Votar diretamente com dinheiro: quanto mais rico, mais poder político
Em um pedaço lamacento de várzea entre Sérvia e Croácia, bilionários da tecnologia erguem o esboço de uma nova ordem política: micronações onde o voto vale tanto quanto o saldo em criptomoedas. Projetos como Liberland e Próspera não são apenas experimentos excêntricos — são manifestações concretas de uma filosofia que questiona a democracia como instituição e propõe substituí-la por estruturas onde o poder flui naturalmente para quem controla a tecnologia. A humanidade já conheceu aristocracias de sangue e de terra; agora enfrenta a possibilidade de uma aristocracia de código.
- Bilionários como Justin Sun, com US$ 8,5 bilhões em fortuna, assumem cargos de governo em micronações onde votos são comprados com tokens digitais — tornando a desigualdade política não uma falha do sistema, mas sua regra fundamental.
- O lobby das criptomoedas injetou US$ 238 milhões no ciclo eleitoral americano mais recente, superando até a indústria de combustíveis fósseis e reescrevendo quem tem voz nas democracias que esses projetos dizem querer superar.
- Pensadores como Curtis Yarvin propõem abertamente 'monarquias corporativas' com 'reis-CEOs' no comando de exércitos e polícias — e suas ideias circulam entre figuras como Peter Thiel e o vice-presidente JD Vance.
- Plataformas como a Tron, de Justin Sun, são apontadas por analistas como vetores de movimentação de criptoativos ilícitos ligados a grupos como Hamas e cartéis de drogas, revelando as contradições entre o discurso libertário e a prática.
- A pergunta que esses projetos deixam sem resposta é a mais antiga da política: ao escapar do controle do Estado, a quem — e a quê — entregamos o poder em troca?
Chegar a Liberland de barco é chegar à decepção: uma faixa lamacenta de várzea no Danúbio, com barracas e casas na árvore. Mas o presidente Vít Jedlička exibe em realidade virtual torres reluzentes e parques flutuantes projetados pelo escritório de Zaha Hadid. A distância entre o que existe e o que se promete diz muito sobre o projeto.
O que torna Liberland singular não é o território, mas o sistema: em vez de um voto por pessoa, o poder político é proporcional à riqueza. Cidadãos votam com tokens de criptomoeda chamados Liberland Merits, que podem ser comprados. O ministro do Interior, Ivan Pernar — ex-deputado croata expulso do parlamento por teorias da conspiração —, não vê problema nisso. Quando questionado sobre a desigualdade de influência, responde simplesmente: 'Claro.'
O financiador central é Justin Sun, bilionário chinês com fortuna de US$ 8,5 bilhões e agora primeiro-ministro de Liberland. Sua blockchain Tron é apontada pela empresa de análise TRM Labs como uma das maiores plataformas para movimentação de criptoativos ilícitos, incluindo recursos ligados ao Hamas e a cartéis de drogas. Sun também investiu mais de US$ 75 milhões na empresa de criptomoedas da família Trump e garantiu um jantar com o presidente americano por meio de aportes em sua memecoin.
Liberland não está sozinha. Próspera em Honduras, o Seasteading Institute de Peter Thiel e a Draper Nation de Tim Draper compartilham a mesma premissa: o Estado-nação está ultrapassado e pode ser substituído por blockchain. Essas ideias têm raízes no pensamento de Curtis Yarvin, que propõe 'monarquias corporativas' governadas por 'reis-CEOs' com controle sobre forças armadas e polícia — e cujas ideias circulam entre figuras como Peter Thiel e o vice-presidente JD Vance.
O lobby das criptomoedas contribuiu com US$ 238 milhões no ciclo eleitoral americano mais recente, superando até a indústria de combustíveis fósseis. Esses bilionários afirmam que blockchain liberta do controle governamental. Mas todos os exemplos observados mostram o poder fluindo para quem detém o controle da tecnologia — uma resposta que a pergunta central desses projetos prefere não formular.
Quando você chega a Liberland de barco — a única forma permitida, já que as autoridades croatas bloquearam o acesso por terra — o que vê é pouco impressionante: uma faixa plana e lamacenta de várzea do rio Danúbio, pontilhada de amieiros, barracas e casas na árvore. Nada sugere que este pedaço de território disputado entre Sérvia e Croácia esteja conectado a alguns dos homens mais ricos do mundo, incluindo investidores de peso no negócio de criptomoedas da família Trump. Mas a versão em realidade virtual que Vít Jedlička, presidente de Liberland, apresenta mostra torres reluzentes, parques públicos flutuantes e estruturas aquáticas que desafiam a gravidade — um projeto arquitetônico do renomado escritório ZHA de Zaha Hadid.
Jedlička fundou esta micronação com um objetivo ambicioso: criar um país digital e verdadeiramente libertário, operado com a mesma tecnologia das criptomoedas. O que torna Liberland radicalmente diferente de qualquer democracia moderna é seu sistema de votação. Em vez de um voto por pessoa, o poder político em Liberland é proporcional à riqueza. Os cidadãos votam usando tokens de criptomoeda chamados Liberland Merits, que podem ser comprados. Quem possui mais tokens tem maior influência na escolha da liderança. Na prática, é votar diretamente com dinheiro.
O ministro do Interior, Ivan Pernar — um controverso ex-deputado croata expulso do parlamento por disseminar teorias da conspiração — não vê problema nisso. Quando confrontado sobre o fato de que algumas pessoas teriam mais liberdade que outras, ele responde simplesmente: "Claro". Pernar argumenta que sem seleção de quem entra no país, Liberland acabaria como o Reino Unido. Ele compara os pobres a animais, dizendo que alimentá-los os tornaria dependentes e incapazes de se sustentar. Para os apoiadores ricos de Liberland, qualquer forma de tributação ou redistribuição de riqueza é uma afronta à liberdade individual.
O financiador por trás dessa visão é Justin Sun, um bilionário chinês das criptomoedas com fortuna estimada em US$ 8,5 bilhões, que agora serve como primeiro-ministro de Liberland. Sun é talvez mais conhecido por ter comprado uma obra de arte consistindo em uma banana fixada a uma parede com fita adesiva por US$ 6,2 milhões — e depois tê-la comido. Ele também foi acusado por órgãos reguladores dos EUA de fraude e manipulação de mercado, negando as acusações e recentemente firmando um acordo de US$ 10 milhões para encerrar o caso. Sua empresa, a Tron, é uma blockchain descentralizada onde é possível comprar e vender criptomoedas sem uma autoridade central. Segundo a empresa de análise TRM Labs, a Tron é uma das maiores plataformas para movimentação de criptoativos ilícitos, incluindo fundos ligados ao Hamas e Hezbollah, além de recursos de cartéis de drogas. Sun afirma ter estabelecido novas parcerias com autoridades policiais para combater atividades ilegais.
Com o apoio de Sun e cerca de 30 outros bilionários da tecnologia, os habitantes de Liberland agora têm recursos para começar a construir sua micronação. Em Liberland, os cidadãos votam em leis e referendos usando tokens digitais, e a votação é contabilizada automaticamente por código em vez de por autoridades humanas — embora, na prática, ainda seja necessária intervenção humana para implementar as leis. Sun investiu mais de US$ 75 milhões na World Liberty Financial, empresa de criptomoedas da família Trump, além de milhões adicionais na memecoin de Donald Trump, investimento que lhe garantiu um jantar com o presidente. Trump lucrou mais de US$ 1,4 bilhão com criptoativos no último ano.
Liberlandnão é um caso isolado. Projetos como Próspera em Honduras, o Seasteading Institute de Peter Thiel e a Draper Nation de Tim Draper — um país totalmente digital que usa Bitcoin como moeda — buscam concretizar a mesma ideia: que o Estado-nação está ultrapassado e pode ser substituído por tecnologia blockchain. Essas visões remontam ao pensador Curtis Yarvin, frequentemente chamado de fundador do "Dark Enlightenment", cujas ideias conquistaram admiradores na direita americana, incluindo Peter Thiel e o vice-presidente JD Vance. Yarvin critica a democracia por ter falhado e propõe substituí-la por estruturas autoritárias que ele chama de "monarquias corporativas" governadas por "reis-CEOs" que responderiam a um conselho oculto de acionistas e poderiam controlar forças armadas e polícia.
O lobby das criptomoedas tornou-se o mais poderoso dos EUA, contribuindo com US$ 238 milhões no ciclo eleitoral mais recente, superando até a indústria de combustíveis fósseis. Esses bilionários da tecnologia veem Trump e seu cargo como algo ultrapassado, destinado a ser substituído por sua tecnologia superior. Todos afirmam que blockchain e criptomoedas podem nos libertar do controle governamental. Mas a pergunta permanece: a quem entregaríamos esse controle em troca? Todos os exemplos observados mostram a riqueza e o poder fluindo para quem detém o controle da tecnologia.
Citas Notables
As pessoas que possuem mais Merits têm maior influência na definição de quem assumirá a liderança do país— Vít Jedlička, presidente de Liberland
O governo presta um serviço ruim a um custo elevado e a tecnologia blockchain simplesmente o substituirá. É apenas uma questão de tempo— Tim Draper, bilionário investidor de tecnologia
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que alguém acreditaria que uma micronação sem governo central poderia funcionar melhor que democracias estabelecidas?
Porque para eles, democracia não funciona. Eles veem impostos, regulação e redistribuição de riqueza como roubo. A tecnologia blockchain promete remover a necessidade de intermediários — sem governo, sem burocracia, sem autoridades que possam taxá-los.
Mas Liberland ainda tem um presidente, um ministro do Interior. Como é diferente?
A diferença está em quem tem poder. Em democracias, um voto vale um voto. Em Liberland, seu voto é literalmente seu dinheiro. Se você é rico, você governa. Se é pobre, você não participa.
E as pessoas pobres? Eles não têm direitos?
Segundo o ministro Pernar, não. Ele compara pobres a animais que não devem ser alimentados, ou se tornarão dependentes. É uma filosofia que rejeita completamente a ideia de bem comum ou responsabilidade social.
Justin Sun parece ser o rosto disso tudo. Quem é ele realmente?
Um bilionário chinês que fez fortuna em criptomoedas, acusado de fraude por reguladores americanos, conhecido por comprar arte absurda. Mas também alguém com conexões profundas com a família Trump e influência real sobre como essas micronações são construídas.
A tecnologia blockchain é realmente descentralizada, ou apenas muda quem tem poder?
Muda quem tem poder. Blockchain remove o governo, mas coloca o controle nas mãos de quem detém a tecnologia e os tokens. É descentralização apenas em teoria. Na prática, concentra riqueza e influência ainda mais.
Isso pode realmente acontecer? Podem substituir democracia?
Eles têm dinheiro, influência política crescente e uma visão coerente. O lobby de criptomoedas já é o mais poderoso dos EUA. Liberland é um protótipo, um laboratório. Se funcionar, outros bilionários copiarão o modelo.