O programa está em posição de perda projetada, exigindo registro imediato de novos custos
A Boeing encerra mais um trimestre carregando o peso de suas próprias contradições: receitas acima do esperado convivem com uma baixa contábil de US$ 4,9 bilhões, enquanto o 777X — símbolo de uma ambição que se transformou em fardo — acumula quase US$ 16 bilhões em encargos e vê seu lançamento adiado para 2027. É a história de uma empresa que aprendeu a caminhar enquanto ainda sangra, gerando fluxo de caixa positivo pela primeira vez em quase dois anos, mas ainda refém de erros que antecedem a gestão atual. O novo presidente Kelly Ortberg herda não apenas uma companhia, mas uma promessa por cumprir — e o peso de saber que cada tropeço agora é imediatamente visível nos balanços.
- O prejuízo por ação de US$ 7,47 superou em quase 70% o que os analistas esperavam, transformando uma receita recorde em notícia amarga para os mercados.
- O 777X, sete anos atrasado e preso numa armadilha contábil de 'perda projetada', obriga a Boeing a registrar cada novo custo como uma ferida imediata nos resultados — sem margem para erros invisíveis.
- Uma greve que se aproxima dos 90 dias nas fábricas de St. Louis pressiona a divisão de defesa, adicionando incerteza a uma empresa que ainda não terminou de se estabilizar.
- O fluxo de caixa livre positivo de US$ 238 milhões e a entrega de 160 aeronaves — o maior volume desde 2018 — sinalizam que a linha de produção do 737 e do 787 está, finalmente, ganhando ritmo.
- As ações recuaram levemente no pré-mercado, mas acumulam alta de 26% no ano, sugerindo que o mercado aposta na recuperação de longo prazo mesmo diante das turbulências do trimestre.
A Boeing fechou o terceiro trimestre com uma receita de US$ 23,27 bilhões — acima das estimativas — mas o número que dominou os noticiários foi outro: uma baixa contábil de US$ 4,9 bilhões, que elevou o prejuízo por ação a US$ 7,47, quase o dobro do que Wall Street projetava. O responsável direto é o 777X, jato que deveria ser o carro-chefe da fabricante e que acumula agora quase US$ 16 bilhões em encargos, com entrada em operação adiada para 2027 — sete anos após o prazo original. Companhias como Emirates e Lufthansa revisaram seus planos de frota repetidas vezes enquanto esperavam por uma aeronave que ainda não chegou.
O que torna o problema estrutural é a posição contábil do programa: classificado como 'perda projetada', o 777X força a Boeing a registrar imediatamente qualquer custo adicional como encargo nos lucros, sem possibilidade de diluí-lo ao longo da produção. Cada novo imprevisto vira uma cicatriz visível no balanço.
Mas há sinais concretos de recuperação. A empresa gerou fluxo de caixa livre positivo de US$ 238 milhões — a primeira vez desde fins de 2023 — e entregou 160 aeronaves no trimestre, o maior volume desde 2018. A produção do 737 está sendo elevada em 10%, e o 787 Dreamliner também acelera. O alívio financeiro foi parcialmente ajudado pelo adiamento de um pagamento de US$ 700 milhões ao Departamento de Justiça, suspenso enquanto um juiz decide sobre um acordo relacionado aos acidentes fatais com o 737 Max.
O presidente Kelly Ortberg, no cargo há pouco mais de um ano, conduz a empresa em meio a múltiplas frentes abertas: a certificação de dois modelos do 737 Max, o impacto de uma greve que se aproxima dos 90 dias nas fábricas de St. Louis e as projeções sobre como o atraso do 777X afetará o caixa nos próximos dois anos. Analistas como George Ferguson, da Bloomberg Intelligence, reconhecem que a recuperação segue intacta — mas ressalvam que, quando se trata da Boeing, cautela nunca é excesso.
A Boeing enfrentou um terceiro trimestre marcado por contradições: números de receita que superaram expectativas, mas uma perda contábil de US$ 4,9 bilhões que ofuscou qualquer celebração. O prejuízo por ação chegou a US$ 7,47, bem acima dos US$ 4,44 que analistas previam. A receita, porém, somou US$ 23,27 bilhões, superando a estimativa média de US$ 22,3 bilhões — um sinal de que a fabricante está conseguindo aumentar entregas mesmo enquanto enfrenta tempestades internas.
O grande vilão dos resultados é o 777X, a aeronave que deveria ser um destaque da estratégia da Boeing. Esse jato, versão modernizada do popular modelo 777, acumula agora quase US$ 16 bilhões em encargos contábeis. O programa está sete anos atrasado, e a empresa anunciou que a entrada em operação só ocorrerá em 2027. Companhias aéreas como Emirates, maior compradora do 777X, e a Deutsche Lufthansa tiveram de revisar repetidamente seus planos de renovação de frota enquanto a Boeing adiava o lançamento vez após vez.
O que torna a situação ainda mais delicada é a metodologia contábil em que o 777X se encontra. O programa está em posição de "perda projetada", o que significa que os custos já ultrapassaram o ponto em que poderão ser recuperados nas primeiras 500 aeronaves que serão produzidas. Isso força a empresa a registrar imediatamente qualquer novo custo anormal ou excesso de gastos como encargo nos lucros — um mecanismo que transforma cada problema em uma ferida visível nos balanços.
Mas há sinais de recuperação em outras frentes. A Boeing gerou fluxo de caixa livre de US$ 238 milhões durante o trimestre, a primeira vez que isso ocorria desde os últimos meses de 2023. Esse resultado reflete o aumento nas entregas de jatos 737 e 787 Dreamliner, modelos que passaram por anos de atrasos custosos e falhas de qualidade. A empresa entregou 160 aeronaves durante o trimestre, o maior número desde 2018. O ritmo deve continuar acelerando: a Boeing está elevando a produção do 737 em 10%, para o nível mais alto recentemente aprovado pelos reguladores americanos.
O diretor-presidente Kelly Ortberg, que ocupa o cargo há pouco mais de um ano, enfrenta múltiplos desafios para estabilizar a empresa. Ele herdou uma companhia que foi forçada a captar recursos no ano passado, após um acidente quase catastrófico nos primeiros dias de 2024 que desorganizou a produção e levou a uma troca na alta administração. Em um memorando aos funcionários, Ortberg afirmou estar avançando com um plano mais confiável e tomando medidas para melhorar o desempenho.
A melhora no fluxo de caixa também reflete uma mudança no cronograma de um pagamento de US$ 700 milhões ao Departamento de Justiça dos EUA, valor que está suspenso enquanto um juiz do Texas decide sobre um acordo que permitiria à Boeing evitar uma acusação criminal relacionada aos dois acidentes fatais com o 737 Max. Esse adiamento ofereceu algum alívio financeiro no trimestre.
Ainda assim, preocupações pairam sobre a empresa. Uma greve dos trabalhadores das fábricas na região de St. Louis está prestes a completar 90 dias, impactando a divisão de defesa. Analistas estarão atentos para entender a extensão desse impacto quando Ortberg e o novo diretor financeiro Jay Malave realizarem a teleconferência de resultados. Também monitorarão os esforços para certificar os dois últimos modelos do 737 Max e as projeções sobre como o atraso do 777X afetará o caixa nos próximos dois anos.
As ações da Boeing caíram 0,7% nas negociações pré-mercado em Nova York após o anúncio, embora o papel tenha acumulado alta de 26% no ano. George Ferguson, analista da Bloomberg Intelligence, afirmou que a recuperação geral da Boeing continua intacta e que o cenário da cadeia de suprimentos provavelmente está melhorando — embora sempre haja motivos para preocupação quando se diz isso sobre a Boeing.
Citações Notáveis
Agora estamos avançando com um plano mais confiável e tomando medidas para melhorar nosso desempenho— Kelly Ortberg, diretor-presidente da Boeing
A recuperação geral da Boeing continua intacta, e o cenário da cadeia de suprimentos provavelmente está melhorando— George Ferguson, analista da Bloomberg Intelligence
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que uma perda contábil que não afeta o caixa consegue ofuscar resultados que superaram expectativas?
Porque os investidores e analistas leem a perda como um sinal de que a empresa está reconhecendo problemas reais. Mesmo que seja apenas um ajuste contábil, ele diz que os custos do 777X explodiram além do que era recuperável. É como admitir derrota em um programa estratégico.
O 777X estava atrasado há sete anos. Por que a Boeing só agora registra essa perda tão grande?
Porque o programa entrou em uma posição contábil chamada "perda projetada". Enquanto havia esperança de recuperar os custos, a Boeing podia diferir o reconhecimento. Quando ficou claro que não conseguiria, as regras contábeis a obrigaram a registrar tudo de uma vez.
Se o fluxo de caixa melhorou, a empresa está realmente se recuperando?
Parcialmente. O aumento nas entregas do 737 e 787 é real e importante — mostra que a produção está funcionando melhor. Mas o 777X continua sendo um buraco negro de custos. É como um paciente que está ganhando peso mas ainda tem uma infecção grave.
A greve de 90 dias na divisão de defesa é um problema separado ou conectado?
É separado, mas agrava tudo. A defesa é uma divisão importante para a saúde financeira geral. Noventa dias de greve significa perdas de receita e custos crescentes. Ninguém sabe ainda qual será o impacto real.
Ortberg tem tempo para consertar isso?
Ele tem apoio do governo Trump e beneficia do aumento nas encomendas de aeronaves. Mas o 777X é um problema estrutural que vai pesar nos próximos dois anos. Ele pode estabilizar a empresa, mas não pode fazer desaparecer US$ 16 bilhões em encargos.