Dobrar e agravar a crise com nosso segundo maior parceiro comercial não é sensato
No limiar de uma nova rodada de protecionismo americano, Jair Bolsonaro emerge das redes sociais não como ex-presidente, mas como intérprete de uma visão de mundo: a de que o Brasil deve ceder, não confrontar, diante do poder econômico dos Estados Unidos. Sua defesa de Trump e sua crítica ao governo Lula revelam menos uma análise comercial do que uma disputa mais profunda sobre identidade política e memória de governo. O episódio lembra que as tarifas, mais do que barreiras econômicas, são espelhos nos quais nações — e seus líderes — se enxergam.
- Trump anuncia novo pacote tarifário e o Brasil se vê diante de uma escolha urgente: retaliar ou recuar.
- Bolsonaro rompe o silêncio com postagens em dois idiomas, transformando uma crise comercial em munição política contra Lula.
- O ex-presidente reescreve sua própria história ao afirmar que evitou tarifas sobre o aço em 2019 — omitindo que restrições significativas vieram mesmo assim em 2020.
- O governo atual busca uma postura mais assertiva, enquanto Bolsonaro prega submissão estratégica como virtude diplomática.
- A disputa sobre como responder a Washington aprofunda a fratura política brasileira e deixa o país sem uma voz unificada no cenário comercial global.
Enquanto os Estados Unidos preparavam um novo pacote de tarifas, Jair Bolsonaro recorreu às redes sociais para defender Donald Trump e atacar o governo Lula. Em postagens em português e inglês, o ex-presidente argumentou que uma guerra comercial com Washington não protegeria os interesses brasileiros — e que a solução estaria em abandonar o que chamou de "mentalidade socialista" do governo atual, que mantém tarifas altas sobre produtos americanos.
Para Bolsonaro, Trump estaria apenas protegendo seu país contra um "vírus socialista", e responder com retaliação seria agravar desnecessariamente a relação com o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Ele apresentou a concessão como prudência e o confronto como irresponsabilidade.
O ex-presidente aproveitou o momento para reivindicar crédito por sua própria gestão das relações com Washington, afirmando ter evitado, pelo diálogo direto com Trump, a aplicação de tarifas sobre o aço brasileiro em dezembro de 2019. A narrativa, porém, encontra resistência nos fatos: em 2020, o governo americano impôs restrições significativas ao aço brasileiro de qualquer forma, em plena campanha eleitoral de Trump. O governo Bolsonaro, na época, optou por não fazer críticas públicas, expressando apenas a "firme expectativa" de que o diálogo futuro reverteria a situação.
O que Bolsonaro apresenta hoje como modelo de diplomacia foi, na prática, uma estratégia de não confrontação que não impediu os danos econômicos. Agora, essa mesma postura é oferecida como receita ao governo Lula — que, por sua vez, busca uma resposta mais assertiva às novas tarifas. A disputa entre os dois campos sobre como o Brasil deve se posicionar diante dos Estados Unidos promete se intensificar conforme as tensões comerciais avançam.
Enquanto os Estados Unidos se preparavam para anunciar um novo pacote de tarifas, Jair Bolsonaro tomou as redes sociais para defender Donald Trump e criticar duramente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente, que deixou o cargo em 2022, posicionou-se contra qualquer confronto comercial entre Brasil e América, sugerindo que a resposta correta às medidas protecionistas americanas seria uma mudança radical na política econômica brasileira.
Em postagens em português e inglês, Bolsonaro argumentou que uma guerra comercial com os Estados Unidos não representaria uma estratégia inteligente para proteger os interesses do povo brasileiro. Para ele, o governo Lula deveria abandonar o que chamou de "mentalidade socialista" que mantém tarifas altas sobre produtos americanos, impedindo que consumidores brasileiros tivessem acesso a bens de qualidade com preços mais acessíveis. Essa posição refletia uma visão de que a solução não estava em retaliação, mas em concessão.
Bolsonaro também procurou enquadrar as ações de Trump como legítima defesa nacional. Segundo ele, o presidente americano estaria simplesmente protegendo seu país contra o que descreveu como um "vírus socialista". Nessa lógica, a postura do governo atual brasileiro não apenas era equivocada, mas perigosa: "dobrar e agravar a crise com nosso segundo maior parceiro comercial não é uma resposta sensata", declarou.
O ex-mandatário aproveitou o momento para relembrar sua própria gestão das relações comerciais com Washington. Bolsonaro afirmou ter evitado, através do diálogo direto com Trump, que tarifas sobre o aço brasileiro fossem aplicadas em 2019. Ele citou especificamente o dia 2 de dezembro daquele ano, quando Trump havia anunciado a intenção de sobretaxar o aço brasileiro. Segundo Bolsonaro, sua resposta foi manter a serenidade e agir com responsabilidade, sem ceder ao que chamou de alarmismo da imprensa.
No entanto, a realidade histórica foi mais complexa. Em 2020, o governo americano de fato impôs restrições significativas ao aço brasileiro, contrariando a expectativa de Bolsonaro de uma relação privilegiada com a Casa Branca. A decisão veio em um momento crítico da campanha eleitoral de Trump, quando o setor siderúrgico era visto como essencial para sua base de apoio político. Apesar dessa medida, o governo brasileiro da época evitou fazer críticas públicas, optando por uma abordagem diplomática que expressava esperança em futuras negociações.
A nota oficial do governo Bolsonaro na época refletia essa postura conciliadora, mencionando a "firme expectativa" de que o diálogo franco e construtivo permitiria a recuperação do comércio de aço entre os países. Essa estratégia de não confrontação, mesmo diante de medidas que prejudicavam a economia brasileira, agora era apresentada por Bolsonaro como o modelo correto a ser seguido pelo governo Lula.
O posicionamento de Bolsonaro revelava uma divisão clara sobre como o Brasil deveria responder às pressões comerciais americanas. Enquanto o governo atual buscava uma postura mais assertiva diante das novas tarifas anunciadas por Trump, o ex-presidente argumentava que a submissão estratégica e a mudança de política econômica interna eram o caminho mais prudente. As tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, com potencial para afetar setores estratégicos das exportações brasileiras, continuariam a ser um ponto de disputa política entre os dois lados.
Citas Notables
Uma guerra comercial com os Estados Unidos não é uma estratégia inteligente que proteja os interesses do povo brasileiro— Jair Bolsonaro, ex-presidente
A única resposta razoável às tarifas recíprocas dos EUA é que o governo Lula abandone a mentalidade socialista que impõe altas tarifas aos produtos americanos— Jair Bolsonaro, ex-presidente
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Bolsonaro escolheu defender Trump justamente neste momento, quando as tarifas podem prejudicar a economia brasileira?
Ele vê a questão através de uma lente ideológica. Para Bolsonaro, o problema não é Trump impor tarifas, mas o Brasil ter políticas que ele considera socialistas. Defender Trump é uma forma de criticar Lula.
Mas ele mesmo sofreu com tarifas de aço em 2020. Como justifica isso?
Ele reescreve a história. Diz que evitou tarifas em 2019, mas ignora que em 2020 elas foram impostas mesmo assim. Sua estratégia era aceitar isso silenciosamente, e agora quer que Lula faça o mesmo.
Qual é o risco real dessa postura para o Brasil?
Se o Brasil não responde às tarifas americanas, fica vulnerável. Mas Bolsonaro argumenta que a resposta não é retaliação, é mudar a economia interna. É uma aposta de que submissão traz benefícios.
Trump realmente protege o Brasil, ou apenas seus próprios interesses?
Trump protege os interesses americanos. Bolsonaro interpreta isso como proteção legítima. Mas a história do aço mostra que mesmo com diálogo, os EUA fazem o que querem quando convém politicamente.
O que Lula deveria fazer, segundo essa lógica?
Bolsonaro quer que Lula abra a economia brasileira, reduza tarifas sobre produtos americanos, e confie que Trump retribuirá com menos pressão. É uma estratégia de apaziguamento.