Brasileiros passam 52 anos conectados à internet durante a vida

Estou compartilhando toda a minha intimidade com a máquina
Especialista em antropologia digital explica como a IA coleta informações explícitas sobre o usuário.

Em algum ponto entre a conveniência e a dependência, o brasileiro médio já entregou mais da metade de sua existência às telas — 52 anos de uma vida de 76, segundo pesquisa da NordVPN divulgada em 2026. Em apenas quatro anos, esse tempo cresceu mais de uma década, impulsionado pela chegada da inteligência artificial ao cotidiano doméstico. O que se desenha não é apenas uma estatística de consumo digital, mas uma pergunta civilizatória sobre o que significa viver, relacionar-se e ser humano em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos.

  • Em quatro anos, o tempo médio de conexão dos brasileiros saltou de 41 para 52 anos de vida — um crescimento que surpreende até os especialistas em comportamento digital.
  • A inteligência artificial deixou de ser novidade e virou rotina: 32% dos brasileiros já a usam para tarefas do dia a dia, de declarações de imposto de renda a orientações sobre relacionamentos.
  • A intimidade migrou para os chatbots — e com ela, dados sensíveis: 82% dos brasileiros já expuseram o nome completo online, e especialistas alertam que conversas com IA constroem perfis pessoais muito mais precisos do que curtidas em redes sociais.
  • Psicólogos levantam um alerta que ainda não tem resposta: crianças e adultos imersos em telas por horas a fio podem estar perdendo as habilidades sociais que só o contato presencial desenvolve.
  • A questão não é mais se o mundo digital vai dominar o cotidiano, mas se a qualidade dessas conexões virtuais pode — ou deve — substituir os vínculos humanos genuínos.

Um brasileiro passa 52 anos, nove meses e 16 dias de sua vida conectado à internet — o equivalente a 70% de uma expectativa de vida de 76 anos. O dado, levantado pela NordVPN em abril de 2026, representa um salto de mais de 11 anos em relação à pesquisa anterior, realizada em 2022. Das 116 horas semanais online, cerca de 42 são dedicadas ao entretenimento. Mas há um novo protagonista nessa equação: a inteligência artificial.

Trinta e dois por cento dos entrevistados já consideram as ferramentas de IA parte integral de sua rotina, e 42% afirmam que a tecnologia melhorou sua experiência online. Gabriel Souza, 34 anos, é um exemplo: usou IA para preencher o Imposto de Renda e para calibrar seus treinos físicos. Para o professor Diogo Cortiz, da PUC-SP e doutor em antropologia digital pela Sorbonne, a naturalização da IA se explica pela linguagem: conversar com um chatbot em português, por voz, e receber respostas imediatas transforma uma simples dúvida em um diálogo contínuo — algo radicalmente diferente de uma busca no Google.

Essa proximidade, porém, tem um custo invisível. Oitenta e dois por cento dos brasileiros já divulgaram o nome completo online; 78% compartilharam a data de nascimento; 63% forneceram o endereço residencial. Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN, alerta que proteger-se hoje vai além de senhas fortes — exige entender como os dados são coletados e processados. Cortiz vai além: enquanto redes sociais capturam sinais comportamentais indiretos, os chatbots recebem confissões explícitas. Quando alguém diz ao bot que está triste, está entregando sua intimidade — e permitindo a construção de um perfil precioso para as empresas.

A psicóloga Andreia Schmidt, da USP, aponta que a pandemia acelerou a confiança nas ferramentas digitais e o tempo de conexão. Mas ela alerta: os seres humanos evoluíram para precisar de contato presencial, e horas diante de telas podem comprometer habilidades sociais essenciais — tanto em crianças quanto nos adultos responsáveis por criá-las. A pergunta que Schmidt deixa em aberto é incômoda: esse contato com a tecnologia pode imitar relacionamentos humanos, ou representa uma distração perigosa em relação às conexões genuínas? As mudanças estão em curso, e as respostas, ainda por vir.

Um brasileiro passa 52 anos, nove meses e 16 dias de sua vida conectado à internet. Considerando que a expectativa de vida média no país é de 76 anos, isso significa que sete décadas da existência de uma pessoa transcorrem online. A cifra vem de uma pesquisa realizada em abril de 2026 pela NordVPN, empresa de privacidade e segurança digital, e marca um salto impressionante em relação ao levantamento anterior, feito em 2022, quando o tempo médio era de 41 anos, três meses e 13 dias. Em apenas quatro anos, a conexão aumentou mais de 11 anos.

Das 116 horas semanais que o cidadão passa conectado, aproximadamente 42 horas estão dedicadas ao entretenimento. Mas há um novo elemento nessa equação: a inteligência artificial se tornou parte da rotina. Segundo o estudo, 32% dos entrevistados já consideram as ferramentas de IA como parte integral de seu dia a dia, e 42% afirmam que a tecnologia melhorou sua experiência online. Gabriel Souza, 34 anos, exemplifica essa integração. Ele usou IA para preencher sua declaração de Imposto de Renda, recebendo ajuda para lançar gastos e categorizar informações. Os robôs também o auxiliam a calibrar seus treinos de atividades físicas.

Diogo Cortiz, professor de inteligência artificial na PUC-SP e doutor em antropologia digital pela Universidade Sorbonne, explica por que a IA se tornou tão naturalizada no entretenimento brasileiro. A evolução da linguagem das ferramentas permite que as pessoas conversem com elas como se estivessem diante de outra pessoa. A possibilidade de interagir em português e usar comandos de voz torna a experiência mais fluida. Quando alguém tem uma dúvida, a IA oferece respostas resumidas e imediatas, diferentemente de uma busca no Google que pode ser mais demorada. Mas há algo mais profundo: o diálogo. Uma pergunta simples se transforma em uma conversa contínua, mudando radicalmente como as pessoas buscam informação, produzem conteúdo e resolvem problemas cotidianos. Cortiz cita exemplos: como pedir um aumento ao chefe, como lidar com uma briga com o cônjuge. A IA responde a tudo.

Mas essa proximidade com a tecnologia traz riscos crescentes à privacidade. O estudo mostra que 82% dos brasileiros já divulgaram seu nome completo online, 78% compartilharam sua data de nascimento e 63% forneceram seu endereço residencial a diferentes plataformas. Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN, afirma que a abordagem sobre segurança precisa evoluir. Proteger-se não significa apenas criar senhas fortes, mas compreender como os dados são coletados, utilizados e processados pelos sistemas de IA com os quais as pessoas interagem diariamente. Cortiz aponta que as redes sociais coletam informações por meio de sinais comportamentais — curtidas, vídeos compartilhados, comentários — mas no campo da IA, essas informações se tornam muito mais explícitas. Quando alguém diz ao chatbot que está triste por determinado motivo, está compartilhando sua intimidade, permitindo que a IA construa um perfil muito mais preciso. Para as empresas, isso representa uma verdadeira mina de ouro.

A pesquisa revela que 37% dos brasileiros temem que seus dados pessoais já estejam disponíveis online sem que saibam. Outros 21% já compartilharam informações pessoais e se arrependeram depois. Andreia Schmidt, professora de psicologia da USP e conselheira da Sociedade Brasileira de Psicologia, aponta que a pandemia teve um efeito importante na forma como as pessoas passaram a confiar seus dados a ferramentas online e no tempo que permanecem conectadas. O conforto e a praticidade do mundo digital fazem com que esse tempo de conexão seja cada vez maior. Essas ferramentas resolvem questionamentos em segundos e tarefas cotidianas a partir de um único comando, algo impensável há poucos anos.

Mas Schmidt alerta para os riscos psicológicos. O excesso de tempo online pode ser preocupante porque os seres humanos evoluíram para necessitar de contato social presencial e desenvolver habilidades cruciais para atender às demandas sociais. Em um mundo em que crianças e adultos passam horas diante de uma tela, esse desenvolvimento é prejudicado. A psicóloga questiona como uma geração de crianças vai lidar com as demandas sociais do mundo não virtual, e como adultos que passam horas em frente a uma tela vão conseguir oferecer a elas o ambiente social necessário. Ainda não há respostas, pois as mudanças estão em curso.

Para Schmidt, a questão central não está na quantidade de tempo que as pessoas passam com os chatbots, mas na qualidade. Em um mundo em que as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras, passar mais de oito horas por dia diante de uma tela é um fator de afastamento social. A pergunta que se coloca é se esse contato com a tecnologia pode imitar relacionamentos humanos, ou se representa uma distração perigosa em relação a conexões genuínas.

Neste ano, fiz a declaração do Imposto de Renda com auxílio da IA, e ela foi me ajudando a tirar dúvidas, lançar gastos e categorizar as informações
— Gabriel Souza, 34 anos
Proteger-se já não significa apenas criar senhas fortes, mas sim compreender como nossos dados são coletados, utilizados e processados pelos sistemas de IA
— Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é possível que alguém passe 52 anos conectado se a vida tem apenas 76 anos?

Model

É uma média. Alguns passam muito mais tempo, outros menos. Mas a pesquisa mostra que desde a infância até a morte, se somarmos todos os minutos online, chegamos a esse número. Crianças crescem com telas, adultos trabalham online, idosos usam redes sociais.

Inventor

E a inteligência artificial mudou isso tudo em poucos anos?

Model

Mudou a qualidade da conexão. Antes, as pessoas navegavam, consumiam conteúdo. Agora conversam com máquinas como se fossem pessoas. É mais envolvente, mais íntimo. Você compartilha seus problemas, suas dúvidas, sua tristeza.

Inventor

Isso não é perigoso?

Model

Muito. Quando você diz ao chatbot que está triste, está criando um perfil psicológico completo sobre si mesmo. As empresas sabem exatamente quem você é, o que você pensa, o que você teme. É informação valiosa.

Inventor

Mas as pessoas sabem disso?

Model

Nem sempre. Ou sabem e não se importam porque a conveniência é maior. A IA resolve problemas em segundos. Quem quer voltar a fazer as coisas do jeito antigo?

Inventor

E as crianças? Elas estão crescendo assim.

Model

Essa é a pergunta que ninguém consegue responder ainda. Como você desenvolve habilidades sociais reais quando passa a vida em frente a uma tela? Como um adulto que só conhece máquinas consegue ensinar a uma criança o que é um relacionamento humano genuíno?

Inventor

Então estamos perdendo algo?

Model

Talvez. Ou talvez estejamos apenas mudando. Mas a mudança está acontecendo tão rápido que não temos tempo para entender o que estamos perdendo.

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