Brasil repete trajetória fiscal da Europa e flerta com crise brutal

Eventual crise fiscal poderia levar a desemprego recorde, recessão crônica e redução de benefícios sociais, conforme padrão observado na Europa.
O Brasil não aprendeu nada e está reconstruindo 2015
Economista compara cenário fiscal atual ao colapso de 2015-2016 sob Dilma Rousseff.

Taxas de juros em títulos brasileiros de longo prazo batem recordes, sinalizando desconfiança de investidores similar à crise europeia que forçou austeridade brutal. Diferentemente da Europa, Brasil pode desvalorizar moeda e imprimir dinheiro, mas isso desencadearia crise cambial, inflacionária e recessão, alertam especialistas.

  • Déficit nominal de 9% do PIB e dívida pública bruta acima de 80%
  • Juros para rolar dívida pública chegam a cerca de 1 trilhão de reais em 12 meses
  • Despesas obrigatórias consomem aproximadamente 95% do Orçamento
  • Na crise europeia, Grécia viu PIB encolher 26% e aposentadorias caírem até 20%

Brasil caminha para cenário similar ao das economias europeias em 2010-2011, com déficit nominal de 9% do PIB e dívida pública acima de 80%, enfrentando juros recordes para rolar títulos soberanos.

O Brasil está seguindo um roteiro que a Europa conhece bem demais. Há quinze anos, quando a crise financeira global de 2008 se transformou em colapso fiscal, países como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália descobriram que não havia saída fácil. Seus governos foram forçados a fazer o que ninguém quer fazer: cortar aposentadorias, reduzir salários de servidores públicos, desmantelar investimentos sociais. A Grécia viu seu PIB encolher 26%. As aposentadorias caíram até 20%. Os salários públicos foram cortados em 35%. Centenas de protestos tomaram as ruas. Aqueles países não conseguiam mais vender seus títulos soberanos no mercado internacional — a desconfiança dos investidores era tanta que nenhuma taxa de juros parecia compensar o risco. O Banco Central Europeu precisou intervir, comprando os papéis para evitar o colapso total da zona do euro. Em troca, os cortes vieram.

Agora o Brasil está pisando no mesmo caminho. O país enfrenta um déficit nominal equivalente a 9% do seu PIB e uma dívida pública bruta que ultrapassa 80% do PIB — exatamente os patamares que detonaram as crises fiscais na periferia europeia. Para conseguir financiar esse rombo, o Tesouro está pagando taxas de juros cada vez mais altas em seus títulos de longo prazo. Economistas chamam essas taxas de "assustadoras" e "insustentáveis". O sinal é claro: os investidores estão perdendo confiança.

A diferença crucial é que a Europa estava presa. Aqueles países usavam o euro e estavam submetidos às regras monetárias e fiscais do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia. Não podiam desvalorizar a moeda para tornar suas exportações mais competitivas. Não podiam imprimir dinheiro para cobrir os déficits. O Brasil, em tese, pode fazer ambas as coisas. Mas os especialistas alertam que seria um desastre. Desvalorizar a moeda ou imprimir dinheiro sem controle desencadearia uma crise cambial e inflacionária simultânea, com recessão forte. Portanto, a liberdade que o Brasil tem é mais teórica que prática.

O problema brasileiro é estrutural e contínuo, não uma emergência passageira. As despesas obrigatórias — aposentadorias, benefícios, gastos que o governo não pode cortar facilmente — consomem cerca de 95% do Orçamento. Somem-se a isso os juros necessários para rolar a dívida pública, que chegam a cerca de 1 trilhão de reais em 12 meses. Quando o endividamento atinge um ponto crítico, a confiança dos investidores desaba. Começa um ciclo vicioso: a moeda desvaloriza, a inflação sobe, os juros sobem ainda mais, e tudo piora.

Marcello Estevão, diretor-gerente do Instituto de Finanças Internacionais, com sede nos EUA, observa que o governo brasileiro não parece compreender a urgência. "A economia não está mal, crescendo entre 2% e 3% ao ano com desemprego baixo. Mas o país precisava dar um salto qualitativo na área fiscal antes que seja tarde", diz. Estevão leciona sobre crises macroeconômicas e sustentabilidade da dívida na Universidade de Georgetown. Ele nota que geralmente os países só fazem ajustes sérios quando entram em crise — e o Brasil já fez algumas reformas, como a trabalhista e previdenciária, e tem instituições estáveis. "Talvez não tenha uma crise no ano que vem, mas vai piorando e não dá um salto qualitativo, que poderia transformar sua economia."

Samuel Pessôa, colunista da Folha e pesquisador do BTG Pactual, é mais direto. Ele vê ecos de 2015-2016, quando a economia brasileira encolheu 7,2% sob o governo de Dilma Rousseff, resultado do descontrole fiscal. "O Brasil não aprendeu nada e, para se reeleger, Lula está reconstruindo 2015", afirma. Os bancos estão rolando as dívidas corporativas à espera de um ajuste em 2027. Se não vier, haverá uma ruptura no mercado de crédito corporativo.

Armando Castellar, pesquisador do Ibre-FGV, aponta um fator que ainda protege o Brasil: o país tem um déficit em suas transações correntes com o resto do mundo equivalente a 2,7% do PIB, muito menor do que vários países europeus tinham na época de suas crises. Mas sem um ajuste que reduza o déficit fiscal interno e a conta de juros, o Brasil vai "bater na parede" via câmbio, com uma alta expressiva do dólar que levará ao aumento da inflação e do desemprego. Castellar também observa que, embora o crescimento econômico e a taxa de desemprego pareçam mostrar uma economia distante de uma crise, os brasileiros estão endividados em níveis recordes — o que potencializaria uma eventual recessão. O cenário está montado. A questão agora é se o país conseguirá fazer os ajustes antes de ser forçado a fazê-los.

O país precisava dar um salto qualitativo na área fiscal antes que seja tarde
— Marcello Estevão, diretor-gerente do Instituto de Finanças Internacionais
Se não vier ajuste em 2027, haverá uma ruptura no mercado de crédito corporativo
— Samuel Pessôa, colunista da Folha e pesquisador do BTG Pactual
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Inventor

Por que o Brasil está repetindo exatamente o que a Europa viveu?

Model

Não é exatamente a mesma coisa, mas os sinais são muito parecidos. Ambos os casos têm déficits crescentes, dívida pública fora de controle, e investidores começando a desconfiar. A diferença é que a Europa estava presa — não podia imprimir moeda nem desvalorizar. O Brasil pode, mas faria tudo piorar.

Inventor

Se o Brasil pode fazer essas coisas, por que não faz?

Model

Porque seria como apagar um incêndio com gasolina. Imprimir dinheiro ou desvalorizar a moeda sem controle desencadearia uma crise cambial e inflacionária simultânea. Os juros subiriam ainda mais. É a armadilha.

Inventor

Qual é o verdadeiro problema — é o tamanho da dívida ou a forma como ela está sendo financiada?

Model

Os dois. Mas o pior é que o déficit é estrutural. Não é um acidente. Despesas obrigatórias consomem 95% do Orçamento, e os juros para rolar a dívida chegam a 1 trilhão de reais por ano. Isso não desaparece sozinho.

Inventor

Os economistas acham que vai haver crise?

Model

Não dizem que vai haver amanhã. Mas todos alertam que sem ajuste fiscal, o ciclo vicioso vai se aprofundar. A confiança dos investidores é frágil. Quando ela desaba, tudo desaba junto.

Inventor

O que diferencia o Brasil da Grécia naquela época?

Model

A Grécia tinha um déficit em transações correntes muito maior. O Brasil ainda tem espaço. Mas se não aproveitar esse tempo para ajustar, vai acabar no mesmo lugar — desemprego recorde, recessão crônica, cortes brutais em benefícios.

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