BdP trava créditos mas alarga prazo para jovens pagarem empréstimos

As pessoas usaram o alívio para pedir mais, não para respirar melhor
O Banco de Portugal observou que, apesar da queda das taxas de juro, o endividamento das famílias continuou a aumentar.

Taxa de esforço diminui para 45% para travar endividamento das famílias e reduzir risco de incumprimento em cenários de aumento de taxas de juro. Jovens até 35 anos ganham mais 3 anos para pagar créditos à habitação (até 40 anos), enquanto exceções aos limites caem de 15% para 10% dos novos empréstimos.

  • Taxa de esforço reduz de 50% para 45% a partir de 1 de agosto de 2026
  • Jovens até 35 anos ganham 3 anos adicionais para pagar créditos à habitação (até 40 anos)
  • Exceções aos limites caem de 15% para 10% dos novos empréstimos
  • Taxa de esforço no percentil 90 ultrapassa 40% na habitação e aproxima-se de 50% no consumo

O Banco de Portugal altera regras macroprudenciais para créditos à habitação e consumo a partir de 1 de agosto, reduzindo a taxa de esforço de 50% para 45% do rendimento, mas permitindo que jovens até 35 anos tenham até 40 anos para pagar empréstimos.

A partir de 1 de agosto, os bancos portugueses vão operar sob novas regras para conceder créditos à habitação e ao consumo. O Banco de Portugal alterou as suas recomendações macroprudenciais — diretrizes que os bancos devem respeitar, ainda que sem força legal — movido pela preocupação com sinais de risco crescente no mercado de crédito. A mudança reflete uma tensão fundamental: travar o endividamento das famílias enquanto se oferece aos mais jovens mais tempo para pagar os seus empréstimos.

O ponto central da reforma é a redução da taxa de esforço, a percentagem do rendimento consumida no pagamento de créditos. O limite desce de 50% para 45%, o que significa que após pagar todos os seus empréstimos, uma pessoa deve ter pelo menos 55% do seu rendimento disponível. A razão é clara: o Banco de Portugal observou que, apesar da queda das taxas de juro em 2024 e 2025 e do crescimento do rendimento disponível das famílias, o endividamento não diminuiu. Pelo contrário, as pessoas usaram essas melhores condições para contrair empréstimos maiores, em vez de reduzir o esforço financeiro. Isto é particularmente preocupante entre os mais jovens, onde a taxa de esforço tem crescido. Nos 10% dos contratos com maior endividamento, a taxa de esforço ultrapassa os 40% no crédito à habitação e aproxima-se dos 50% no crédito ao consumo.

A redução do limite tem um propósito preventivo: garantir que as famílias consigam cumprir os seus compromissos mesmo quando as circunstâncias mudam — por exemplo, se as taxas de juro subirem 1,5 pontos percentuais, cenário que o Banco de Portugal simula na sua avaliação. Simultaneamente, o banco central está a apertar as exceções às regras. Até agora, os bancos podiam ignorar as recomendações em 15% dos novos empréstimos. Esse limite cai para 10%, e nestes casos deixam de ter qualquer limite de taxa de esforço. A mudança simplifica as regras — algo que o FMI já tinha recomendado — mas também reduz a margem de manobra dos bancos.

Para os jovens, porém, há alívio. O prazo máximo para quem contrai um empréstimo à habitação com até 35 anos alarga-se de 37 para 40 anos, ganhando três anos adicionais para pagar. Para quem tem mais de 35 anos, o limite fica fixado em 35 anos. Esta concessão reconhece uma realidade: o mercado de crédito à habitação mudou significativamente. Há mais compradores de primeira habitação jovens, com rendimentos mais baixos e maior endividamento médio. O Banco de Portugal removeu também a recomendação de uma maturidade média de 30 anos para o crédito hipotecário — um objetivo que nunca foi alcançado. A maturidade média atual é de 32 anos, subindo para 37 anos e 11 meses quando há garantia pública do Estado.

Outra mudança relevante diz respeito à compra de imóveis aos bancos. Até agora, era possível pedir o valor total do crédito para casas adquiridas diretamente a instituições financeiras. Essa possibilidade termina. Agora, estas compras ficam sujeitas às mesmas regras que as outras: o empréstimo não pode exceder 90% do valor da casa na habitação, ou 80% no crédito ao consumo. Isto encerra um regime privilegiado que tinha sido criado para ajudar os bancos a libertar ativos imobiliários dos seus balanços.

O Banco de Portugal estimou os impactos destas mudanças. No curto prazo, haverá efeitos negativos moderados sobre o PIB, através do consumo e investimento, bem como sobre os preços da habitação. Mas estes efeitos tendem a dissipar-se a longo prazo. O que permanece é uma melhoria do perfil de risco das novas operações de crédito e uma maior resiliência dos mutuários face a choques económicos inesperados.

Por enquanto, estas são recomendações. Para se tornarem obrigatórias, será necessário alterar a lei — algo que o Banco de Portugal já pediu e que o FMI apoiou. Até lá, os bancos podem explicar se não as cumprirem, embora a pressão regulatória seja significativa. O que está em jogo é o equilíbrio entre permitir que os jovens acedam à habitação e evitar que o sistema financeiro acumule riscos que possam colapsar quando as condições mudarem.

A melhoria das condições financeiras tem sido, em parte, utilizada para suportar níveis mais elevados de endividamento, em vez de se traduzir numa redução do esforço financeiro dos mutuários
— Banco de Portugal
A redução do limite ao DSTI assume uma natureza preventiva e orientada para a mitigação de riscos sistémicos
— Banco de Portugal
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que é que o Banco de Portugal decidiu agora mexer nestas regras? Não era melhor deixar os bancos decidirem?

Model

O banco central viu sinais de risco real. Apesar das taxas de juro terem caído e as pessoas terem mais rendimento, o endividamento subiu em vez de descer. As pessoas estavam a usar o alívio financeiro para pedir empréstimos maiores, não para respirar melhor.

Inventor

E por que razão é que os jovens ganham mais tempo para pagar, se o objetivo é travar o endividamento?

Model

É uma concessão deliberada. O Banco de Portugal reconhece que o mercado mudou — há mais jovens a comprar casa, com rendimentos mais baixos. Se apertar muito, fecha-lhes a porta. Dar mais três anos para pagar torna o empréstimo mensal mais suportável, mesmo com a taxa de esforço mais baixa.

Inventor

Mas isso não é apenas adiar o problema? Se alguém não consegue pagar em 37 anos, como consegue em 40?

Model

Não é bem assim. O ponto não é estender indefinidamente. É reconhecer que um jovem de 30 anos pode ter 40 anos de vida laboral pela frente. Mas a taxa de esforço mais baixa significa que o montante do empréstimo inicial é menor — portanto, mesmo com mais tempo, está a pedir menos dinheiro.

Inventor

E se as taxas de juro subirem novamente? Essas pessoas vão conseguir pagar?

Model

Essa é exatamente a razão pela qual o Banco de Portugal simula aumentos de 1,5 pontos percentuais. Quer garantir que, mesmo com essa subida, as pessoas conseguem cumprir. A taxa de esforço de 45% deixa margem para isso.

Inventor

Qual é o risco real que o banco central está a tentar evitar?

Model

Uma crise de incumprimento em cascata. Se muitas famílias deixarem de conseguir pagar os empréstimos ao mesmo tempo — por desemprego, aumento de taxas, ou outro choque — o sistema financeiro inteiro sofre. O banco central está a tentar evitar que isso aconteça, mesmo que isso signifique que menos pessoas conseguem acesso ao crédito no curto prazo.

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