Projetos que já eram necessários há cinco ou seis anos finalmente saem do papel
No coração do sistema elétrico brasileiro, um leilão realizado na B3 em 3 de julho revelou o apetite do mercado por infraestrutura de energia: a Axia, herdeira da Eletrobras privatizada, conquistou três dos quatro lotes disputados com deságios que chegaram a 59%, sinalizando que, mesmo diante de juros elevados, a previsibilidade da receita de transmissão ainda seduz investidores. Os ativos, antes abandonados pela MEZ Energia após atrasos que acionaram um processo de caducidade, retornam agora ao ciclo produtivo — carregando consigo a promessa de 4 mil empregos e 61 quilômetros de linhas que o país já precisava há meia década.
- Ativos paralisados por anos devido a atrasos da MEZ Energia voltam ao mercado após acordo entre o Ministério de Minas e Energia e o TCU — a urgência era real: o sistema elétrico esperava por essas linhas há cinco ou seis anos.
- Os deságios acima de 50% surpreenderam o setor, com o lote 8 em Mato Grosso do Sul atingindo 59% de desconto sobre a receita permitida, revelando uma disputa acirrada mesmo em ambiente de crédito caro.
- Juros elevados ameaçam o retorno dos investidores e afastam potenciais competidores, mas a previsibilidade da receita das concessionárias de transmissão funciona como escudo contra a volatilidade macroeconômica.
- A Axia, que já opera 37% do Sistema Interligado Nacional, consolida ainda mais sua posição dominante ao comprometer R$ 668 milhões em novos empreendimentos com receita anual projetada de R$ 50,8 milhões.
- A transferência gratuita de licenças ambientais e projetos básicos aos novos concessionários reduz riscos e acelera a implementação — uma solução pragmática para destravar obras que o país não pode mais adiar.
A Axia, empresa nascida da privatização da Eletrobras, saiu como grande vencedora do leilão de transmissão promovido pela Aneel na B3, em São Paulo, no dia 3 de julho. Dos quatro lotes em disputa, a empresa conquistou três — os lotes 8, 9 e 10 — enquanto o consórcio Olympus, formado por Alupar e Infra II Investment, ficou com o lote 7. Os ativos, que somam 61 quilômetros de linhas em São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, haviam sido devolvidos à União pela MEZ Energia após um processo de caducidade aberto pela Aneel por atrasos nas obras. Um acordo entre o Ministério de Minas e Energia e o TCU viabilizou a relicitação.
O que marcou o resultado foi a agressividade dos lances. A Axia ofereceu deságios superiores a 50% sobre a receita anual permitida em todos os seus lotes, chegando a 59% no lote 8, em Mato Grosso do Sul, onde seis empresas apresentaram propostas. O consórcio Olympus também foi competitivo, com 52% de deságio no lote 7. Para especialistas, esses números refletem tanto a forte concorrência quanto a atratividade estrutural dos projetos de transmissão, cuja receita previsível atrai investidores mesmo em cenário de juros altos — embora o custo elevado do crédito reduza margens e afaste alguns players.
Com a vitória, a Axia compromete R$ 668 milhões em investimentos e projeta receita anual de R$ 50,8 milhões após a entrada em operação comercial. A empresa já responde por cerca de 37% da extensão total do Sistema Interligado Nacional. Segundo seu vice-presidente executivo, Elio Wolff, os novos empreendimentos ampliam a capacidade do sistema de sustentar a transição energética. Para facilitar a execução, o acordo de relicitação determinou que a Aneel transferisse gratuitamente aos novos concessionários todos os estudos, licenças ambientais e projetos básicos — reduzindo riscos e encurtando prazos. A expectativa é que os projetos gerem cerca de 4 mil empregos até 2029.
A Axia, a empresa que emergiu da privatização da Eletrobras, saiu como grande vencedora de um leilão de transmissão realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica na B3 em São Paulo na sexta-feira, 3 de julho. Dos quatro lotes em disputa para construção e manutenção de linhas de energia, a Axia conquistou três deles — os lotes 8, 9 e 10 — enquanto o consórcio Olympus, formado por Alupar e Infra II Investment, levou o lote 7. Os ativos em questão, que somam 61 quilômetros de linhas distribuídas entre São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, haviam sido devolvidos à União pela empresa MEZ Energia após um processo de caducidade aberto pela Aneel devido a atrasos significativos no cronograma das obras. Um acordo entre o Ministério das Minas e Energia e o Tribunal de Contas da União permitiu que esses lotes fossem relicitados, abrindo caminho para que a Axia e seus concorrentes pudessem disputá-los.
O que chamou atenção no resultado foi a agressividade dos lances. A Axia ofereceu deságios superiores a 50% sobre a receita anual permitida, a remuneração que as concessionárias de transmissão recebem pela prestação do serviço de transporte de energia. No lote 10, em Mato Grosso, a empresa ofereceu R$ 23,7 milhões quando o valor máximo permitido era R$ 49,3 milhões — um deságio de 51,84%. No lote 9, em São Paulo, o lance foi de R$ 16,2 milhões contra R$ 37,9 milhões de receita permitida, representando 57,24% de desconto. O lote 8, em Mato Grosso do Sul, que recebeu seis propostas, teve o maior deságio: a Axia ofereceu R$ 10,8 milhões quando a receita permitida era R$ 26,4 milhões, um desconto de 59,04%. O consórcio Olympus também apresentou um lance competitivo no lote 7, oferecendo R$ 96 milhões contra R$ 201 milhões estabelecidos no edital — 52% de deságio.
Com essa vitória, a Axia amplia significativamente sua pegada no sistema de transmissão brasileiro. Os três empreendimentos demandarão investimentos totais de R$ 668 milhões e gerarão uma receita anual de R$ 50,798 milhões após entrarem em operação comercial. A empresa já opera cerca de 74 mil quilômetros de linhas de transmissão, o equivalente a 37% da extensão total do Sistema Interligado Nacional. Elio Wolff, vice-presidente executivo da Axia Energia, afirmou em nota que a empresa avalia cuidadosamente todas as oportunidades e que os empreendimentos conquistados ampliam a capacidade do sistema de transmissão de efetivar a transição energética.
O resultado do leilão reflete um mercado que busca soluções pragmáticas para desafios estruturais do setor elétrico. Wagner Ferreira, advogado especialista em energia e sócio do Caputo, Bastos e Serra Advogados, observa que o setor exige dos tomadores de decisão uma visão cada vez mais pragmática e flexível para resolver questões setoriais e buscar arranjos que tragam segurança energética e tarifas mais competitivas. A relicitação desses lotes exemplifica essa abordagem: ativos que não foram concluídos pela MEZ Energia voltam ao mercado com novas condições e novos operadores.
Diogo Nebias, advogado especialista em contratos de infraestrutura e sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados, interpreta os deságios de cerca de 50% como indicador de forte concorrência e atratividade dos projetos. Ele destaca que os leilões de transmissão continuam atraindo interessados mesmo em um cenário de juros mais altos, em parte porque a receita das concessionárias é previsível. Porém, ressalva que os juros elevados impactam a captação de recursos para investimento, reduzindo o retorno das empresas e afastando potenciais players. Segundo Nebias, esses quatro lotes representam projetos que já eram necessários há cinco ou seis anos e não foram concluídos, tornando sua finalização essencial para o sistema elétrico.
A expectativa é que a execução desses projetos gere aproximadamente 4 mil empregos até 2029. O acordo que permitiu a relicitação também determinou que a Aneel transferisse gratuitamente aos futuros concessionários todos os estudos, licenças ambientais e projetos básicos dos lotes, reduzindo riscos e facilitando a implementação. Este leilão foi a segunda sessão do primeiro leilão de transmissão do ano — a primeira ocorreu em março com cinco lotes ofertados e investimentos de R$ 3,3 bilhões. Juntos, os dois eventos demonstram um setor em movimento, buscando expandir a infraestrutura de transmissão em um momento em que a transição energética e a segurança do suprimento demandam investimentos contínuos.
Notable Quotes
Os empreendimentos conquistados ampliam a capacidade do sistema de transmissão de efetivar a transição energética— Elio Wolff, vice-presidente executivo da Axia Energia
O setor elétrico exige dos tomadores de decisão uma visão cada vez mais pragmática e flexível para resolver as questões setoriais e buscar soluções que tragam segurança energética e tarifas mais módicas— Wagner Ferreira, advogado especialista em energia
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a MEZ Energia devolveu esses lotes? Parece incomum uma empresa desistir de concessões.
A MEZ abriu mão deles por causa de um processo de caducidade — basicamente, perdeu a concessão porque não conseguiu cumprir o cronograma das obras. Atrasos significativos levaram a Aneel a abrir esse processo, e a empresa não conseguiu reverter.
E como esses ativos voltam ao mercado? Não é complicado legalmente?
Foi complicado, sim. Precisou de um acordo entre o Ministério das Minas e Energia e o Tribunal de Contas da União para que a relicitação fosse possível. Mas uma vez aprovado, abriu espaço para empresas como a Axia disputarem.
Os deságios acima de 50% parecem muito agressivos. A Axia está apostando em quê?
A empresa está apostando que consegue executar os projetos com eficiência e que a receita previsível — que é garantida por regulação — compensa o retorno menor. Mesmo com juros altos, a previsibilidade da receita anual atrai investidores.
Mas se os juros estão altos, por que mais empresas não estão participando?
Porque juros altos reduzem o retorno final. Menos players estão dispostos a investir em novos projetos quando o custo de capital sobe. A Axia tem escala e estrutura para absorver isso melhor que concorrentes menores.
Esses projetos já deveriam estar prontos há anos, certo?
Exatamente. Eram necessários há cinco ou seis anos. A MEZ não conseguiu entregar, e agora a Axia tem a responsabilidade de finalizá-los. É essencial para o sistema elétrico funcionar bem.
E os 4 mil empregos — são reais ou estimativa otimista?
É uma expectativa até 2029, então depende da execução. Mas considerando o volume de investimento — R$ 668 milhões — e a natureza do trabalho em infraestrutura, é uma projeção razoável.