O efeito colateral não pode ser mais danoso que o próprio vírus
No auge da maior crise sanitária de sua história, o Brasil assistia a uma tensão que vai além da política: um presidente convicto de que o remédio econômico não pode ser pior que a doença, enquanto mais de três mil compatriotas morriam por dia. A disputa entre Bolsonaro e os governadores sobre lockdowns revelava, em abril de 2021, uma fratura profunda sobre o que significa proteger um povo — e quem tem o direito de decidir.
- O Brasil tornava-se o epicentro global da pandemia, com mais de 3 mil mortes diárias e 328 mil óbitos acumulados, enquanto o presidente gravava vídeos sem máscara em visitas beneficentes.
- Bolsonaro acionou o STF contra governadores que fecharam atividades econômicas, transformando a resposta à pandemia em uma batalha jurídica e política de alcance nacional.
- O presidente oscilava publicamente sobre a própria vacinação — ora recusando, ora se dizendo aberto — enquanto Brasília já imunizava sua faixa etária naquele sábado.
- O governo prometeu o apoio das Forças Armadas à campanha de vacinação, mas o verdadeiro gargalo era a escassez de doses, fruto da demora em fechar contratos com fornecedores.
No sábado de abril de 2021, com o Brasil no pior momento de sua pandemia, Jair Bolsonaro gravou um vídeo durante visita a uma associação beneficente nos arredores de Brasília — sem máscara, ao lado do novo ministro da Defesa, Walter Braga Netto. Sua mensagem era a mesma de sempre: o desemprego gerado pelos lockdowns era tão destrutivo quanto o próprio vírus. "A política de lockdown tem um efeito colateral muito grave, que é o desemprego. O efeito colateral não pode ser mais danoso do que o próprio vírus", afirmou ao retornar ao Palácio da Alvorada.
A tensão com os governadores havia escalado ao ponto de o presidente acionar o Supremo Tribunal Federal contra aqueles que fecharam atividades econômicas em resposta ao colapso de seus sistemas de saúde. Para Bolsonaro, manter empregos e garantir o sustento das famílias era uma questão que não podia ser ignorada em nome das restrições sanitárias.
Sobre a vacinação, o presidente mantinha uma posição ambígua. Após meses dizendo que não se vacinaria, afirmou estar aberto à possibilidade — mas condicionou sua decisão ao argumento de que, já imunizado pela infecção anterior, sua dose deveria ir a quem corria maior risco. Brasília havia começado a imunizar sua faixa etária naquele mesmo dia, mas quando Bolsonaro efetivamente se vacinaria permanecia indefinido.
O governo anunciou o envolvimento das Forças Armadas na campanha de imunização, mas o obstáculo central não era logístico: era a falta de doses, consequência direta da demora do Brasil em negociar contratos com fornecedores. Com 328 mil mortes acumuladas e recordes diários sendo quebrados, a capacidade de resposta do país permanecia limitada precisamente onde mais importava.
No sábado, enquanto o Brasil enfrentava seu pior momento na pandemia de Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro reiterou sua crítica às restrições impostas por governadores estaduais. Com mais de três mil mortes por dia em média na semana anterior, o país havia se tornado o epicentro global da doença — e ainda assim, Bolsonaro mantinha sua posição contra as medidas de isolamento social que as autoridades sanitárias recomendavam para conter a circulação do vírus.
Em um vídeo gravado durante visita a uma associação beneficente nos arredores de Brasília, o presidente argumentou que o desemprego causado pelas políticas de lockdown era tão prejudicial quanto a própria pandemia. "Cada vez mais, com mais desemprego, a política do fecha tudo e fica em casa, mais gente está comendo menos, alguns passando necessidades seríssimas", disse, enfatizando que a questão do emprego não poderia ser esquecida. Acompanhado pelo novo ministro da Defesa, Walter Braga Netto — que havia deixado a Casa Civil naquela semana como parte de uma reforma ministerial que mexeu no comando de seis ministérios — Bolsonaro falava sem máscara.
A disputa entre o presidente e os governadores estaduais havia se intensificado. Bolsonaro já havia apresentado uma ação ao Supremo Tribunal Federal contra chefes de Executivos estaduais que fecharam atividades econômicas diante do colapso de seus sistemas de saúde. Em entrevista aos repórteres no retorno ao Palácio da Alvorada, reforçou sua tese: "A política de lockdown tem um efeito colateral muito grave, muito danoso, que é o desemprego. O efeito colateral não pode ser mais danoso do que o próprio vírus."
Naquele momento, o Brasil havia registrado mais de 328 mil mortes pela Covid-19 desde o início da pandemia. Apesar dessa cifra, Bolsonaro continuava oscilando em sua posição sobre vacinação. Meses antes havia dito que não tomaria a vacina; agora, aos 66 anos, afirmava estar aberto à possibilidade. "Eu já estou imunizado com o vírus. Se acharem que eu devo me vacinar eu vacino, sem problema nenhum", declarou, embora argumentasse que sua dose deveria ir para alguém que ainda não havia contraído o vírus e corria maior risco. Brasília havia começado a imunizar sua faixa etária naquele sábado, mas o presidente deixava em aberto quando efetivamente se vacinaria.
O governo anunciou que as Forças Armadas seriam colocadas à disposição do Ministério da Saúde para apoiar a campanha de imunização. Porém, o maior obstáculo à vacinação não era falta de pessoal: era a escassez de imunizantes, resultado da demora do Brasil em fechar contratos com fornecedores. Enquanto o país enfrentava recordes de mortes diárias, a capacidade de resposta através da vacinação permanecia limitada pela disponibilidade de doses.
Citações Notáveis
Cada vez mais, com mais desemprego, a política do fecha tudo e fica em casa, mais gente está comendo menos, alguns passando necessidades seríssimas— Jair Bolsonaro
A política de lockdown tem um efeito colateral muito grave, muito danoso, que é o desemprego— Jair Bolsonaro
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o presidente insiste em criticar lockdowns justamente quando o Brasil atinge seu pior momento?
Porque para ele, a equação é simples: o custo econômico e social do isolamento é maior que o custo da própria doença. Ele vê os governadores como responsáveis pelo desemprego e pela miséria que cresce nas ruas.
Mas como ele justifica isso com três mil mortes por dia?
Ele não nega as mortes. Ele diz que o efeito colateral não pode ser pior que o vírus. É uma escolha entre dois males — e ele escolhe o que acredita ser menor.
E quanto à vacinação? Ele parecia resistente antes.
Mudou de tom. Agora diz que se vacina, mas não com urgência. Há uma contradição: quer que as Forças Armadas ajudem a vacinar, mas não há doses suficientes. É mais um gesto político que uma solução.
O que isso revela sobre como ele vê a crise?
Que para ele, a pandemia é um problema de saúde pública, mas o lockdown é um problema político. Um é da natureza; o outro é culpa de quem governa os estados.
E os 328 mil mortos?
São números. Reais, mas abstratos. O desemprego é concreto — é a pessoa que não come. Essa é a guerra que ele diz estar travando.