Brazilian phonk: como o funk paulista conquistou a Europa com novo nome

É a primeira vez que um estilo pode virar tendência levando o Brasil na frente
MC Ramiro reflete sobre o potencial global do Brazilian phonk como fenômeno musical genuinamente brasileiro.

O funk brasileiro, nascido nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro, atravessa o Atlântico com um novo passaporte: o rótulo 'Brazilian phonk', cunhado por um jovem norueguês no TikTok. O que poderia parecer simples reembalagem revela, na verdade, uma tensão antiga entre identidade cultural e oportunidade global — a mesma que acompanhou a bossa nova nos anos 1950 e o axé nos anos 1990. Desta vez, porém, artistas da periferia paulista chegam ao mercado internacional antes que o mundo os descubra por conta própria.

  • Um produtor norueguês de 21 anos mistura funk paulista com phonk americano em 30 minutos e, sem querer, batiza um movimento global que explode no TikTok.
  • O Spotify registra crescimento de 33% nas execuções internacionais do funk brasileiro, mas o gênero chega à Europa com nome em inglês — e isso divide a cena musical brasileira entre indignação e pragmatismo.
  • Artistas como os Dragon Boys saltam de 500 mil para 1 milhão de ouvintes em dois meses, recebendo propostas de produtores de Israel, Rússia e Itália — portas que o funk tradicional nunca havia aberto.
  • O debate sobre apropriação cultural persiste: para uns, é um produto brasileiro sendo reembalado por estrangeiros; para outros, é a evolução natural de um gênero que sempre bebeu de fontes globais.
  • Pela primeira vez, artistas da quebrada enxergam um estilo musical brasileiro com potencial de virar tendência mundial — e desta vez com o nome do Brasil estampado na frente.

O funk brasileiro nunca foi tímido em cruzar fronteiras, mas algo mudou nos últimos anos. O que faz os europeus moverem a cabeça hoje não é a suavidade de Tom Jobim — é o grave pesado dos bailes de São Paulo. Segundo o Spotify, o funk carioca e o funk ostentação cresceram 33% em execuções fora do Brasil, liderados por Portugal, Estados Unidos, Itália, França e Argentina. No caminho, porém, o gênero ganhou um novo nome.

Ele se chama Brazilian phonk, e sua ascensão é inseparável do TikTok e de William Rød, um jovem norueguês de 21 anos conhecido como Slowboy. Em janeiro de 2023, inspirado por uma música do DJ GLK, ele misturou phonk americano — subgênero do hip-hop com vocais de memphis rap e samples de jazz dos anos 1970-80 — com o funk que ouvia. Em 30 minutos, produziu a faixa que daria nome ao movimento. Para a co-fundadora da Kondzilla, Alana Leguth, o gênero é essencialmente o funk 'mandelão' paulista, com batidas entre 130 e 140 bpm, que já ecoava há anos nas periferias de São Paulo. Renomear esse som em inglês é, para muitos, reembalar um produto brasileiro para vender aos europeus.

Os Dragon Boys, duo formado por MC Ramiro e MC Mauro, nascidos em São Mateus na zona leste de São Paulo, vivem essa transformação na pele. Dedicados à música há 16 anos, viram no Brazilian phonk a porta que nunca havia se aberto: em dois meses, dobraram sua base de ouvintes no Spotify e passaram a receber propostas de produtores internacionais. Curiosamente, o Brasil voltou a liderar o consumo de suas músicas — uma inversão que revela que o gênero não é só exportação, mas também retorno.

A polêmica sobre apropriação cultural divide a cena. O grupo Humildes vê o Brazilian phonk como apropriação pura: funk feito por brasileiros que, ao ser remixado por um estrangeiro, ganhou nome em inglês e prestígio internacional. Leguth discorda, lembrando que gêneros brasileiros sempre foram bem recebidos lá fora — da bossa nova ao axé — e que o phonk tem raízes americanas, não brasileiras. Para os Dragon Boys, porém, a discussão é secundária diante da realidade: o termo abriu portas que o funk tradicional não abria, levando 'moleques da quebrada' a contratos com gravadoras internacionais. Para Ramiro, é a primeira vez que um estilo musical brasileiro chega ao mundo com o nome do país estampado na frente — e isso, por si só, já é história.

O funk brasileiro nunca foi tímido em cruzar fronteiras. Samba, MPB, bossa nova — a música do país sempre encontrou ouvidos atentos do outro lado do Atlântico. Mas algo mudou nos últimos anos. Agora, o que faz os europeus moverem a cabeça não é a suavidade de Tom Jobim, e sim o grave pesado dos bailes de São Paulo. Segundo dados do Spotify, o funk carioca e o funk ostentação cresceram 33% em execuções fora do Brasil no ano passado. Portugal, Estados Unidos, Itália, França e Argentina lideram o consumo — mas há um detalhe que complica a história: o gênero ganhou um novo nome no caminho.

Ele se chama Brazilian phonk, e sua ascensão é inseparável do TikTok e de um jovem norueguês de 21 anos chamado William Rød, conhecido como Slowboy. A história começa em janeiro de 2023, quando Slowboy, inspirado por uma música do DJ GLK chamada MTG — Maldição Eterna 1.0, decidiu misturar phonk — um subgênero americano do hip-hop que incorpora vocais pesados de memphis rap e samples de jazz dos anos 1970 e 1980 — com o funk brasileiro que ouvia. Em 30 minutos, ele produziu Brazilian Phonk Mano, a faixa que daria nome ao movimento. Hoje, é sua música mais tocada.

Mas o que exatamente é Brazilian phonk? Alana Leguth, co-fundadora da produtora Kondzilla e fundadora do Hervolution, explica que o gênero é basicamente o funk "mandelão" — aquele criado com batidas entre 130 e 140 bpm, sintetizadores alucinados — que já ecoava há anos nos bailes de Paraisópolis e outras periferias paulistas. O estilo também engloba ramificações como "bruxaria" e "submundo". Para muitos, renomear algo tão conhecido sob um rótulo em inglês é simplesmente reempacotar um produto brasileiro para vender aos europeus. Para outros, é evolução legítima.

Os músicos MC Ramiro e MC Mauro, que formam o duo Dragon Boys, nascidos em São Mateus na zona leste de São Paulo, vivem essa transformação na pele. Dedicados à música há 16 anos, eles viram no Brazilian phonk a porta que nunca havia se aberto. Em dois meses, saltaram de 500 mil para 1 milhão de ouvintes no Spotify. Produtores de Israel, Rússia e Itália começaram a procurá-los. Antes, suas músicas eram mais tocadas nos Estados Unidos e Alemanha. Agora, o Brasil lidera — uma inversão que revela algo importante: o gênero não é apenas exportação, é também retorno.

A polêmica sobre apropriação cultural divide a cena. Ramemes, Newera, SR Edu e Adresz, do grupo Humildes, veem o Brazilian phonk como apropriação: é funk feito por brasileiros que, quando um estrangeiro o remixou, ganhou nome em inglês e status internacional. Alana Leguth discorda. Para ela, o phonk nasceu de referências americanas, não brasileiras, e gêneros brasileiros sempre foram bem recebidos lá fora — bossa nova nos anos 1950, axé nos anos 1990, Olodum conquistando Michael Jackson. Slowboy, por sua vez, defende que funk e Brazilian phonk são gêneros distintos, mesmo que a diferença ainda confunda muita gente.

Para os Dragon Boys, porém, a discussão é secundária diante da realidade: o termo abriu portas que o funk tradicional não abria. Mauro relata que conhece "moleques da quebrada" que sempre fizeram funk, nunca tiveram reconhecimento no Brasil, e agora estão sendo contratados por gravadoras internacionais graças ao nome. Os dois também notam que os estúdios internacionais oferecem propostas mais claras e honestas do que as gravadoras brasileiras costumam fazer. Eles já organizaram o primeiro festival do gênero, um baile phonk, e enxergam no Brazilian phonk uma chance rara: um estilo musical que pode virar tendência global — como o trap — mas desta vez levando o nome do Brasil na frente. Para Ramiro, é a primeira vez que isso acontece.

A percussão, o ritmo e os sintetizadores malucos são o que gosto de tomar como referência nas minhas músicas
— Slowboy, produtor norueguês
A gente já conhece moleques aqui da quebrada que sempre fizeram funk, nunca tiveram reconhecimento nenhum e, graças ao nome, estão sendo contratados por gravadoras da gringa
— MC Mauro, Dragon Boys
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que você acha que o funk brasileiro precisava de um novo nome para conquistar a Europa?

Model

Não é que precisasse. O funk já estava lá. Mas o phonk — esse subgênero americano com samples de jazz e memphis rap — criou uma ponte. Quando Slowboy misturou os dois, algo clicou. O nome em inglês abriu portas que o funk sozinho não abria.

Inventor

Isso não é apropriação cultural? Um norueguês renomeando música brasileira?

Model

É a pergunta que divide a cena. Alguns dizem que sim, que é funk reembalado. Mas Alana Leguth aponta que o phonk vem de referências americanas, não brasileiras. E que a bossa nova também foi bem recebida lá fora sem perder o nome.

Inventor

Mas os artistas brasileiros estão ganhando com isso?

Model

Estão. Os Dragon Boys saltaram de 500 mil para 1 milhão de ouvintes em dois meses. Produtores internacionais os procuram. Mauro diz que conhece moleques que nunca tiveram reconhecimento no Brasil e agora estão sendo contratados por gravadoras estrangeiras.

Inventor

Então é oportunidade, não apropriação?

Model

Para os músicos, é claramente oportunidade. Eles já faziam funk com bases de phonk. O nome apenas permitiu que o mundo ouvisse. Mas há quem veja apenas reembalagem — funk mandelão dos bailes de SP com rótulo gourmetizado.

Inventor

Qual é a diferença real entre funk e Brazilian phonk?

Model

Slowboy diz que são gêneros diferentes, mas muita gente ainda não entende a distinção. O Brazilian phonk mistura a batida pesada do funk paulista com a estética do phonk americano. É evolução, não cópia.

Inventor

E agora, para onde vai?

Model

Os Dragon Boys já organizaram o primeiro festival do gênero. Ramiro vê isso como a primeira vez que um estilo musical pode virar tendência global levando o nome do Brasil na frente. Não é mais samba ou bossa nova — é phonk, mas é nosso.

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