Bancos declaram guerra a Lemann, Telles e Sicupira por rombo na Americanas

Vamos partir para a briga e vamos para cima dos três na pessoa física
Banqueiro promete ações judiciais contra Lemann, Telles e Sicupira pessoalmente, rejeitando a possibilidade de aceitar perdas sem luta.

Quando uma das maiores varejistas do Brasil revelou um rombo de R$ 43 bilhões e pediu recuperação judicial, os três bilionários por trás da 3G Capital — Lemann, Telles e Sicupira — se apresentaram ao mundo como vítimas. Os bancos credores, com dezenas de bilhões em risco, responderam com fúria e ameaças de ação judicial na pessoa física dos controladores. O episódio levanta questões antigas sobre responsabilidade, poder e o preço moral do silêncio diante de uma crise que, para muitos, cheira a fraude.

  • A Americanas entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 43 bilhões, deixando os maiores bancos do país — Bradesco, Santander, Itaú, Safra, BTG e Banco do Brasil — com bilhões em risco imediato.
  • A nota divulgada pelos bilionários posicionando-se como acionistas prejudicados foi recebida pelos banqueiros como uma afronta: 'É fraude, é crime, não tem discussão', disse um deles sob anonimato.
  • O silêncio do trio sobre uma possível injeção de capital próprio — apesar de uma fortuna combinada de R$ 185 bilhões — é o principal combustível da revolta nas instituições financeiras.
  • Banqueiros ameaçam ir 'para cima dos três na pessoa física' e sinalizam que nenhum haircut de 80% será aceito sem uma luta judicial prolongada.
  • O contágio já ultrapassa a Americanas: ao menos um banqueiro declarou que o crédito para a Ambev e outras empresas do grupo pode ser cortado, colocando em risco a reputação e as operações do trio além do caso imediato.

No domingo à noite, Lemann, Telles e Sicupira divulgaram uma nota lamentando as perdas da Americanas e se posicionando como acionistas também prejudicados. A reação dos bancos foi imediata: o clima nas instituições financeiras passou a ser de guerra aberta contra o trio.

O tamanho do estrago explica parte da fúria. Com R$ 43 bilhões em dívida declarada na recuperação judicial, os maiores credores são nomes centrais do sistema financeiro brasileiro — Bradesco lidera com R$ 4,7 bilhões, seguido por Santander, Itaú, Safra, BTG e Banco do Brasil. Nenhum deles está disposto a absorver perdas em silêncio.

O que mais irrita os banqueiros é a ausência de qualquer proposta concreta de injeção de capital por parte dos bilionários, que juntos somam fortuna de R$ 185 bilhões. 'Não viram nada por mais de uma década? É fraude, é crime', disse um banqueiro sob anonimato. Outro apontou a contradição de Sicupira — financista experiente — se declarar vítima de irregularidades que teriam durado anos.

As ameaças são explícitas: os bancos prometem acionar os três na pessoa física e recusam qualquer proposta de haircut de 80%. Um presidente de banco foi além e sinalizou que o crédito para a Ambev e outras empresas do grupo pode ser cortado — colocando em risco não apenas a Americanas, mas toda a reputação construída pelo trio ao longo de décadas.

Entre os cenários que circulam nos bastidores estão a troca da dívida por participações em empresas como AB Inbev e Kraft Heinz, ou um alongamento da dívida após injeção de capital. Mas os bancos são unânimes: nenhuma solução será aceita sem que Lemann, Telles e Sicupira coloquem dinheiro real na mesa.

Os bancos estão furiosos. No domingo à noite, Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles — os três bilionários por trás da 3G Capital — divulgaram uma nota lamentando as perdas sofridas por investidores e credores da Americanas, posicionando-se como acionistas também prejudicados pelo rombo. A reação das instituições financeiras foi imediata e visceral. Banqueiros ouvidos pela reportagem não disfarçam a raiva: o clima nas casas de crédito é de guerra aberta contra o trio.

O tamanho do estrago explica parte da fúria. A Americanas declarou dívida de R$ 43 bilhões em pedido de recuperação judicial. Os maiores credores são os nomes mais pesados do sistema financeiro brasileiro — Bradesco com R$ 4,7 bilhões, Santander com R$ 3,7 bilhões, Itaú com R$ 3,4 bilhões, Safra com R$ 2,4 bilhões, BTG com R$ 1,9 bilhão e Banco do Brasil com R$ 1,3 bilhão. Cada um desses bancos tem pele no jogo, e nenhum está disposto a engolir perdas sem briga.

Mas o que realmente acende a mecha é o silêncio do trio sobre uma questão fundamental: vão injetar capital próprio para tentar salvar a companhia ou não? Lemann, Telles e Sicupira possuem uma fortuna combinada de R$ 185 bilhões. Para os banqueiros, a resposta deveria ser óbvia. Um deles, falando sob anonimato, foi direto: "Eles se dizem vítimas no comunicado. Isso não existe. Os três são profissionais. Não viram nada por mais de uma década? É fraude, é crime, não tem discussão". A reportagem apurou que o mercado especula sobre uma proposta dos três acionistas de referência até quarta-feira, 25 de janeiro.

O tom dos banqueiros é de quem está pronto para uma luta longa. "Não se trata de uma dificuldade da empresa. É fraude. Querem uma recuperação judicial e um haircut de 80%? De jeito nenhum. Vamos partir para a briga e vamos para cima dos três na pessoa física", promete um deles. Outro presidente de banco afetado pelo rombo aponta para o que considera uma contradição indefensável: "O Beto Sicupira é financista e acompanhava a empresa. Agora se diz vítima? Os três abriram mão do controle da companhia sem prêmio em 2021. Tudo muito estranho".

Há também preocupação com o efeito cascata. Um banqueiro expressa admiração negativa pela situação: "Me chama a atenção um empresário como o Lemann, aos 83 anos, manchar a biografia dele dessa forma". E avança em uma ameaça implícita: "Ninguém vai dar crédito para a Ambev e para as outras empresas deles. Acabou". A reputação do trio, construída ao longo de décadas, está em jogo — e com ela, a capacidade de suas outras operações de acessar crédito no mercado.

Os bancos já começam a desenhar cenários de saída. Uma possibilidade que circula entre as instituições é a troca da dívida por ações que o trio detém em outras empresas — a 3G Capital é acionista da AB Inbev, da Kraft Heinz e tem participações em diversas companhias de capital aberto. Outra alternativa seria uma injeção de capital seguida de alongamento da dívida. Mas nenhuma dessas soluções será aceita sem que o trio coloque dinheiro de verdade na mesa. O que vem pela frente é uma negociação tensa, com os bancos determinados a não absorver sozinhos o custo de um desastre que, em sua visão, foi causado por negligência ou algo pior.

Eles se dizem vítimas no comunicado. Isso não existe, os três são profissionais. Não viram nada por mais de uma década? É fraude, é crime, não tem discussão
— Banqueiro ouvido pela reportagem
Me chama a atenção um empresário como o Lemann, aos 83 anos, manchar a biografia dele dessa forma
— Banqueiro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que os bancos estão tão furiosos se Lemann, Telles e Sicupira também perderam dinheiro como acionistas?

Model

Porque a perda deles é proporcional à riqueza deles. Esses três têm R$ 185 bilhões. Os bancos veem uma escolha clara: eles podem injetar capital e resolver isso, mas não estão fazendo. Para os credores, isso não é vitimização — é negligência ou pior.

Inventor

O que significa exatamente quando um banqueiro diz que vai "partir para cima dos três na pessoa física"?

Model

Significa processos judiciais contra eles pessoalmente, não apenas contra a empresa. Os bancos acreditam que houve fraude ou crime, então querem responsabilizar os indivíduos, não apenas a Americanas como entidade legal.

Inventor

Como é possível que Sicupira, que é financista, não tenha visto um rombo de R$ 43 bilhões?

Model

Essa é exatamente a pergunta que os bancos estão fazendo. Para eles, não é uma questão de incompetência — é uma questão de intencionalidade. Se um financista experiente não viu, ou fingiu não ver, a culpa é dele.

Inventor

E se o trio simplesmente não tiver dinheiro líquido para injetar?

Model

Eles têm ações em empresas gigantescas como AB Inbev e Kraft Heinz. Podem vender, podem usar como garantia. Os bancos veem isso como uma desculpa, não como uma limitação real.

Inventor

Qual é o risco maior para Lemann e os outros — os processos ou o dano à reputação?

Model

Provavelmente o dano à reputação. Lemann tem 83 anos e construiu uma carreira inteira. Mas o efeito cascata é real — se os bancos não querem emprestar para a Ambev e outras empresas do 3G, isso afeta toda a operação deles, não só a Americanas.

Inventor

Então essa briga pode durar anos?

Model

Com certeza. Recuperação judicial é um processo longo, e se os bancos estão falando em fraude e crime, isso pode virar investigação criminal também. Não é uma negociação que se resolve em semanas.

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