As empresas estão absorvendo a diferença, comprimindo margens
Em novembro de 2020, o Brasil ocupava o segundo lugar no mundo em alta de preços no atacado, com variação de 31,05% em doze meses — superado apenas pela Argentina em colapso. A combinação de real desvalorizado, commodities em alta e demanda aquecida pelo auxílio emergencial criou uma pressão que as empresas absorviam em silêncio, comprimindo margens para não afugentar consumidores fragilizados pelo desemprego. O que os números revelavam não era apenas um dado econômico, mas uma tensão represada: a distância entre o que a produção já custava e o que o consumidor ainda não havia sido chamado a pagar.
- Os preços no atacado brasileiro acumulavam alta de 31,05% em doze meses, enquanto a inflação oficial ao consumidor marcava apenas 3,92% — uma diferença de quase 27 pontos percentuais que não poderia durar indefinidamente.
- Empresas absorviam o choque comprimindo margens, mas o desemprego elevado tornava impossível repassar custos sem perder vendas, criando uma bomba de pressão silenciosa na cadeia produtiva.
- A economista Andrea Damico identificava um choque duplo — câmbio e commodities — com risco de se tornar triplo ao incluir o aumento das exportações para a China, estreitando ainda mais a oferta interna.
- Preços administrados como energia, água e transporte, represados durante a pandemia, acenavam com reajustes expressivos em 2021, com o Barclays projetando salto de 0,70% para 5,40% nessa categoria.
- O mercado financeiro projetava IPCA com viés de alta para 2021, enquanto o Banco Central insistia no caráter temporário do choque — uma divergência que revelava a incerteza real sobre o que viria a seguir.
Em novembro de 2020, uma análise da economista Andrea Damico, da Armor Capital, comparou índices de preços ao produtor de 82 países e encontrou o Brasil na segunda posição mundial, com alta acumulada de 31,05% em doze meses até outubro. Apenas a Argentina, com 39,2%, ficava à frente entre economias com alguma relevância. A Venezuela superava ambos, mas seus dados refletiam uma desintegração já consumada.
Os preços ao produtor medem o custo bruto da produção — matérias-primas, insumos, tudo que as fábricas precisam comprar para funcionar. Esses custos haviam disparado por forças que se reforçavam: o real desvalorizado encarecia importações, as commodities subiam nos mercados internacionais e a demanda interna, aquecida pelo auxílio emergencial e pela poupança de famílias de classe média que pararam de consumir serviços, pressionava ainda mais o sistema.
O paradoxo estava na distância entre esses números e o que os consumidores sentiam. O IPCA marcava apenas 3,92% no mesmo período. A explicação era simples e inquietante: as empresas estavam absorvendo a diferença, espremendo suas margens porque o desemprego elevado tornava inviável repassar os custos. Ninguém com renda instável compra mais só porque o produto ficou mais caro.
Damico descrevia a situação como um choque duplo — câmbio e commodities — a um passo de se tornar triplo, considerando também o aumento das exportações para a China. A pergunta sem resposta era por quanto tempo as empresas conseguiriam segurar esse repasse antes de precisar escolher entre falir ou aumentar preços.
O mercado já projetava IPCA com viés de alta para 2021. O Barclays alertava que os preços administrados — energia, água, transporte —, contidos durante a pandemia, precisariam ser reajustados, saltando de 0,70% para 5,40%. O Banco Central insistia que o choque era temporário. Poucos concordavam. A inflação de 2021 não seria diferente por subir menos — seria diferente porque finalmente chegaria onde as pessoas realmente compram.
Em novembro de 2020, um estudo da economista Andrea Damico, chefe de pesquisa da gestora Armor Capital, revelou uma realidade incômoda sobre a economia brasileira: os preços no atacado estavam subindo mais rápido aqui do que em quase qualquer outro lugar do mundo. A análise comparou índices de preços ao produtor de 82 países e encontrou apenas um rival à frente — a Argentina, em colapso econômico.
O número brasileiro era assustador. Considerando o Índice de Preços ao Produtor Amplo, que integra o IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas, a alta acumulada em doze meses até outubro chegava a 31,05%. Para colocar em perspectiva: a maioria das economias emergentes oscilava entre zero e 5%. Só a Venezuela, com seus 258%, superava o Brasil — mas aquele dado era de janeiro, refletindo um país já em desintegração. A Argentina, com 39,2%, era o único emergente razoável que enfrentava pressão comparável.
Os preços ao produtor capturam o custo bruto da produção: matérias-primas, insumos intermediários, tudo aquilo que as fábricas precisam comprar para funcionar. Esses custos tinham disparado por razões que se reforçavam mutuamente. A desvalorização do real tornava mais caro tudo que era importado. As commodities estavam em alta nos mercados internacionais. E havia ainda um terceiro fator: a demanda interna, alimentada pelo auxílio emergencial e pela poupança acumulada de famílias de classe média que deixaram de consumir serviços durante o isolamento social.
Mas havia um vácuo estranho entre esses números do atacado e a inflação que os consumidores realmente sentiam. O IPCA, o índice oficial de inflação, estava em apenas 3,92% no mesmo período. Como era possível que os custos de produção subissem 31% enquanto os preços nas prateleiras subissem menos de 4%? A resposta era simples e preocupante: as empresas estavam absorvendo a diferença, comprimindo suas margens porque o desemprego em alta tornava impossível repassar tudo aos clientes. Ninguém com renda instável compra mais só porque o produto ficou mais caro.
Andrea Damico descrevia a situação como um choque duplo — câmbio e commodities — que se aproximava de um choque triplo quando se considerava também o aumento das exportações para a China. Mas o que a preocupava mais era a pergunta que ninguém conseguia responder com certeza: por quanto tempo as empresas conseguiriam segurar esse repasse? Se a economia continuasse deteriorada, em algum momento elas teriam que escolher entre falir ou aumentar os preços.
O mercado financeiro já estava nervoso. Economistas como Alexandre Lohmann, da GO Associados, projetavam IPCA de 3,80% para 2021 e reconheciam viés de alta — ou seja, as coisas poderiam ficar piores. JPMorgan e Barclays apontavam outro risco: os preços administrados — energia, água, transporte — tinham sido contidos durante a pandemia e precisariam ser reajustados. Barclays esperava que esses preços saltassem de 0,70% em 2020 para 5,40% em 2021. O Banco Central insistia que o choque era temporário, mas poucos no mercado acreditavam. A inflação de 2021 seria diferente da de 2020, não porque os preços subiriam menos, mas porque finalmente começariam a subir onde as pessoas realmente compram.
Citas Notables
Não existe paralelo do nosso choque de preços do atacado no mundo emergente razoável, retirando Venezuela e Argentina— Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital
Não há o menor sinal de desaceleração do IPA agrícola, os repasses para o consumidor só devem diminuir dois a três meses depois do início do alívio dos preços ao produtor— Alexandre Lohmann, economista da GO Associados
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o Brasil está tão diferente dos outros emergentes nesse momento?
Porque vivemos um choque perfeito. O real desvalorizou, as commodities subiram, e a demanda interna não caiu como deveria. Em outros países emergentes, quando o câmbio piora, a demanda cai naturalmente. Aqui, o auxílio emergencial manteve as pessoas comprando.
Mas se os preços no atacado subiram 31%, por que a inflação oficial é de apenas 4%?
Porque as empresas estão segurando. Com desemprego alto, elas sabem que não conseguem repassar tudo. Então absorvem o custo. Mas isso não é sustentável — em algum momento, elas quebram ou aumentam os preço.
Quando você acha que esse repasse vai acontecer?
Provavelmente em 2021. E não será só dos alimentos e produtos comercializáveis. Os preços administrados — energia, transporte — foram contidos durante a pandemia e precisam ser reajustados. Aí sim a inflação fica visível.
O Banco Central diz que é temporário. Você acredita?
Não. O choque ainda não acabou. Não há sinal de desaceleração dos preços agrícolas. E enquanto o real continuar fraco e as commodities altas, a pressão persiste.
Qual é o cenário mais preocupante?
Se as condições econômicas se deteriorarem por muito tempo, as empresas não conseguem mais segurar. Aí você tem inflação de atacado e varejo ao mesmo tempo, com desemprego alto. É uma combinação muito ruim.