Não faz sentido ceder a esse tipo de constrangimento
Em Pequim, o Brasil deu um passo histórico ao sinalizar a emissão de títulos de dívida em yuan chinês — os chamados panda bonds —, tornando-se potencialmente o primeiro país latino-americano a acessar o mercado de capitais chinês dessa forma. O gesto, protagonizado pelo ministro da Fazenda Dario Durigan, não é apenas financeiro: é uma declaração de que nações emergentes buscam arquitetar sua soberania econômica em um mundo onde o dólar tem sido usado como instrumento de pressão política. Não se trata de derrubar uma ordem, mas de construir, tijolo a tijolo, um sistema em que a dependência de uma única moeda deixe de ser uma vulnerabilidade.
- O Brasil entregou ao Banco Popular da China uma carta de intenção para captar cerca de 5 bilhões de yuans — operação inédita na América Latina e símbolo de uma virada estratégica na política financeira brasileira.
- A decisão surge em meio a crescente desconfiança global sobre o uso do dólar como ferramenta de coerção econômica, prática que se intensificou sob a administração Trump e que expõe países emergentes a pressões externas.
- Brasília insiste que a estratégia não é confronto com Washington, mas afirmação de independência — o mesmo raciocínio que levou o Brasil a captar 5 bilhões de euros na Europa em abril deste ano.
- A China acelera a internacionalização do yuan com argumentos práticos: maior estabilidade, menor volatilidade e uma cadeia de suprimentos global que já opera amplamente na moeda.
- Especialistas alertam que a desdolarização é um processo lento e que o crescimento dos panda bonds pode refletir a fraqueza momentânea do dólar, não uma mudança estrutural de preferências.
- O que está verdadeiramente em jogo não é a queda do dólar, mas a construção gradual de um sistema monetário multipolar onde nenhuma nação detenha poder absoluto sobre as demais.
Na quinta-feira passada, em Pequim, o ministro da Fazenda Dario Durigan entregou ao presidente do Banco Popular da China uma carta de intenção para a emissão dos chamados panda bonds — títulos de dívida brasileiros denominados em yuan. Se aprovada, a operação captará cerca de 5 bilhões de yuans e fará do Brasil o primeiro país latino-americano a emitir esse tipo de papel no mercado chinês.
O movimento integra uma estratégia mais ampla de desdolarização. Nos últimos anos, o uso do dólar como ferramenta de pressão política — prática que ganhou força sob Donald Trump — levou países ao redor do mundo a buscar alternativas. Durigan foi direto: "Não faz sentido ceder a esse tipo de constrangimento." O ministro frisou que o Brasil já havia captado 5 bilhões de euros na Europa em abril, e que a operação chinesa segue a mesma lógica de diversificação — sem representar ruptura com Washington, mas afirmando independência econômica.
O terreno foi preparado com cuidado. O secretário Mathias Alencastro visitou Pequim semanas antes para reuniões da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, esteve em Xangai para discutir os títulos, investimentos bilaterais e pagamentos transfronteiriços em moedas locais — sinais de uma aceleração deliberada na parceria financeira entre os dois países.
Do lado chinês, o vice-presidente do Bank of China no Brasil, Hsia Hua Sheng, defende o yuan com argumentos concretos: estabilidade, baixa volatilidade e uma cadeia de suprimentos que já permite comprar praticamente qualquer mercadoria na moeda. Ainda assim, ele reconhece que o renminbi está longe de ameaçar a hegemonia do dólar — e que a transição é, por natureza, gradual.
Especialistas como Bruno De Conti, da Unicamp, compartilham dessa cautela. O crescimento dos panda bonds em 2026 pode ser reflexo da desvalorização do dólar, não de uma preferência estrutural pelo yuan. O que os movimentos do Brasil e da China revelam, porém, é algo mais profundo: uma desconfiança crescente sobre a "weaponization" do dólar e o desejo coletivo de construir um mundo financeiro onde nenhuma moeda única detenha poder absoluto.
O Brasil está prestes a fazer história nos mercados financeiros internacionais. Na quinta-feira passada, em Pequim, o ministro da Fazenda Dario Durigan entregou ao presidente do Banco Popular da China uma carta de intenção que abre caminho para a primeira venda de títulos de dívida brasileiros denominados em yuan chinês — os chamados panda bonds. Se aprovada pelas autoridades chinesas, a operação captará cerca de 5 bilhões de yuans e marcará a primeira vez que um país latino-americano emite títulos dessa natureza no mercado chinês.
O movimento faz parte de uma estratégia mais ampla de desdolarização que o Brasil vem perseguindo há meses. A ideia é simples mas profunda: reduzir a dependência da moeda americana como instrumento de financiamento e liquidação de transações internacionais. Nos últimos anos, países ao redor do mundo têm se preocupado com o uso do dólar como ferramenta de pressão política e econômica — uma prática que ganhou força sob a administração de Donald Trump nos Estados Unidos. Ao diversificar suas fontes de renda e suas moedas de transação, o Brasil busca diminuir sua vulnerabilidade a essas pressões externas.
Durigan foi enfático ao explicar a lógica por trás da decisão. "Não faz sentido ceder a esse tipo de constrangimento", disse ele em Pequim, referindo-se às restrições impostas por Washington. O ministro ressaltou que o Brasil é um país soberano e que já havia emitido títulos na Europa — em abril deste ano, o país captou 5 bilhões de euros em sua maior rodada de emissão de papéis nacionais. A operação chinesa segue a mesma lógica de diversificação. Durigan também deixou claro que o Brasil continua mantendo diálogo com os Estados Unidos e que a estratégia não representa uma confrontação, mas sim uma afirmação de independência econômica.
A China, por sua vez, tem incentivado ativamente a internacionalização do yuan. Segundo Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil, a moeda chinesa oferece vantagens concretas: é mais estável que muitas alternativas, apresenta volatilidade menor e custos de transação cada vez mais reduzidos. Mais importante ainda, por trás do renminbi — nome oficial da moeda — existe uma das cadeias de suprimentos mais completas do mundo. "Compra-se qualquer mercadoria usando o renminbi", afirmou Sheng. Embora reconheça que a moeda ainda não ameaça a hegemonia do dólar, ele vê um potencial crescente para seu uso em transações internacionais.
O terreno para esse anúncio foi preparado cuidadosamente ao longo de semanas. Em junho, o secretário da Fazenda Mathias Alencastro visitou Pequim para reuniões setoriais da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação, deixando claro que a emissão dos títulos é uma prioridade governamental e parte de uma estratégia de diversificação da dívida. Na mesma semana, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, esteve em Xangai para encontros com o Banco Popular da China, onde também discutiram os títulos brasileiros, investimentos bilaterais e pagamentos transfronteiriços — sinais de uma aceleração na proposta de usar moedas locais nas transações entre os países.
Mas há questões em aberto sobre o alcance real dessa desdolarização. Uma delas é até que ponto países conseguem usar moedas alternativas quando o dólar está fortalecido. O Banco Central chinês projeta que a emissão de panda bonds atingirá recorde em 2026, mas especialistas em investimentos apontam que esse crescimento pode ser reflexo da desvalorização do dólar, não necessariamente de uma preferência estrutural pela moeda chinesa. Sheng reconhece que transformar moedas locais em referências preferenciais é um processo gradual. "O dólar é hoje uma referência no apreçamento da maioria dos ativos do mundo", observa. "Mas isso não quer dizer que precisamos de dólar para fazer compras."
Para Bruno De Conti, economista e professor da Universidade Estadual de Campinas, os movimentos do Brasil e da China são significativos mas não representam uma ameaça imediata à hegemonia do dólar. Ainda assim, ele vê neles um sinal importante: diferentes países estão ampliando a diversificação de suas transações porque desconfiam da forma como os Estados Unidos têm utilizado a moeda americana como instrumento de pressão — o que alguns chamam de "weaponization" do dólar. As transações em yuan ainda são pequenas comparadas àquelas denominadas em dólares, mas crescem. O que está em jogo não é derrotar o dólar amanhã, mas construir alternativas para um mundo em que nenhuma moeda única tenha poder absoluto.
Citações Notáveis
O dólar é hoje uma referência no apreçamento da maioria dos ativos do mundo. Mas isso não quer dizer que precisamos de dólar para fazer compras.— Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China no Brasil
São movimentos que mostram que há uma certa desconfiança em relação à maneira como os Estados Unidos têm regido o dólar— Bruno De Conti, economista da Unicamp
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Brasil está fazendo isso agora, especificamente?
Porque há uma convergência de fatores. Trump voltou à presidência dos EUA e intensificou o uso do dólar como ferramenta de pressão. Ao mesmo tempo, a China está trabalhando ativamente para internacionalizar o yuan. O Brasil viu uma oportunidade de se posicionar como um país que não quer ser refém dessa dinâmica.
Mas o yuan é realmente uma alternativa viável ao dólar?
Não no curto prazo. O dólar ainda é a moeda de referência para a maioria dos ativos globais. Mas o yuan tem vantagens reais: uma cadeia de suprimentos completa por trás dele, custos de transação menores, estabilidade. O que está acontecendo é um processo gradual de mudança nas preferências.
Então isso é mais simbólico que prático?
Não é só simbólico. Cinco bilhões de yuans é uma quantia real. Mas é verdade que o impacto imediato será limitado. O que importa é que o Brasil está sinalizando que não aceita mais a dependência total do dólar.
Os EUA vão se importar com isso?
Oficialmente, o Brasil diz que não está em confronto com os EUA e continua dialogando. Mas há uma tensão implícita. O Brasil está dizendo: somos soberanos, vamos fazer nossas próprias escolhas financeiras. Isso é um desafio à hegemonia americana, mesmo que velado.
Qual é o risco para o Brasil nessa operação?
O risco é que o yuan pode se desvalorizar, ou que as autoridades chinesas não aprovem a operação. Há também o risco político de irritar Washington. Mas o governo Lula avaliou que os benefícios de longo prazo — reduzir vulnerabilidade, diversificar fontes de financiamento — superam esses riscos.
Isso vai mudar o sistema financeiro global?
Não sozinho. Mas se Brasil, China, Índia e outros países começarem a fazer operações assim regularmente, sim, pode haver mudanças significativas. O que estamos vendo é o começo de um processo, não o fim.