De boia-fria a CEO: Belmiro Gomes transforma Assaí de R$ 70 mi em prejuízo para R$ 84,7 bi

Sempre haverá algo novo para aprender
Filosofia que Gomes resume sua abordagem à carreira e à liderança empresarial.

De boia-fria nas ruas de Maringá a CEO de uma das maiores redes de varejo do Brasil, Belmiro Gomes encarna uma trajetória que desafia a ideia de destino fixo. Ao assumir o Assaí em 2011 — uma empresa com prejuízo de R$ 70 milhões — ele não prometeu milagres, mas aplicou disciplina, aprendizado contínuo e escuta do mercado. Quatorze anos depois, a companhia fatura R$ 84,7 bilhões e emprega 90 mil pessoas, tornando-se símbolo de que crescimento sustentável nasce menos do espetáculo e mais da persistência silenciosa.

  • O Assaí chegou às mãos de Gomes em 2011 como uma empresa à beira do colapso — R$ 70 milhões no vermelho e sem escala para competir num mercado cada vez mais concentrado.
  • A compra de 66 pontos do Extra por R$ 7 bilhões em 2021 foi um salto ousado que expandiu a rede, mas também elevou o endividamento num momento em que os juros começavam a apertar.
  • Em 2025, o Assaí gerou R$ 2,8 bilhões em caixa livre e reduziu a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão, sinalizando que a fase de expansão acelerada deu lugar à consolidação financeira.
  • Para 2026, apenas 5 novas lojas estão previstas — uma virada de ritmo consciente que reflete a leitura de Gomes sobre juros elevados e consumo pressionado no Brasil.
  • Com mais de 300 lojas em 24 estados e a única rede de atacarejo listada na bolsa, o Assaí chega a 2026 maior, mais enxuto e com um CEO que ainda se define pelo que ainda tem a aprender.

Belmiro Gomes cresceu rápido porque precisava. Nascido em Santo André, foi parar em Maringá ainda jovem, e aos 13 anos já trabalhava para ajudar a família depois que o pai adoeceu. Carregou sacos de algodão, tentou ser engraxate, empurrou carrinho de sorvete. Em 1985, conseguiu seu primeiro emprego formal. Em 1988, entrou no Atacadão como programador de Cobol — e ali começou a aprender o varejo por dentro, passando por finanças, vendas, compras, operação e diretoria ao longo de mais de duas décadas.

Quando o Carrefour comprou o Atacadão em 2007, Gomes ficou por mais três anos. Em 2010, aceitou o convite para comandar o Assaí — uma rede que faturava R$ 3 bilhões, empregava 6 mil pessoas e acumulava quase R$ 70 milhões em prejuízo. O que se seguiu não foi uma virada espetacular, mas uma construção metódica: expansão física, fortalecimento operacional e aposta no segmento de atacarejo, que crescia impulsionado por pequenos comerciantes e consumidores em busca de preços mais baixos.

Em 2021, Gomes fez o movimento mais ousado de sua gestão: adquiriu 66 pontos comerciais do Extra por R$ 7 bilhões. A rede ganhou escala, mas também alavancagem — num momento em que os juros brasileiros começavam a subir. O desafio passou a ser crescer sem perder o equilíbrio financeiro.

Em 2025, o Assaí registrou faturamento de R$ 84,7 bilhões, gerou R$ 2,8 bilhões em caixa livre e reduziu a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão. São mais de 300 lojas em 24 estados, 90 mil colaboradores e a única rede de atacarejo listada na bolsa brasileira. Para 2026, o plano é enxuto: apenas 5 novas lojas, disciplina de capital e crescimento seletivo. O homem que começou empurrando um carrinho aprendeu também quando parar de correr.

Belmiro Gomes começou empurrando um carrinho de sorvete pelas ruas de Maringá. Não era o carrinho de um vendedor — era o carrinho que ele mesmo tinha de empurrar, carregando a mercadoria, ganhando comissão sobre cada venda. Antes disso, carregou sacos de algodão. Depois, tentou ser engraxate. Aos 13 anos, quando a doença do pai derrubou a família, ele e a irmã precisaram trabalhar para ajudar em casa. Nascido em Santo André, no ABC paulista, Gomes se viu forçado a crescer rápido em uma cidade do interior do Paraná, longe do conforto que nunca teve.

Em 1985, aos 18 anos, conseguiu seu primeiro emprego formal — uma função administrativa que o mantinha em movimento constante entre bancos e cartórios, carregando documentos, aprendendo como as empresas funcionavam por dentro. Mas foi em 1988 que a trajetória ganhou direção. Gomes entrou no Atacadão como programador de Cobol, a linguagem que rodava os sistemas financeiros e administrativos das grandes corporações. Não era glamouroso, mas era uma porta. A partir dali, ele circulou pela empresa — passou por digitação, finanças, vendas, compras, operação, gerência de loja, diretoria. Cada movimento o ensinava uma peça diferente do quebra-cabeça do varejo.

Em 2007, o Carrefour comprou o Atacadão. Gomes permaneceu por mais três anos, mas em 2010 recebeu um convite que mudaria tudo: assumir o comando do Assaí. A rede estava em apuros. Quando ele chegou em fevereiro de 2011, encontrou uma empresa que faturava cerca de R$ 3 bilhões por ano, empregava aproximadamente 6 mil pessoas e acumulava prejuízos próximos de R$ 70 milhões. Era uma companhia que precisava ganhar escala para competir em um mercado cada vez mais concentrado e exigente.

O que Gomes fez nos anos seguintes foi transformar aquele prejuízo em crescimento. A estratégia não foi espetacular — foi disciplinada. Ampliou a presença física, fortaleceu a operação, ganhou relevância em um segmento que crescia com pequenos comerciantes e consumidores em busca de preços mais baixos. Em 2021, fez um movimento de grande impacto: comprou 66 pontos comerciais do Extra por R$ 7 bilhões. A aquisição expandiu a rede, mas também a deixou mais alavancada em um momento em que os juros começavam a subir.

Em fevereiro de 2026, quando divulgou os resultados de 2025, o Assaí informou faturamento de R$ 84,7 bilhões — alta de 5,2% sobre o ano anterior. A companhia gerou R$ 2,8 bilhões em caixa livre, reduziu a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão e encerrou o ano com alavancagem de 2,56 vezes. Mais de 300 lojas espalhadas por 24 estados e o Distrito Federal. Mais de 90 mil colaboradores. A única rede de atacarejo listada na bolsa brasileira, negociando sob o código ASAI3.

Mas Gomes não apresenta essa trajetória como uma linha reta de sucesso. Ele fala em adaptação, em aprendizado contínuo, em capacidade de ler as mudanças do mercado e reagir a elas. A origem em uma família de menor renda, segundo ele, o manteve conectado com diferentes públicos — dentro e fora da empresa. Resiliência, curiosidade e comunicação foram as características que ele destaca como importantes. Durante a entrevista à revista EXAME, resumiu parte de sua filosofia em uma frase direta: sempre haverá algo novo para aprender.

Para 2026, a estratégia é disciplina de capital e crescimento seletivo. Apenas 5 novas lojas estão previstas para o período. É uma mudança de ritmo em relação aos anos de expansão agressiva, refletindo um ambiente de juros elevados, consumo pressionado e necessidade de reduzir a alavancagem. O executivo que começou empurrando um carrinho de sorvete agora gerencia uma das maiores redes de varejo alimentar do Brasil — não apenas expandindo, mas aprendendo quando frear.

Talento e experiência não bastam quando o cenário muda rapidamente e exige adaptação constante de empresas e profissionais
— Belmiro Gomes, CEO do Assaí
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como um programador de Cobol em 1988 se torna CEO de uma gigante do varejo?

Model

Não foi um salto. Foi uma circulação deliberada. Gomes passou por quase todas as áreas da empresa — finanças, vendas, operação, gerência de loja. Cada movimento o dava uma visão diferente do negócio. Quando chegou ao Assaí, já tinha visto como as coisas funcionavam de ponta a ponta.

Inventor

O Assaí estava perdendo R$ 70 milhões quando ele assumiu. Por que alguém aceitaria um desafio assim?

Model

Porque ele já tinha feito isso antes. No Atacadão, aprendeu a lidar com empresas em dificuldade. E porque, para alguém que começou vendendo sorvete nas ruas, um prejuízo de R$ 70 milhões é um problema que se resolve com trabalho e paciência.

Inventor

A compra do Extra por R$ 7 bilhões em 2021 foi um risco. Como ele justifica uma decisão assim?

Model

Não era risco cego. Era expansão calculada em um momento em que a rede tinha fôlego. O problema é que os juros subiram depois. Então a empresa teve de aprender a viver com mais dívida e ajustar o ritmo de crescimento.

Inventor

Ele fala muito em adaptação. Isso é apenas um discurso corporativo ou é real?

Model

Olhe para 2026. Apenas 5 novas lojas planejadas. Isso não é o discurso de alguém que quer crescer a qualquer custo. É alguém que leu o mercado — juros altos, consumo pressionado — e decidiu frear. A adaptação é real porque tem consequências.

Inventor

O que a origem dele — boia-fria, office boy — realmente mudou na forma como ele lidera?

Model

Ele diz que o mantém conectado com diferentes públicos. Mas é mais que isso. É uma compreensão visceral de que o varejo alimentar é sensível a renda, a crédito, a inflação. Você não entende isso em uma sala de reunião. Você entende vendendo sorvete nas ruas.

Contact Us FAQ