Não se trata apenas de um projeto técnico, mas de um esforço coletivo
Em Florença, no final de outubro de 2025, o Banco Central Europeu revelou o seu plano mais concreto até à data para transformar a natureza do dinheiro na Europa: a emissão do euro digital em 2029. Dependente da aprovação legislativa europeia prevista para 2026, o projeto representa não apenas uma inovação técnica, mas uma resposta institucional ao declínio gradual do dinheiro físico e à crescente dependência de sistemas de pagamento privados e estrangeiros. Com custos de desenvolvimento de 1.300 milhões de euros e um investimento bancário estimado entre 4.000 e 5.800 milhões, a Europa prepara-se para redefinir o que significa confiar numa moeda comum.
- O BCE fixou 2029 como data-alvo para o lançamento do euro digital, criando um calendário que pressiona os legisladores europeus a aprovarem a legislação necessária até 2026.
- Os bancos da zona euro enfrentam uma fatura de até 5.800 milhões de euros para integrar o novo sistema, uma transformação tecnológica sem precedentes no setor financeiro europeu.
- O número crescente de transações digitais e a dependência de plataformas privadas tornaram urgente a criação de um meio de pagamento público soberano, segundo o BCE.
- Para proteger a estabilidade financeira, o BCE propõe limitar os depósitos em euro digital a 3.000 euros por pessoa, equilibrando inovação com prudência sistémica.
- Exercícios piloto a partir de 2027 servirão de teste real antes do lançamento oficial, deixando uma janela de dois anos para corrigir falhas e ajustar o sistema.
O Banco Central Europeu reuniu-se em Florença no final de outubro com um objetivo que vai além das habituais decisões sobre taxas de juro: anunciar o calendário concreto para o euro digital. A instituição prevê a primeira emissão para 2029, condicionada à aprovação da legislação europeia em 2026 e a uma fase piloto que arrancará a partir de meados de 2027.
Os números são expressivos. O desenvolvimento custará 1.300 milhões de euros até ao lançamento, com custos operacionais anuais de 320 milhões a partir daí — uma despesa que o BCE e os bancos centrais nacionais assumirão, à semelhança do que já fazem com as notas físicas. Para os bancos comerciais, a integração do novo sistema implicará um investimento entre 4.000 e 5.800 milhões de euros ao longo de quatro anos, o que Piero Cipollone, responsável pelo projeto no BCE, considera proporcional e próximo das estimativas iniciais da Comissão Europeia.
O euro digital não pretende substituir as notas em circulação, mas complementá-las. Oferecerá privacidade, simplicidade e disponibilidade uniforme em toda a zona euro, com depósitos limitados a 3.000 euros por pessoa para não perturbar a estabilidade do sistema bancário. Os comerciantes beneficiarão de menores custos de transação e abre-se espaço para que empresas privadas inovem sobre esta nova plataforma pública.
Christine Lagarde enquadrou o projeto como uma adaptação necessária da moeda comum ao mundo digital, enquanto Cipollone o descreveu como um esforço coletivo para garantir a soberania monetária europeia. O destino do calendário, porém, repousa agora nas mãos dos legisladores: se o regulamento for aprovado em 2026, o caminho está traçado; se não, tudo se adia. O BCE deixou claro que já não vê o euro digital como uma possibilidade futura, mas como uma necessidade do presente.
O Banco Central Europeu reuniu-se em Florença no final de outubro para discutir não apenas as taxas de juro, mas também um projeto que moldará o futuro do dinheiro na Europa: o euro digital. A instituição anunciou que está a preparar a primeira emissão desta moeda digital para 2029, desde que os legisladores europeus aprovem a legislação necessária até 2026.
O calendário é ambicioso mas estruturado. Se o regulamento for adotado em 2026 conforme previsto, o BCE e os bancos centrais nacionais poderão começar exercícios piloto e operações iniciais a partir de meados de 2027. Essa janela de dois anos antes do lançamento oficial permitirá testar sistemas, identificar problemas e fazer ajustes antes de o euro digital estar disponível para cidadãos e comerciantes em toda a zona euro. O BCE deixou claro que a decisão final sobre se o euro digital será realmente emitido, e quando, dependerá da aprovação dessa legislação europeia.
Os números envolvidos são substanciais. O desenvolvimento do euro digital custará 1.300 milhões de euros até 2029. Depois disso, os custos operacionais anuais rondarão os 320 milhões de euros — uma despesa que o BCE e os bancos centrais nacionais assumirão, tal como fazem com a produção e emissão de notas de euro. Piero Cipollone, membro do comité executivo do BCE e presidente do grupo de trabalho sobre o euro digital, estimou que os bancos da zona euro terão de investir entre 4.000 e 5.800 milhões de euros para integrar o novo sistema. Distribuído ao longo de quatro anos, isso representa entre 1.000 e 1.440 milhões anuais — uma carga que Cipollone considera contida, próxima das estimativas iniciais da Comissão Europeia e comparável aos custos da Diretiva sobre Serviços de Pagamento. Para os maiores bancos supervisionados diretamente pelo BCE, estes custos anuais correspondem a aproximadamente 3,4% dos seus orçamentos de atualização tecnológica.
A necessidade de um meio de pagamento digital público tornou-se cada vez mais urgente, segundo o BCE, à medida que o número de transações em dinheiro físico diminui. O euro digital complementará as notas em circulação, não as substituirá. Oferecerá aos cidadãos europeus simplicidade, privacidade, confiabilidade e disponibilidade uniforme em toda a zona euro. O BCE também propõe que os depósitos em euro digital sejam limitados a 3.000 euros por pessoa, uma medida que a instituição considera suficiente para não representar risco para os bancos nem para a estabilidade financeira.
Christine Lagarde, presidente do BCE, enquadrou o projeto numa perspetiva mais ampla. "O euro, a nossa moeda comum, é um símbolo da confiança na unidade europeia," afirmou. "Trabalhamos para que a forma mais tangível — o dinheiro em euros — se adapte ao futuro, redesenhando e modernizando as nossas notas e preparando-nos para a emissão do dinheiro digital." Cipollone foi mais longe, descrevendo o euro digital como mais do que um exercício técnico: "Não se trata apenas de um projeto técnico, mas de um esforço coletivo para garantir o futuro do sistema monetário da Europa."
Os benefícios esperados estendem-se além dos cidadãos. Um euro digital permitirá aos comerciantes reduzir custos de transação e criará uma plataforma para que empresas privadas inovem e compitam. Reforçará a resiliência do cenário de pagamentos europeu, tornando-o menos dependente de soluções privadas ou estrangeiras. O BCE também apoia a proposta da Comissão Europeia de reforçar o direito de pagar com dinheiro físico — uma garantia de que o euro digital não eliminará a escolha dos cidadãos.
O projeto agora depende de legisladores europeus. Se aprovarem o regulamento em 2026, o caminho para 2029 está traçado. Se não, o calendário muda e a decisão do BCE sobre se e quando emitir o euro digital será adiada. O que está claro é que a instituição monetária europeia vê o euro digital não como uma opção futura, mas como uma necessidade presente.
Citas Notables
O euro, a nossa moeda comum, é um símbolo da confiança na unidade europeia. Trabalhamos para que a forma mais tangível — o dinheiro em euros — se adapte ao futuro.— Christine Lagarde, presidente do BCE
Não se trata apenas de um projeto técnico, mas de um esforço coletivo para garantir o futuro do sistema monetário da Europa.— Piero Cipollone, membro do comité executivo do BCE
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Porque é que o BCE sente tanta urgência em criar uma moeda digital agora?
O dinheiro físico está em declínio. Menos pessoas usam notas e moedas todos os dias. Se a Europa não oferecer uma alternativa digital pública, os cidadãos ficarão dependentes de soluções privadas — cartões de crédito, aplicações de pagamento de empresas estrangeiras. O euro digital é uma forma de o BCE manter a soberania monetária europeia.
Mas 1.300 milhões de euros é muito dinheiro para desenvolver uma moeda digital. Não existem já tecnologias prontas?
Existem, mas o euro digital não é apenas tecnologia. É um sistema que tem de funcionar em 20 países diferentes, com regulações diferentes, sistemas bancários diferentes. Tem de ser seguro, privado, acessível a todos — desde uma pessoa idosa até a um comerciante. Isso exige investimento significativo em infraestrutura.
E os bancos? Eles não vão perder dinheiro com isto?
Os bancos terão de investir entre 4.000 e 5.800 milhões de euros para integrar o sistema. Mas o BCE argumenta que é um custo controlado — cerca de 3,4% dos orçamentos anuais de tecnologia dos maiores bancos. Além disso, é um custo único, distribuído ao longo de quatro anos. Depois, o sistema fica pronto.
E se as pessoas começarem a guardar todo o seu dinheiro em euros digitais em vez de depósitos bancários?
Por isso o limite de 3.000 euros por pessoa. O BCE quer que o euro digital seja um complemento ao dinheiro físico e aos depósitos bancários, não uma substituição. Com esse limite, não há risco de as pessoas retirarem grandes quantidades dos bancos.
Quando é que isto realmente começa?
Tudo depende de legisladores europeus aprovarem o regulamento em 2026. Se aprovarem, há exercícios piloto a partir de 2027. Se tudo correr bem, o primeiro euro digital é emitido em 2029. Mas a decisão final do BCE só vem depois da legislação estar aprovada.
E se não for aprovada?
Então o projeto atrasa-se. Mas o BCE deixou claro que vê isto como essencial. A urgência é real. A Europa não pode ficar para trás nesta transição para o digital.