Brasileira relata ter sido aliciada para Epstein em São Paulo por US$ 10 mil

Mulher brasileira foi aliciada aos 16 anos, teve documentos retidos, foi explorada sexualmente e negociada para prostituição por intermediária que a cobrou de Epstein.
Ela estava me negociando para prostituição
Ana descreve o momento em que percebeu que a promessa de carreira de modelo era uma armadilha.

Ana saiu de casa aos 16 anos atraída por promessa de carreira de modelo, teve documentos retidos e foi levada a encontros com Epstein em hotel de luxo em São Paulo. Intermediária brasileira cobrou US$ 10 mil de Epstein; vítima viajou para Paris, EUA e ilha particular no Caribe durante relacionamento de cerca de quatro meses com bilionário.

  • Ana saiu de casa aos 16 anos com promessa de carreira de modelo em São Paulo
  • Intermediária cobrou US$ 10 mil de Epstein por seus serviços
  • Vítima viajou para Paris, Estados Unidos e ilha particular no Caribe durante quatro meses
  • Investigação do Ministério Público Federal apura rede de aliciamento para Epstein no Brasil
  • Crime de tráfico de pessoas não prescreve segundo normativas internacionais

Mulher brasileira conta à BBC como foi aliciada aos 16 anos com promessa de carreira de modelo e negociada para prostituição por intermediária que a cobrou US$ 10 mil de Epstein. Relato é primeiro de vítima no Brasil e pode configurar crime de tráfico de pessoas.

Ana saiu de casa aos 16 anos com um sonho simples: ser modelo. Tinha um contato em uma agência no Sul do Brasil, mas os trabalhos secaram. Quando o dono da agência mencionou uma mulher em São Paulo — vamos chamá-la de Lúcia — que gostaria de conhecê-la, a proposta pareceu uma porta se abrindo. Era o começo dos anos 2000. Seus pais apoiaram. Ela embarcaria para a maior cidade do país, moraria com outras meninas, teria oportunidades de verdade. Poucos dias antes de completar 18 anos, Ana chegou a São Paulo com a passagem paga.

Quando entrou no apartamento, Lúcia pediu seus documentos. Seria para tirar um passaporte, disse. Os meses passaram e os documentos não voltavam. Depois veio a conversa sobre a dívida: a passagem aérea, o book de fotos, tudo precisava ser quitado. Ana descobriu logo que não havia trabalho de modelo no horizonte. "A mulher era, na verdade, uma cafetina", conta ela. "A coisa foi se desenrolando e, quando eu vi, ela estava me negociando para prostituição." Um dos clientes foi o bilionário americano Jeffrey Epstein.

O primeiro encontro aconteceu em um hotel de luxo no Jardim Paulista. Lúcia a levou junto com outras duas garotas. A ideia era que Epstein escolhesse com qual mulher gostaria de ficar. Ele escolheu Ana. No quarto, pediu que ela tirasse a roupa e começou a se tocar enquanto a observava. "Comparado com os outros homens com quem estive antes, ele foi muito legal. Não teve ato sexual em si", relembra ela. "Era nojento, mas dos males, o menor." Epstein a achou bonita e a convidou para uma festa alguns dias depois em um prédio cheio de câmeras na região da avenida Brigadeiro Faria Lima. Lá conheceu Ghislaine Maxwell, companheira de Epstein, e Jean-Luc Brunel, agente de modelos francês. Foi durante essa festa que Epstein anunciou: "Amanhã estou indo a Paris e você vai comigo. Já combinei com a Lúcia."

O que se seguiu foi um arranjo que envolveu documentos falsos e uma rede internacional de exploração. Brunel, segundo Epstein, já tinha todos os papéis de Ana e a contrataria em sua agência de modelos em Nova York. O passaporte dela foi emitido com um visto de negócios em nome da Karin Models, agência que Ana nunca visitou e não tinha certeza se existia de verdade. Epstein pagava por esses vistos de fachada. Ana viajou para Paris, para os Estados Unidos várias vezes, para a ilha particular de Epstein no Caribe. Durante cerca de quatro meses, desenvolveu o que ela descreve como um relacionamento com o bilionário. Ele lhe dava dinheiro para passeios, pagava aulas de inglês, a levava a museus. Em um voo para Paris, quando Brunel pediu para transar com ela, Epstein recusou: "Você é minha."

Ana começou a perceber a verdade quando encontrou Epstein na cama com outra menina brasileira. "Aí eu me dei conta do que estava acontecendo. Que eram muitas." Ela decidiu ignorar. "O cara era legal comigo. Ele não me chamava para fazer nada, eu não tinha que transar com ele. Só gostava da companhia, me levava em passeios." Depois de quatro meses, cansada de mentir para os pais, pediu para sair. Epstein aceitou. Ela conseguiu recuperar seus documentos com Lúcia, que tentou ameaçá-la quando soube que o bilionário a procuraria novamente. Ana respondeu: "Você me aliciou quando eu era menor de idade." Nunca mais ouviu falar de Lúcia.

Segundo Ana, Epstein havia combinado com Lúcia que pagaria dez mil dólares pelos serviços — a visita no hotel em São Paulo e a viagem à França. Ele pagou apenas parte do combinado. Documentos do Departamento de Justiça dos EUA confirmam que havia uma brasileira que arrumava garotas para Epstein e Brunel quando estavam no Brasil, e que ela estava irritada com eles por causa de uma dívida de cinquenta mil dólares. Um auditor-fiscal do trabalho consultado pela reportagem avalia que o caso de Ana poderia ser enquadrado como crime de tráfico de pessoas — todos os indicadores estão presentes: engano, coação, exploração sexual, transporte internacional. Crimes dessa natureza não prescrevem segundo normativas internacionais. Uma investigação do Ministério Público Federal está em andamento para apurar se havia uma rede de aliciamento para Epstein no Brasil. Potenciais envolvidos ainda podem ser responsabilizados, independentemente de quanto tempo tenha passado.

Ao refletir sobre sua experiência hoje, Ana diz que teve sorte. "Não tenho jamais a intenção de defender nem dizer que ele era bonzinho", afirma. "Comigo foi desse jeito, mas sinto muitíssimo pelas meninas que não tiveram a mesma sorte que eu."

A mulher era, na verdade, uma cafetina. A coisa foi se desenrolando e, quando eu vi, ela estava me negociando para prostituição
— Ana, vítima
Não tenho jamais a intenção de defender nem dizer que ele era bonzinho. Comigo foi desse jeito, mas sinto muitíssimo pelas meninas que não tiveram a mesma sorte que eu
— Ana, refletindo sobre sua experiência
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Ana decidiu contar essa história agora, tantos anos depois?

Model

Porque há uma investigação em andamento no Brasil tentando entender se havia uma rede organizada de aliciamento para Epstein. Sua voz é fundamental para que as autoridades vejam como funcionava o recrutamento, quem estava envolvido, como os documentos eram falsificados.

Inventor

Ela se vê como vítima ou como alguém que fez escolhas?

Model

Ambas as coisas. Ela reconhece que foi aliciada quando menor de idade, que teve documentos retidos, que foi negociada. Mas também diz que Epstein a "salvou" das mãos de Lúcia, que a tratava bem. É uma relação complicada com a própria experiência.

Inventor

O que a diferencia de outras vítimas de Epstein?

Model

Ana estava no Brasil quando foi recrutada. A maioria das histórias conhecidas envolvem meninas nos Estados Unidos ou em viagens para lá. Ela é o primeiro relato documentado de aliciamento para Epstein que começou em solo brasileiro.

Inventor

Como é possível que Epstein tenha operado assim, tão abertamente, com intermediárias cobrando dinheiro?

Model

Porque havia uma estrutura. Brunel tinha agências de modelos legítimas que serviam como fachada. Havia motoristas, intermediárias locais, vistos falsificados. Epstein tinha recursos para pagar tudo isso e pessoas dispostas a facilitar.

Inventor

Ana sente que foi abusada?

Model

Ela diz que teve sorte comparada a outras meninas. Mas reconhece que foi explorada sexualmente, que foi negociada, que seus documentos foram retidos. A lei chamaria isso de tráfico de pessoas. Ela mesma diz que não defende Epstein, mas que sua experiência foi diferente da de outras vítimas.

Inventor

O que pode acontecer agora com essa investigação?

Model

Qualquer pessoa envolvida no Brasil — Lúcia, o empresário que a apresentou a Epstein, qualquer intermediário — pode ser responsabilizada. O crime de tráfico de pessoas não prescreve. As autoridades estão tentando montar o quebra-cabeça de como essa rede funcionava.

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