Brasileiros passam 52 anos conectados à internet, com IA transformando rotinas

Estou compartilhando toda a minha intimidade com a IA
Cortiz explica como as pessoas revelam informações explícitas aos chatbots de forma que nunca fariam com redes sociais tradicionais.

Tempo de conexão aumentou 11 anos em quatro anos; IA agora integra entretenimento e tarefas cotidianas de 32% dos usuários. 82% dos brasileiros já divulgaram nome completo online; especialistas alertam para coleta massiva de dados pessoais por sistemas de IA.

  • Brasileiros passam 52 anos, 9 meses e 16 dias conectados à internet durante a vida
  • Tempo de conexão aumentou 11 anos em apenas 4 anos (2022 a 2026)
  • 82% dos brasileiros já divulgaram nome completo online; 78% compartilharam data de nascimento
  • 32% dos entrevistados consideram IA parte integral de sua rotina diária

Pesquisa revela que brasileiros passam 52 anos conectados à internet durante a vida, com IA transformando rotinas diárias, mas gerando preocupações com privacidade e impacto social.

Um brasileiro médio passa 52 anos, nove meses e 16 dias de sua vida conectado à internet. Considerando que a expectativa de vida no país é de 76 anos, isso significa que sete décadas de existência — 70% do tempo total — ocorrem online. Esses números vêm de uma pesquisa realizada em abril de 2026 pela NordVPN, empresa de privacidade e segurança digital, e revelam uma transformação radical em apenas quatro anos. Em 2022, o tempo médio de conexão era de 41 anos, três meses e 13 dias. O aumento de mais de 11 anos em um período tão curto não reflete apenas mais tempo nas redes sociais ou navegação — reflete a chegada da inteligência artificial como companheira constante nas rotinas diárias.

Das 116 horas semanais que um cidadão passa conectado, aproximadamente 42 horas estão dedicadas ao entretenimento. Mas o que mudou é a natureza dessa conexão. Agora, 32% dos entrevistados consideram ferramentas de IA parte integral de sua rotina, e 42% afirmam que a tecnologia melhorou sua experiência online. Gabriel Souza, 34 anos, exemplifica essa integração: usou IA para preencher sua declaração de imposto de renda, tirando dúvidas e categorizando gastos em tempo real. Os assistentes de IA também calibram seus treinos de atividade física. Para muitos, a tecnologia deixou de ser um complemento e virou um intermediário essencial entre a pessoa e suas tarefas.

Diogo Cortiz, professor de inteligência artificial na PUC-SP e doutor em antropologia digital pela Universidade Sorbonne, explica por que essa integração aconteceu tão rapidamente. A evolução da linguagem natural dos sistemas de IA — especialmente a capacidade de conversar em português e responder a comandos de voz — tornou a interação mais natural, quase como falar com outra pessoa. Quando alguém busca informação no Google, o processo é linear e frequentemente demorado. Com IA, a resposta vem resumida e abre espaço para diálogo. Uma dúvida simples se transforma em conversa. Cortiz observa que isso muda radicalmente como as pessoas buscam informação, produzem conteúdo e resolvem problemas cotidianos — desde pedir um aumento ao chefe até lidar com conflitos conjugais, tudo passa pela mediação da tecnologia.

Mas essa intimidade com a IA tem um custo invisível. A pesquisa revela que 82% dos brasileiros já divulgaram seu nome completo online, 78% compartilharam sua data de nascimento e 63% forneceram seu endereço residencial a diferentes plataformas. Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN, argumenta que a segurança digital não pode mais se limitar a senhas fortes. É preciso compreender como os dados são coletados, utilizados e processados pelos sistemas de IA com os quais interagimos diariamente. Cortiz aprofunda essa preocupação: enquanto as redes sociais coletam dados através de sinais comportamentais — curtidas, vídeos compartilhados, comentários — a IA coleta informações explícitas. Quando alguém diz ao chatbot que está triste e por quê, está compartilhando sua intimidade de forma direta. A IA consegue então construir um perfil muito mais preciso. Para as empresas, isso é uma mina de ouro.

A ansiedade é palpável. Segundo a pesquisa, 37% dos brasileiros temem que seus dados pessoais já estejam disponíveis online sem que saibam. Outros 21% já compartilharam informações pessoais e se arrependeram depois. Andreia Schmidt, professora de psicologia da USP e conselheira da Sociedade Brasileira de Psicologia, aponta que a pandemia acelerou essa confiança nas ferramentas digitais. O conforto e a praticidade do mundo digital — respostas em segundos, tarefas resolvidas com um comando — fazem com que o tempo de conexão seja cada vez maior. Mas Schmidt questiona o custo humano dessa transformação.

Os seres humanos evoluíram para necessitar de contato social direto para desenvolver habilidades cruciais. Quando crianças e adultos passam horas diante de telas, esse desenvolvimento é prejudicado. Schmidt coloca perguntas que ainda não têm resposta: como uma geração de crianças vai lidar com demandas sociais do mundo não virtual? Como adultos que passam oito horas por dia em frente a uma tela vão oferecer o ambiente social necessário para que essas crianças desenvolvam habilidades essenciais? A questão central, segundo ela, não é a quantidade de tempo com chatbots, mas a qualidade. Em um mundo em que as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras, o contato com a tecnologia pode imitar relacionamentos humanos genuínos ou representa uma distração perigosa? As mudanças estão em curso, mas as respostas ainda não existem.

Proteger-se já não significa apenas criar senhas fortes, mas compreender como nossos dados são coletados, utilizados e processados pelos sistemas de IA
— Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN
Os seres humanos evoluíram para necessitar de contato social para desenvolver habilidades cruciais. Quando crianças passam horas diante de uma tela, esse desenvolvimento é muito prejudicado
— Andreia Schmidt, professora de psicologia da USP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o tempo de conexão aumentou tanto em apenas quatro anos? Parece um salto muito grande.

Model

A IA mudou a natureza da conexão. Não é mais só rolar feed ou assistir vídeos. Agora você conversa com a tecnologia como se fosse uma pessoa, e ela resolve problemas reais — imposto de renda, treino físico, dúvidas existenciais. Ficou prático demais para não usar.

Inventor

Mas as pessoas percebem que estão compartilhando dados muito sensíveis com essas ferramentas?

Model

Nem sempre. Quando você fala para um chatbot que está triste e por quê, você está sendo explícito de um jeito que nunca seria com uma rede social. A IA entende seu perfil profundamente. Muita gente não pensa nisso enquanto digita.

Inventor

E qual é o risco real disso?

Model

Os dados se tornam uma mercadoria. Empresas conseguem prever comportamentos, vender publicidade direcionada, influenciar decisões. Mas o risco maior talvez seja outro.

Inventor

Qual?

Model

O isolamento. Se você passa oito horas por dia conversando com uma máquina, quando você conversa com pessoas de verdade? Crianças crescendo assim não desenvolvem habilidades sociais básicas.

Inventor

Então é um problema sem solução?

Model

Não sem solução, mas sem resposta clara ainda. As mudanças estão acontecendo mais rápido do que conseguimos entender.

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