Corria para os braços da avó quando não conseguia revidar
Aos 40 anos, Josimar 'Vozinha' Évora Dias carrega nas costas não apenas o peso de uma Copa do Mundo inédita para Cabo Verde, mas também o apelido que nasceu na infância, quando um menino pequeno corria para os braços da avó depois de apanhar nas peladas de rua. Com 89 jogos pela seleção e uma carreira construída em clubes modestos de quatro continentes, Vozinha representa algo maior do que a soma de suas partidas: é o símbolo humano de uma nação que chegou, pela primeira vez, ao maior palco do futebol mundial.
- Cabo Verde disputa sua primeira Copa do Mundo da história, enfrentando no Grupo H adversários como Espanha e Uruguai — uma missão que exige tanto coragem quanto experiência.
- Vozinha, com 40 anos, é um dos atletas mais velhos do torneio e carrega a responsabilidade de ser o último escudo de uma seleção que surpreendeu o continente africano ao terminar à frente de Camarões nas Eliminatórias.
- O apelido que ele não queria na infância — dado pelos vizinhos que zombavam de um menino que corria para a avó — tornou-se sua identidade profissional quando um homônimo em Angola o obrigou a se reinventar.
- Com 89 jogos e quatro Copas Africanas disputadas, Vozinha é o segundo jogador com mais partidas pela seleção cabo-verdiana, e sua presença no gol representa décadas de persistência em clubes longe dos grandes holofotes.
Josimar José Évora Dias tem 40 anos e um apelido que conta uma história antes mesmo de qualquer estatística. Vozinha — o goleiro de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026 — cresceu na ilha de São Vicente criado pelos avós, enquanto o pai servia no exército e a mãe trabalhava. Nas peladas de rua com rapazes mais velhos, ele era o menor, levava pancadas e, quando não conseguia revidar, corria para os braços da avó. Os vizinhos começaram a chamá-lo de Vozinha. Ele odiava o apelido. A vida, porém, tinha outros planos.
Quando foi buscar carreira profissional em Angola, descobriu que havia outro goleiro com o mesmo nome. O apelido de infância, que o perseguia desde São Vicente, tornou-se então sua identidade oficial. Há ainda outra camada nessa história: o nome Josimar foi uma homenagem do pai ao lateral brasileiro que encantou o mundo na Copa de 1986.
A trajetória de Vozinha passou longe dos grandes clubes — Angola, Moldávia, Chipre, Eslováquia, Portugal. Foi no CD Chaves que chegou mais perto dos holofotes, tornando-se de certa forma o sucessor de Hugo Souza após o retorno do goleiro ao Brasil. Mas em Cabo Verde, ele sempre foi ídolo: 89 jogos pela seleção, segundo jogador com mais partidas na história do país, e peça central na campanha histórica que terminou com os cabo-verdianos em primeiro lugar nas Eliminatórias, à frente de Camarões.
Agora, na Copa de 2026, Cabo Verde enfrenta o Grupo H com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita. Para um país que nunca havia disputado um Mundial, ter Vozinha no gol — com décadas de futebol internacional e um apelido que carrega a memória de uma avó — é mais do que um detalhe tático. É a imagem de como essa seleção chegou até aqui.
Josimar José Évora Dias tem 40 anos e é um dos atletas mais velhos em campo na Copa do Mundo de 2026. Mas não é só a idade que chama atenção. Nas costas, ele carrega um apelido que vem de longe: Vozinha. É o nome que o goleiro de Cabo Verde usa na seleção, um apelido que nasceu na infância e que ele carregou por toda uma carreira internacional construída em clubes modestos, de Angola à Eslováquia, de Chipre a Portugal.
O apelido tem origem simples e profunda. Josimar cresceu na ilha de São Vicente, uma das dez que formam Cabo Verde, mas não foi criado pelos pais. Seu pai estava no serviço militar quando ele nasceu, e sua mãe precisava trabalhar. Foram os avós quem o criaram. Na rua onde brincava, ele era pequeno demais para a turma de rapazes muito mais velhos. Levava pancadas constantemente enquanto jogava futebol. Quando não conseguia revidar, voltava para casa com raiva, com a cara fechada, e corria para os braços da avó. Os meninos da vizinhança começaram a gozar dele por isso, chamando-o de Vozinha — aquele que corria reclamar com os avós. Ele não gostava do apelido no começo, mas a vida o levaria a abraçá-lo.
Quando deixou Cabo Verde para buscar carreira no futebol profissional, Josimar se deparou com um problema: havia outro goleiro com o mesmo nome em Angola. Foi aí que o apelido de infância, aquele que o perseguia desde os tempos de rua em São Vicente, se tornou útil. Ele o adotou oficialmente. Há uma curiosidade no nome verdadeiro também: Josimar foi uma homenagem do pai ao lateral que defendeu o Botafogo na Copa de 1986 pela seleção brasileira.
A carreira de Vozinha foi construída longe dos grandes holofotes. Começou no Batuque, passou pelo Mindelense em Cabo Verde, depois defendeu o Progresso em Angola, o Zimbru Chisinau na Moldávia, o AEL Limassol em Chipre, o AS Trencin na Eslováquia, e o Gil Vicente em Portugal antes de chegar ao CD Chaves. Foi no Chaves que ele se tornou, de certa forma, sucessor de Hugo Souza, o goleiro do Corinthians que havia encerrado seu empréstimo em Portugal e voltado ao Brasil em 2024.
Apesar da trajetória em clubes modestos, Vozinha é um ídolo nacional em Cabo Verde. Com 89 jogos disputados pela seleção, é o segundo jogador com mais partidas pela seleção cabo-verdiana. O recorde pertence a Ryan Mendes, com 96 jogos. Seu primeiro chamado para a seleção foi em 2012. Desde então, participou de quatro edições da Copa Africana de Nações e foi peça importante na campanha que levou Cabo Verde à sua primeira Copa do Mundo.
Essa campanha foi notável. Os cabo-verdianos terminaram em primeiro lugar em seu grupo nas Eliminatórias, ficando à frente de Camarões. Agora, na Copa de 2026, enfrentam um grupo desafiador. Cabo Verde está no Grupo H com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita. A estreia foi contra a Espanha, seguida de confrontos contra Uruguai no dia 21 de junho e Arábia Saudita no dia 26. Para um país que nunca havia disputado uma Copa do Mundo, ter um goleiro experiente como Vozinha — com décadas de futebol internacional nas costas e um apelido que carrega a história de sua infância — é mais do que um detalhe. É um símbolo de como Cabo Verde chegou até aqui.
Citações Notáveis
O apelido é por causa dos meus avós. Eu nunca vivi com meus pais. Quando nasci, meu pai estava no serviço militar. E minha mãe tinha sempre de trabalhar. Então sempre cresci com meus avós.— Vozinha, ao site da Fifa
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um apelido de infância, algo que ele não gostava, se tornou tão importante na carreira de Vozinha?
Porque a vida o forçou a isso. Quando saiu de Cabo Verde, havia outro Josimar jogando. O apelido que o perseguia desde menino, aquele que o envergonhava, de repente virou a solução prática. Mas acho que virou mais que isso — virou identidade.
Ele foi criado pela avó, não pelos pais. Isso moldou quem ele é como jogador?
Moldou tudo. Ele mesmo diz que era pequeno, competitivo, rebelde, não gostava de perder. Levava pancadas na rua e voltava com raiva. Crescer assim, sem os pais por perto, com uma avó que o protegia — isso cria um tipo de dureza, de determinação.
Ele jogou em muitos países diferentes. Isso é comum para um goleiro de Cabo Verde?
Não é comum, não. Mostra que ele tinha qualidade suficiente para sair, para ser contratado em vários lugares. Mas também mostra que nunca chegou aos grandes clubes. Sempre foi modesto, sempre foi periférico. Mesmo assim, virou ídolo em casa.
O que significa Cabo Verde estar na Copa pela primeira vez com um goleiro de 40 anos?
Significa que eles não tinham pressa de chegar. Demoraram. E quando chegaram, levaram alguém que conhece o mundo do futebol, que já viu tudo, que sabe como se comportar sob pressão. Não é um jovem assustado. É alguém que já viveu.