuários do SUS — ainda precisa ser preparada para agir.
Entre 2000 e 2019, ondas de calor mataram 120 mil pessoas no Brasil. O número emerge de um estudo conjunto da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia, que analisou dados de mortalidade de 5.566 municípios usando o Sistema de Informações de Mortalidade do DataSUS. Diferente de pesquisas anteriores restritas a capitais, este trabalho mapeou o país inteiro, cruzando padrões climáticos com registros de hospitalização e óbito.
O perfil das vítimas expõe uma vulnerabilidade estrutural. Dos 120 mil mortos, 97 mil tinham 65 anos ou mais, e 58 mil faleceram por doenças cardiovasculares ou respiratórias. A escolaridade também determina quem sobrevive: quanto menos anos de estudo, maior o risco — porque baixa escolaridade está ligada a trabalho informal, exposição prolongada ao calor, moradias sem ventilação e dificuldade de acesso à saúde.
As ondas de calor não afetam o Brasil de forma uniforme. No Norte e no Centro-Oeste, os eventos foram mais frequentes e duradouros. No Sul e no Sudeste, os episódios foram mais intensos em relação à temperatura média local. Em crianças, o calor extremo se traduziu em hospitalizações por gastroenterite; em idosos, em internações por doenças respiratórias, renais e cardiovasculares — muitas vezes fatais antes mesmo da chegada ao hospital.
A pesquisadora Beatriz Oliveira aponta que o primeiro passo é reconhecer o calor como risco à saúde pública e preparar os serviços para responder. O Rio de Janeiro já implementou um sistema de alerta que integra dados meteorológicos e de saúde. Mas a resposta exige mais: envolve os três níveis de governo, o fortalecimento da atenção primária e a orientação da população para proteger idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas. Os dados estão postos. A pergunta que permanece é se o país agirá antes que a próxima onda chegue.
Entre 2000 e 2019, o calor extremo matou 120 mil pessoas no Brasil. Esse número, revelado por um estudo conjunto da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia, representa 0,6% de todas as mortes registradas no país durante esses vinte anos — uma proporção que pode parecer pequena até você considerar que estamos falando de 120 mil vidas.
A pesquisa, coordenada pelos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Meio Ambiente, analisou dados de mortalidade de 5.566 municípios brasileiros usando informações do Sistema de Informações de Mortalidade do DataSUS. Os pesquisadores não apenas contabilizaram mortes; mapearam como as ondas de calor variaram em frequência, intensidade e duração ao longo do período, e depois conectaram esses padrões climáticos aos registros de hospitalização e óbito. Beatriz Oliveira, pesquisadora em saúde pública da Fiocruz que conduziu o estudo, explica que trabalhos anteriores sobre o tema no Brasil se concentravam em regiões metropolitanas ou capitais. Este foi diferente: ampliou a análise para o país inteiro, explorando grupos específicos, causas de morte e faixas etárias.
O perfil das vítimas é revelador. Dos 120 mil óbitos, 97 mil foram de pessoas com 65 anos ou mais — isso significa que idosos representam cerca de 80% das mortes por calor extremo. Entre essas mortes, 58 mil ocorreram por doenças cardiovasculares e respiratórias. Mas a vulnerabilidade não se distribui de forma uniforme. O estudo identificou que pessoas com baixa escolaridade enfrentam risco significativamente maior. À medida que a escolaridade aumenta, o risco de morte diminui. A razão é estrutural: quem tem menos educação formal geralmente trabalha em empregos informais, passa mais tempo exposto ao calor, mora em residências sem ar-condicionado, tem dificuldade de acesso a serviços de saúde e vive em áreas onde a infraestrutura é precária.
As ondas de calor não atingem o Brasil de forma homogênea. Na região Norte e Centro-Oeste, os eventos foram mais frequentes, longos e persistentes. No Sul e Sudeste, os episódios apresentaram maior intensidade em relação à temperatura média local. A maioria dos municípios brasileiros mostrou tendência de aumento tanto na frequência quanto na intensidade das ondas de calor ao longo dos vinte anos estudados.
Os impactos na saúde pública vão além das mortes. O estudo observou padrões claros nas hospitalizações pelo SUS. Em crianças menores de dez anos, gastroenterites foram a causa mais fortemente associada ao calor extremo — resultado da desidratação, da imaturidade dos mecanismos de regulação térmica do corpo infantil e das alterações ambientais que comprometem a qualidade da água e o armazenamento de alimentos. Em idosos, as hospitalizações se concentraram em doenças respiratórias, problemas renais e metabólicos, especialmente diabetes. Durante as ondas de calor mais severas, as internações por doenças cardiovasculares evoluem para casos graves, e muitas vezes o óbito ocorre antes mesmo da pessoa chegar ao hospital.
O que fazer diante disso? Beatriz Oliveira aponta que o primeiro passo é reconhecer o calor extremo como um risco à saúde pública e fortalecer a capacidade dos serviços de saúde em responder. Ela cita o Rio de Janeiro como exemplo: a cidade implementou um sistema de alerta ao calor que comunica à população e integra dados meteorológicos aos de saúde. Mas a resposta não é apenas técnica. Envolve as três instâncias de governo, os serviços de saúde — especialmente a atenção primária, que atende mais de 70% da população dependente do SUS — e a própria população, que precisa ser orientada a aumentar a ingestão de água, buscar ambientes ventilados e proteger especialmente idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
O desafio agora é transformar esse conhecimento em ação. Os dados estão postos: sabemos quem morre, por quê, onde e quando. A questão que fica é se o país conseguirá implementar as medidas de proteção antes que as próximas ondas de calor cheguem.
Citações Notáveis
Nós ampliamos a análise para o Brasil inteiro, em termos de risco e impacto. Além da abrangência, exploramos grupos e causas específicas e questões de faixa etária— Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz
O que o Rio de Janeiro fez, de ter um sistema de alerta ao calor, comunicar à população e integrar dados meteorológicos aos de saúde foi muito bom— Beatriz Oliveira
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um estudo sobre mortes por calor extremo importa agora, em 2026, se os dados são de vinte anos atrás?
Porque o padrão não parou. A maioria dos municípios mostrou aumento na frequência e intensidade das ondas de calor durante esse período. O estudo não é um retrato do passado — é um aviso sobre o presente.
Os números parecem abstratos. 120 mil mortes em vinte anos. Como você coloca isso em perspectiva?
São 16 pessoas por dia. Todos os dias, durante vinte anos. E 80% delas tinham mais de 65 anos. Não é uma distribuição aleatória — é concentrada em quem já é frágil.
O estudo menciona escolaridade como fator de risco. Isso parece estranho. O calor não afeta rico e pobre da mesma forma?
Afeta, mas não igualmente. Quem tem mais educação consegue se adaptar melhor — tem dinheiro para ar-condicionado, trabalho em ambiente climatizado, acesso a informação sobre como se proteger. Quem tem menos educação trabalha na rua, mora em lugar quente, não tem recursos. É uma questão de poder, não de biologia.
O Rio de Janeiro fez algo diferente. O que exatamente?
Criou um sistema de alerta ao calor que avisa a população quando uma onda de calor está chegando e integra dados do tempo com dados de saúde. Simples, mas eficaz. Permite que as pessoas se preparem e que os serviços de saúde se organizem.
Se sabemos tudo isso, por que não está implementado em todo o país?
Porque exige coordenação entre governos, investimento em infraestrutura de saúde, comunicação com a população. E porque, até agora, o calor extremo não era visto como prioridade de saúde pública. Esse estudo muda isso — ou deveria mudar.
O que uma pessoa comum pode fazer?
Reconhecer que o calor é um risco real, não apenas desconforto. Beber mais água, procurar lugares ventilados, cuidar de idosos e crianças. E cobrar do governo que implemente sistemas de alerta e fortaleça a atenção primária de saúde.