Esse contato vai despertando o interesse e vai ficar marcado para ela
Na manhã de 11 de julho, os jardins da Universidade Federal do Ceará abriram suas portas não apenas para visitantes, mas para uma ideia: a de que a ciência pode ser tocada, cheirada e maravilhada antes mesmo de ser compreendida. O projeto 'Brincando com a Ciência' reuniu 15 programas de pós-graduação e mais de 37 atividades práticas para crianças de 5 a 10 anos, superando amplamente as expectativas de público e revelando uma sede coletiva por pontes entre o saber acadêmico e a curiosidade infantil. O sucesso da iniciativa não foi apenas de público — foi de propósito: a universidade decidiu torná-la permanente no seu calendário oficial.
- Os crachás para crianças se esgotaram em menos de duas horas, sinal de que a demanda por ciência acessível era muito maior do que os organizadores haviam previsto.
- Pesquisadores precisaram desmontar anos de linguagem acadêmica para falar com quem ainda aprende a ler — fósseis viraram personagens de 'A Era do Gelo', e besouros tornaram-se companheiros de mão.
- O medo de insetos, a distância da pré-história e o mistério das cáries foram enfrentados não com aulas, mas com microscópios, ovos em vinagre e borboletas em todas as fases da vida.
- O que era um experimento de férias revelou-se tão necessário que a UFC decidiu incorporá-lo ao calendário oficial, transformando um sábado de julho em um compromisso institucional duradouro.
Na manhã de 11 de julho, os Jardins da Reitoria da UFC se transformaram em laboratório ao ar livre. O projeto 'Brincando com a Ciência' estreou como parte do programa 'UFC de Portas Abertas', reunindo 15 dos 89 programas de pós-graduação da universidade em mais de 37 atividades práticas voltadas para crianças de 5 a 10 anos. A meta inicial era receber 250 visitantes. Dois horas após a abertura, todos os crachás de credenciamento haviam se esgotado.
A proposta era deliberada: traduzir pesquisas complexas em experiências que crianças pudessem tocar e observar. No estande de artrópodes, coordenado pela professora Érica Calvet e uma equipe de 16 pesquisadores, meninos e meninas observavam ácaros em microscópios, acompanhavam o ciclo completo das borboletas e deixavam besouros caminhar em suas mãos. Maria Isis, de 6 anos, foi uma delas. Sua avó Clébia, de 63, observava satisfeita: sabia que aquela manhã ficaria marcada.
O Museu Itinerante de Paleontologia e Arqueologia trouxe fósseis de megafauna conectados ao universo de 'A Era do Gelo', enquanto a tenda de odontologia usou um ovo dividido ao meio — uma metade em vinagre, outra tratada com flúor — para explicar cáries a crianças como Mariah, de 9 anos, que saiu sabendo o que é esmalte dentário e por que ele importa.
Ao fim do dia, a UFC confirmou que 'Brincando com a Ciência' passará a integrar seu calendário oficial de eventos. O que nasceu como experimento de férias revelou algo que a universidade agora se compromete a sustentar: uma ponte regular entre o fazer científico e a curiosidade das crianças da cidade.
No sábado de manhã, 11 de julho, os Jardins da Reitoria da Universidade Federal do Ceará se transformaram em algo entre um laboratório ao ar livre e um parque de diversões científico. Por volta das 9h30, famílias já circulavam pelo espaço. Duas horas depois, todos os crachás de credenciamento para as crianças haviam se esgotado. O projeto "Brincando com a Ciência" havia estreado, e o público superou em muito a meta inicial de 250 visitantes que os organizadores esperavam receber.
A iniciativa nasceu de uma parceria entre a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação e a Pró-Reitoria de Cultura, integrada à edição especial de férias do programa "UFC de Portas Abertas". O que a diferenciava de uma simples mostra científica era seu propósito deliberado: traduzir pesquisas acadêmicas complexas em experiências que crianças de 5 a 10 anos pudessem tocar, observar e compreender. Quinze dos 89 programas de pós-graduação da universidade mobilizaram professores, mestrandos e graduandos para criar mais de 37 atividades práticas distribuídas em eixos temáticos que iam de biodiversidade a tecnologia, saúde, oceanos e arqueologia. Regina Célia Monteiro de Paula, pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, explicou a lógica por trás do esforço: "Queremos mostrar como a pesquisa que nós desenvolvemos pode chegar até as crianças."
Um dos estandes mais procurados foi o dedicado aos artrópodes, coordenado pela professora Érica Calvet. Ali, crianças observavam em microscópios ácaros vivos, viam todas as fases de desenvolvimento de borboletas—ovo, lagarta, pupa e adulto—e interagiam com coleópteros. Calvet trabalhou com uma equipe de 16 pesquisadores e estudantes de Agronomia e Fitotecnia. Ela via no trabalho algo mais profundo que entretenimento: "É uma oportunidade incrível conversar com a criança, porque começamos a educação ambiental de berço. É o momento em que desmistificamos muita coisa em relação aos insetos, já que normalmente as pessoas têm aversão ou acham que vão se machucar." Maria Isis Ribeiro Soares, de 6 anos, foi uma das crianças que deixou o medo de lado e permitiu que um besouro caminhasse em sua mão. Sua avó, Clébia Parente, de 63 anos, observava com satisfação: "Esse contato vai despertando o interesse e sei que essa manhã vai ficar marcada para ela."
A pré-história chegou através do Museu Itinerante de Paleontologia e Arqueologia, ligado ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC. Odorico Moraes, coordenador do projeto e professor da Faculdade de Medicina, explicou que o museu nasceu de pesquisas em bioarqueologia translacional—trabalho que extrai DNA antigo de remanescentes ósseos para identificar marcadores de doenças genéticas na população atual. Para falar com crianças, porém, a equipe adotava outra estratégia: a linguagem da cultura pop. Os fósseis de megafauna, por exemplo, eram relacionados ao filme "A Era do Gelo". "Obviamente temos que ter uma linguagem diferente para cada público", disse Moraes. "É gratificante ver uma ideia científica se transformar em bem social."
Na tenda "Pequenos Cientistas da Boca", a professora Denise Helen, coordenadora da pós-graduação em Ciências da Saúde e docente de Odontologia de Sobral, liderou uma equipe de cinco alunos de mestrado e graduação em uma demonstração sobre cáries e saúde bucal. O experimento central era visual e memorável: um ovo dividido em duas metades. Uma metade foi mergulhada em vinagre para mostrar como a acidez corrói a estrutura dentária. A outra foi tratada com flúor para demonstrar sua ação como escudo protetor. Mariah, de 9 anos, moradora do bairro Presidente Kennedy, participou ao lado da mãe, a farmacêutica Ana Georgina, e da irmã Aurora, de 5 anos. Mariah usava aparelho e queria aprender mais. Depois da atividade, ela havia compreendido não apenas o que era cárie, mas também o papel do esmalte dentário como a "parte mais forte" do dente.
Além dessas atrações principais, os visitantes também puderam desfrutar de outras programações do "UFC de Portas Abertas": uma Feira Agroecológica da Reforma Agrária, exposições e sessões de desenho no Museu de Arte da UFC, observação solar na Seara da Ciência no Campus do Pici, e atrações culturais da Feira do Zé na Casa José de Alencar. A organização confirmou que "Brincando com a Ciência" passará a integrar o calendário oficial de grandes eventos da UFC, com novas edições previstas, embora ainda sem datas fechadas. O que começou como um experimento de férias havia se mostrado tão bem-sucedido que agora se tornaria permanente—uma ponte regular entre o fazer científico da universidade e a curiosidade das crianças da cidade.
Notable Quotes
Queremos mostrar como a pesquisa que nós desenvolvemos pode chegar até as crianças; então, preparamos mais de 37 atividades para que elas possam ter interesse pela ciência— Regina Célia Monteiro de Paula, pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFC
É uma oportunidade incrível conversar com a criança, porque começamos a educação ambiental de berço. É o momento em que desmistificamos muita coisa em relação aos insetos— Érica Calvet, professora coordenadora do estande de artrópodes
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que uma universidade com 89 programas de pós-graduação dedicaria tempo a atividades para crianças de 5 a 10 anos?
Porque pesquisa que não conversa com a sociedade fica isolada. Esses professores e pesquisadores estavam traduzindo anos de trabalho acadêmico em algo que uma criança pudesse tocar e entender. Não é simplificar—é encontrar a verdade dentro da complexidade.
O evento superou a expectativa de público. O que você acha que atraiu tanta gente?
Acho que as famílias sentem fome disso. Ciência não é abstrata quando você vê um besouro vivo andando na sua mão ou quando você entende por que o flúor protege um dente. As pessoas queriam que seus filhos sentissem isso.
Você notou algo sobre como os pesquisadores falavam com as crianças?
Sim. Não havia condescendência. A professora Calvet não dizia "insetos são legais". Ela dizia "vamos desmistificar o medo que você tem". O professor Moraes não explicava DNA antigo—ele conectava fósseis ao filme "A Era do Gelo". Eles respeitavam a inteligência das crianças e encontravam a porta certa para entrar.
E agora o projeto vai virar permanente. O que muda?
Muda que isso deixa de ser um experimento de férias e vira parte da identidade da universidade. Significa que próximas gerações de crianças em Fortaleza vão crescer sabendo que a UFC não é um lugar fechado—é um lugar onde a pesquisa acontece e elas podem participar.
Você acha que uma criança que colocou um besouro na mão vai lembrar disso daqui a dez anos?
A avó de Maria Isis disse que aquela manhã ia ficar marcada para ela. Eu acredito. Não é só memória—é o momento em que você descobre que o mundo é mais interessante do que você pensava.