Bolsas de NY caem com pressão de chips e tensões no Oriente Médio

O mercado entrou em um modo de superação constante
Investidores agora exigem não apenas resultados fortes, mas perspectivas ainda melhores a cada trimestre.

Nasdaq caiu 1,16% enquanto petróleo disparou 5% após relatos de revogação de licença para venda de petróleo iraniano pelos EUA. Samsung registrou lucro 19 vezes maior, mas números foram considerados insuficientes, reacendendo dúvidas sobre avaliações elevadas de semicondutores.

  • Nasdaq caiu 1,16% para 25.818,69 pontos
  • Petróleo disparou 5% no pregão eletrônico após relatos sobre revogação de licença para petróleo iraniano
  • Samsung registrou lucro 19 vezes maior, mas ações caíram mais de 10%
  • DeepSeek anuncia desenvolvimento de chip próprio de IA com rodada de US$ 7 bilhões em preparação

Bolsas de Nova York fecharam em queda com tecnologia pressionada por tensões geopolíticas no Oriente Médio, resultados decepcionantes da Samsung e anúncio da DeepSeek sobre chip próprio de IA.

As bolsas de Nova York encerraram o pregão de terça-feira em território negativo, com os índices tecnológicos levando a pior enquanto o petróleo disparava em reação a notícias sobre a geopolítica do Oriente Médio. O Nasdaq recuou 1,16%, fechando em 25.818,69 pontos. O S&P 500 caiu 0,45%, a 7.503,85 pontos. O Dow Jones, menos exposto ao setor de tecnologia, registrou queda mais modesta de 0,25%, aos 52.925,15 pontos. Por trás dos números, uma combinação de fatores pressionava os mercados: relatos de que os Estados Unidos revogariam a licença que permitia a comercialização de petróleo iraniano em resposta a ataques contra embarcações no Estreito de Ormuz fizeram o barril disparar 5% no pregão eletrônico, após já ter fechado em alta de cerca de 3% no horário regular.

O cenário de maior risco geopolítico acelerou a fuga de investidores para fora de ativos considerados mais arriscados, e nenhum setor sofreu mais do que o de tecnologia ligado à inteligência artificial. A Intel despencou 9,66%. A Micron recuou 4,7%. A AMD caiu 6,5%. O fundo ETF de semicondutores da VanEck perdeu mais de 3%. Esses movimentos refletiam não apenas o apetite reduzido por risco, mas também dúvidas mais profundas sobre o próprio fundamento das avaliações elevadas que o setor vinha desfrutando.

O catalisador imediato para essas dúvidas veio da Samsung. A fabricante sul-coreana havia divulgado seus resultados do segundo trimestre e o número era impressionante em termos absolutos: o lucro operacional havia saltado 19 vezes em relação ao período anterior. Mas para os investidores que acompanhavam o setor, o resultado foi decepcionante. As expectativas criadas pelo boom da inteligência artificial haviam se tornado tão elevadas que até um crescimento de 19 vezes não era suficiente. As ações da Samsung chegaram a despencar mais de 10%, e o movimento reacendeu uma pergunta que vinha sendo sussurrada nos mercados: será que as empresas de semicondutores conseguiriam justificar as avaliações estratosféricas que estavam sendo precificadas? Será que os investimentos bilionários em infraestrutura de IA poderiam continuar gerando retornos cada vez maiores indefinidamente?

Joachim Klement, chefe de estratégia da Panmure Liberum, ofereceu uma explicação para o comportamento dos investidores. O mercado havia entrado em um modo que ele chamou de "superação e revisão para cima", no qual números positivos já não bastavam. Os investidores agora exigiam não apenas resultados fortes, mas perspectivas ainda melhores. Isso criava um padrão insustentável: a barra subia a cada trimestre, e qualquer resultado que não superasse as expectativas cada vez mais altas era punido severamente. Klement também apontou que a entrada da SpaceX no Nasdaq-100 naquele dia poderia aumentar a volatilidade, já que fundos indexados precisariam vender posições em tecnologia para abrir espaço para a nova integrante.

Mas enquanto as ações de fabricantes de chips caíam, havia movimento de rotação dentro do mercado de tecnologia. Empresas como Amazon, Alphabet e Microsoft, que estavam mais associadas à infraestrutura digital e software do que à fabricação de chips, registravam ganhos. Era como se os investidores estivessem se reorganizando, saindo de áreas que pareciam vulneráveis a um excesso de capacidade e entrando em outras que pareciam menos expostas a esse risco.

Em paralelo aos números da Samsung, a DeepSeek, a startup chinesa que havia se consolidado como a campeã nacional em inteligência artificial, anunciou que estava desenvolvendo seu próprio chip de IA. Segundo três fontes que falaram com a Reuters, o componente seria voltado para inferência — a etapa em que um modelo já treinado gera respostas aos usuários — e não para o treinamento de novos modelos. A iniciativa havia começado cerca de um ano antes e posicionaria a DeepSeek ao lado de gigantes globais como OpenAI e Anthropic, que também buscavam maior controle sobre o hardware que sustentava seus modelos. Para a DeepSeek, havia uma dimensão estratégica ainda mais importante: a empresa tinha dependido de chips da Nvidia e da Huawei, mas os controles de exportação dos EUA impediam que a China acessasse os semicondutores mais avançados — um desafio que o próprio fundador Liang Wenfeng havia reconhecido publicamente em 2024.

Se bem-sucedida, a iniciativa da DeepSeek poderia ampliar os desafios enfrentados pela Huawei, que controlava cerca de metade do mercado doméstico chinês de chips de IA, avaliado em US$ 50 bilhões, e tinha a DeepSeek entre seus principais clientes. Mas o caminho era longo. Desenvolver um chip competitivo normalmente levava anos, exigia capital significativo e enfrentava restrições de acesso às fundições estrangeiras mais avançadas e à memória de alta largura de banda. A DeepSeek, porém, estava se preparando para receber capital externo pela primeira vez, com uma rodada inicial estimada em US$ 7 bilhões e uma valuation entre US$ 52 bilhões e US$ 59 bilhões.

A SpaceX, que havia entrado no Nasdaq-100 naquele dia, caiu 6,8%, apesar de pelo menos seis instituições financeiras — incluindo Morgan Stanley, Goldman Sachs e UBS — terem iniciado cobertura com avaliações positivas. Michael Field, estrategista da Morningstar, observou que a inclusão no índice tenderia a gerar oscilações de curto prazo, mas deveria beneficiar os acionistas no longo prazo por meio do aumento da liquidez. Nem todos os analistas, porém, viam o movimento recente como uma mudança estrutural. Marija Veitmane, chefe de pesquisa em ações da State Street Global Markets, afirmou que os resultados da Samsung reforçavam que a demanda por tecnologia seguia extremamente forte, e que os números confirmavam o apetite contínuo por produtos relacionados à inteligência artificial.

O mercado entrou em um ambiente de superação e revisão para cima, no qual números positivos já não são suficientes para impulsionar as ações se não vierem acompanhados de perspectivas ainda melhores
— Joachim Klement, chefe de estratégia da Panmure Liberum
Os resultados da Samsung reforçam que a demanda por tecnologia segue extremamente forte e que poucas indústrias possuem atualmente um potencial de geração de lucros comparável ao do segmento de tecnologia
— Marija Veitmane, chefe de pesquisa em ações da State Street Global Markets
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a Samsung, com um crescimento de 19 vezes no lucro, foi punida tão severamente pelo mercado?

Model

Porque o mercado já havia precificado algo ainda maior. Quando as expectativas se tornam astronômicas, até números impressionantes podem parecer insuficientes. A Samsung não decepcionou em termos absolutos — decepcionou em relação ao que os investidores imaginavam que ela deveria entregar.

Inventor

E isso muda algo sobre a sustentabilidade do boom da IA?

Model

Muda tudo. Se as empresas precisam crescer cada vez mais rápido apenas para manter as avaliações atuais, em algum momento a matemática não fecha. O mercado está começando a questionar se os investimentos bilionários em infraestrutura de IA conseguem gerar retornos proporcionais indefinidamente.

Inventor

A DeepSeek desenvolvendo seu próprio chip — isso é uma ameaça real ou apenas um movimento simbólico?

Model

É ambicioso, mas o caminho é longo. Desenvolver um chip competitivo leva anos e exige acesso a tecnologias que a China não tem facilmente. Mas a intenção é clara: reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros em um contexto onde os EUA estão apertando os controles de exportação.

Inventor

Por que as ações de software como Amazon e Microsoft subiram enquanto as de chips caíram?

Model

Os investidores estão se reorganizando. Saem de áreas que parecem vulneráveis a um excesso de capacidade — muitos chips sendo fabricados, demanda questionável — e entram em empresas que parecem menos expostas a esse risco específico.

Inventor

A entrada da SpaceX no Nasdaq-100 importa neste contexto?

Model

Tecnicamente, sim. Fundos indexados precisam vender posições em tecnologia para abrir espaço para a SpaceX. Em um dia em que o setor já estava sob pressão, isso adiciona mais uma camada de volatilidade.

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