Uma hora o carro vai parar
Em outubro, o Brasil adicionou 85 mil novos vínculos formais de trabalho — um sinal de que a economia ainda respira, mas com fôlego visivelmente menor do que nos meses anteriores. A desaceleração, lida à luz da alta da taxa Selic para 15% ao ano, revela a tensão permanente entre o controle da inflação e a geração de oportunidades para os que mais precisam delas. Jovens e mulheres foram os principais beneficiados deste ciclo, enquanto indústria e agropecuária recuaram, lembrando que o crescimento raramente é uniforme.
- O saldo de 85 mil empregos em outubro representa menos da metade dos 213 mil criados em setembro, acendendo alertas sobre a trajetória do mercado de trabalho formal.
- A taxa Selic elevada a 15% ao ano é apontada pelo ministro Luiz Marinho como o principal freio aos investimentos empresariais e, consequentemente, à geração de vagas.
- Serviços e comércio sustentaram o resultado positivo, mas indústria, construção civil e agropecuária registraram perdas, revelando um mercado de trabalho fragmentado.
- Mulheres conquistaram quase 78% das vagas do mês e jovens de 18 a 24 anos dominaram as contratações, indicando quem está na linha de frente da busca por emprego formal.
- O debate sobre a necessidade de redução dos juros ganha força, com o ministério pressionando o Banco Central a agir antes que a desaceleração se torne paralisação.
O Brasil encerrou outubro com saldo positivo de 85.147 empregos formais, segundo dados do Novo Caged divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O número, embora represente crescimento, ficou muito abaixo dos 213 mil postos criados em setembro — uma queda que não passou despercebida. No acumulado dos últimos doze meses, o país gerou 1,35 milhão de vagas, patamar inferior ao período equivalente anterior, que somou quase 1,8 milhão.
O resultado de outubro foi sustentado principalmente pelo setor de serviços, com 82 mil novas vagas, e pelo comércio, com 25 mil. Na contramão, indústria, construção civil e agropecuária registraram saldos negativos. Geograficamente, 21 dos 27 estados tiveram desempenho positivo, com São Paulo liderando em números absolutos e o Distrito Federal se destacando proporcionalmente.
O perfil das contratações revelou tendências marcantes: mulheres responderam por quase 66 mil das vagas geradas, e jovens entre 18 e 24 anos representaram 80 mil das admissões. O salário médio de admissão chegou a R$ 2.304,31, alta de 0,8% em relação a setembro, mas com disparidade significativa entre contratos típicos e não típicos.
O ministro Luiz Marinho foi direto ao apontar a causa da desaceleração: a taxa Selic, elevada de 10,5% para 15% ao ano, estaria inibindo investimentos e esfriando o mercado. Ele afirmou que vem alertando sobre esse risco desde meados de 2024 e cobrou do Banco Central sensibilidade para iniciar um processo de redução dos juros antes que a economia perca completamente o impulso.
O Brasil criou 85.147 postos de trabalho com carteira assinada em outubro, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Ministério do Trabalho e Emprego através do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. O número, embora positivo, marca uma desaceleração significativa em relação ao mês anterior. Setembro havia registrado 213.002 novas vagas formais — mais que o dobro do resultado de outubro. Comparado ao mesmo mês do ano passado, quando foram criadas 131.603 vagas, o desempenho de outubro é ligeiramente superior, mas a tendência de queda é inegável.
O saldo de outubro resultou de 2.271.460 admissões contra 2.186.313 desligamentos. Quando se observa o acumulado dos últimos doze meses, de novembro de 2024 a outubro de 2025, o Brasil gerou 1.351.832 postos de trabalho formais. Esse número fica abaixo do período equivalente anterior, que somou 1.796.543 vagas. O estoque total de empregos com vínculo celetista no país chegou a 48.995.950.
Dois dos cinco grandes setores da economia puxaram a criação de vagas. O setor de serviços liderou com 82.436 novos empregos, seguido pelo comércio com 25.592. Os demais setores apresentaram estabilidade ou retração. A indústria perdeu 10.092 vagas, a construção civil encolheu em 2.875 postos e a agropecuária registrou saldo negativo de 9.917 empregos. Geograficamente, 21 dos 27 estados tiveram saldo positivo. São Paulo destacou-se em números absolutos com 18.456 vagas, seguido pelo Distrito Federal com 15.467 e Pernambuco com 10.596. Em termos proporcionais, o Distrito Federal cresceu 1,5%, Alagoas 1% e Amapá 0,7%.
O perfil dos contratados revela dinâmicas importantes do mercado. Mulheres conquistaram 65.913 das 85.147 vagas, enquanto homens somaram 19.234. No setor de serviços, onde a maioria dos empregos foi criada, as mulheres ocuparam 52.003 posições contra 30.433 dos homens. Jovens de 18 a 24 anos representaram 80.365 das contratações, e adolescentes até 17 anos somaram 23.586. Esses dois grupos foram mais absorvidos pelos setores de serviços, comércio e indústria de transformação. Do total de postos gerados, 67,7% foram considerados típicos e 32,3% não típicos, com destaque para contratos intermitentes que somaram 15.056 vagas e jornadas de 30 horas ou menos com 10.693 posições.
O salário médio real de admissão em outubro foi de R$ 2.304,31, um aumento de R$ 17,28 ou 0,8% em relação a setembro. Para trabalhadores em regime típico, o salário foi de R$ 2.348,20, 1,9% acima da média. Já os trabalhadores não típicos receberam R$ 1.974,07, 14,3% abaixo da média, evidenciando a disparidade entre tipos de contrato.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, atribui a desaceleração à política de juros do Banco Central. A taxa Selic, que estava em 10,5% ao ano até setembro de 2024, foi elevada para 15% ao ano. Marinho vem alertando desde maio ou junho sobre os riscos dessa trajetória. "Venho chamando atenção desde maio ou junho da necessidade de o Banco Central olhar com atenção, pois a economia entraria num processo de desaceleração. O problema é que se você vai desacelerando, uma hora o carro vai parar", afirmou. Segundo ele, investimentos de empresas estão comprometidos pela alta dos juros, e o Banco Central precisa tomar medidas urgentes para reduzir a taxa. "Há um grande entendimento de que isso está inibindo o ritmo dos investimentos. É hora mais que urgente o Banco Central ter a sensibilidade de entender ser necessário esse processo de diminuição dos juros", acrescentou.
Citações Notáveis
Se você vai desacelerando, uma hora o carro vai parar— Luiz Marinho, ministro do Trabalho e Emprego
É hora mais que urgente o Banco Central ter a sensibilidade de entender ser necessário esse processo de diminuição dos juros— Luiz Marinho
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que outubro foi tão diferente de setembro? A queda foi abrupta.
Setembro foi um mês atípico, com 213 mil vagas. Outubro voltou a um patamar mais próximo do histórico, mas ainda assim abaixo do que se esperaria. O que preocupa não é um mês isolado, mas a tendência nos últimos doze meses — estamos gerando menos empregos do que no período anterior.
O ministro culpa os juros. Mas como exatamente uma taxa de juros mais alta mata empregos?
Quando os juros sobem, empresas precisam pagar mais para tomar dinheiro emprestado. Isso desestimula expansão, novos projetos, contratações. Se você quer crescer mas o crédito fica caro, você espera. E enquanto espera, não contrata.
Mas as mulheres e os jovens estão sendo contratados em números altos. Isso não contradiz a história de desaceleração?
Não exatamente. Esses grupos historicamente ganham menos e aceitam contratos mais precários — intermitentes, part-time. Eles estão sendo absorvidos porque são mais baratos e flexíveis. É um sinal de que o mercado está se ajustando para baixo, não crescendo de verdade.
E a diferença salarial entre trabalhadores típicos e não típicos — 14,3% — é significativa?
Muito. Significa que enquanto alguns ganham salários decentes, uma parcela crescente entra no mercado por menos. Isso reflete uma segmentação do mercado de trabalho que tende a piorar em períodos de desaceleração.
O que o Banco Central deveria fazer, na visão do ministro?
Reduzir a Selic. Ele argumenta que 15% é insustentável para a economia real. Menos juros significaria crédito mais barato, empresas investindo mais, e portanto mais contratações. É um debate legítimo sobre prioridades econômicas.